Música & Cultura 25 OUT 2026

Zoom: como uma fabricante de pedaleiras de Tóquio virou sinônimo de gravador portátil

Fundada em 1983 por um ex-engenheiro da Korg, a Zoom começou com multiefeitos de guitarra, criou o “Handy Recorder” com o H4 e levou a gravação em 32 bits de ponto flutuante a aparelhos de bolso.

Gravador de campo multipista Zoom F6, de 2019, visto de frente com seis botões de ganho e tela colorida
MÚSICA & CULTURA

Se você já viu um videomaker com um gravadorzinho em cima da câmera ou um músico registrando ensaio com um aparelho do tamanho de um controle remoto, é bem provável que tenha visto um Zoom. A japonesa Zoom Corporation (nada a ver com o aplicativo de videochamada) passou quatro décadas sendo uma marca de nicho, de pedaleiras e multiefeitos, até virar praticamente sinônimo de gravador portátil. É uma história menos glamorosa que a das grifes de hi-fi, mas muito mais presente no dia a dia de quem grava.

Um engenheiro da Korg em Tóquio

A empresa foi fundada em 9 de setembro de 1983, no bairro de Sakumacho, em Chiyoda, Tóquio, segundo a página oficial de história da Zoom Corporation e o perfil corporativo publicado pela própria empresa. O fundador é Masahiro Iijima, que antes trabalhou cerca de cinco anos como engenheiro na Korg. Na entrevista ao programa de história oral da NAMM, gravada em 2014, ele conta que fundou a empresa com Michi Nozokido, colega dos tempos de Korg, e que queria aplicar o que aprendeu com Tsutomu Katoh, fundador da Korg, em engenharia, gestão e controle de qualidade.

A versão japonesa do histórico oficial define o objetivo inicial como desenvolvimento, fabricação e venda de instrumentos musicais eletrônicos. Em 1989, recebeu investimento da distribuidora Tomoe Shokai e virou subsidiária dela. A independência só veio em 1997, quando a parceria foi desfeita e os sócios criaram a Zoom Holdings para recomprar as ações.

O 9002 e a era dos multiefeitos

O primeiro produto com a marca própria foi o processador de multiefeitos para guitarra ZOOM 9002. O histórico oficial registra o lançamento em 1990, mesmo ano em que a empresa abriu uma subsidiária nos Estados Unidos. Algumas fontes, incluindo o resumo da NAMM, citam 1989, provavelmente a data de apresentação. A ideia era ousada para a época: um processador digital do tamanho de um walkman, pensado para ser usado no cinto, no pulso ou na correia da guitarra, como lembrou a revista Sound On Sound ao avaliar o sucessor 9002 Pro, em 1994 (cobertura secundária).

Ao longo dos anos 1990, a lista de produtos da marca é praticamente toda de efeitos: as séries 9000, a linha Player de pedaleiras, os compactos 505 e 506, depois as GFX e as famílias G e B. Há até edições assinadas, como a G1K, com o nome do guitarrista brasileiro Kiko Loureiro, de 2006 segundo a lista oficial.

Da mesa multipista ao gravador de mão

A virada para a gravação começou em 2001, com o primeiro gravador multipista da casa, o MRS-1044, e se consolidou em 2006 com o H4, o primeiro “Handy Recorder”. Em entrevista à revista Music Inc. em 2020 (cobertura secundária), Iijima disse que o H4 é seu produto favorito e que bancou o par de microfones em configuração XY contra a opinião do designer industrial. Ele também reivindica o nome “Handy Recorder” como criação sua, hoje usado quase como termo genérico.

A partir daí, o catálogo virou uma escadinha de gravadores: H2 (2007), H4n (2009), o pequeno H1 (2010), H2n (2011), H6 (2013), com cápsulas de microfone intercambiáveis, e H5 (2014). Na mesma entrevista, Iijima afirmou que a família H1/H1n já tinha passado de 1,3 milhão de unidades vendidas. É um número declarado pelo próprio fundador, não auditado, mas ajuda a entender por que tanta gente aprendeu a gravar com um Zoom na mão.

Câmera, campo e podcast

Vieram também os gravadores de vídeo da série Q (o Q3 em 2009), acessórios para celular (iQ5, 2013), a primeira interface de áudio (TAC-2, 2014), o primeiro gravador de campo profissional (F8, 2015), o mixer digital L-12 (2017) e o primeiro microfone próprio, o ZDM-1PMP, em 2020, mesmo ano dos gravadores para podcast PodTrak P4 e P8.

Tecnicamente, o marco mais importante dessa fase foi o F6, de 2019. Segundo a página oficial do produto, ele combina gravação em 32 bits de ponto flutuante com dois conversores A/D por canal, um para sinais baixos e outro para sinais altos. Na prática, a proposta é reduzir a chance de perder uma tomada por ajuste errado de ganho.

Bolsa, aquisições e a série Essential

Em 2017, a Zoom abriu capital na bolsa de Tóquio (código 6694), hoje no segmento Standard. Depois disso, a estratégia passou a incluir distribuição própria: a italiana Mogar Music (2018), o controle da Zoom North America (2020), a japonesa Hook Up (2021), a alemã Sound-Service (2023) e, em 2025, a sueca Instamic, de microgravadores. O fundador já não está no comando executivo: o perfil corporativo atual lista Shunsuke Kudoh como diretor-representante e CEO.

Em 2024 veio a série Essential, com H1essential, H4essential e H6essential, todos com 32 bits de ponto flutuante. A Zoom afirma que a linha foi projetada com recursos de acessibilidade para pessoas cegas e com baixa visão, com descrições faladas do menu no alto-falante ou no fone. Merece crédito. Analisamos a ficha técnica do modelo de entrada em Zoom H1essential vale a pena?.

O legado

A Zoom nunca teve a aura de uma Neumann ou de uma Nagra, e os próprios produtos refletem isso: plástico, menus densos, foco em preço. Mas poucas marcas fizeram tanto para tirar a gravação do estúdio. A trajetória lembra a da Tascam, outra japonesa que democratizou a gravação com o Portastudio, como contamos na história da TEAC e da Tascam. Se você quer usar esse tipo de aparelho no campo, nosso guia de gravação portátil explica técnicas e o que o 32 bits de ponto flutuante resolve (e o que não resolve).

Fontes

⌬ FIM · 5 min de leitura

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seja respeitoso
00:00 / 05:05