Em 1925, ano em que o Japão ouviu suas primeiras transmissões de rádio, uma loja de quadros e molduras de Osaka abriu um departamento para vender receptores. Cem anos depois, aquele balcão virou a Luxman, uma das marcas de amplificadores mais respeitadas do mundo. Ela é reconhecível de longe pelos medidores de ponteiro iluminados e por uma teimosia rara na indústria: continua projetando amplificadores valvulados e transistorizados lado a lado, como fazia nos anos 1960.
Uma loja de molduras que virou laboratório
Segundo a história oficial publicada pela Luxman, tudo começou no Kinsuido, comércio de Osaka que importava quadros e molduras e, por isso, recebia muita informação técnica do exterior. O fundador da Lux, segundo presidente do Kinsuido, fazia experimentos com rádio. A empresa diz ter sido a primeira a expor receptores na vitrine, e que os pedestres paravam para ouvir. A Wikipedia atribui a fundação, em junho de 1925, aos irmãos T. Hayakawa e K. Yoshikawa, mas sem fonte citada.
Ainda nos primeiros anos, a casa publicou o “Kinsuido Radio Book”, que a Luxman descreve como o primeiro manual de rádio do Japão. O livro chegou à 14ª edição. Em 1952, os transformadores de saída tipo OY mostravam a outra vocação da casa: fabricar componentes de qualidade em vez de depender de importados.
Válvulas, medidores e jazz
A era de ouro começa com o disco estéreo. Em 1958, a Lux lançou o amplificador de potência valvulado MA-7A, que a empresa chama de primeiro amplificador hi-fi totalmente montado de fábrica do pós-guerra, com um circuito de realimentação “cross-over NFB” patenteado. Em 1961 chegou o integrado SQ-5A, com o medidor de nível no centro do painel. Ali os medidores viraram assinatura.
Em 1962, o SQ-65 usava realimentação controlada pelo movimento do cone do alto-falante (motional feedback), e o pré de phono PZ-11 foi, segundo a marca, o primeiro do Japão com transistores de germânio. Em 1964 veio o SQ-38, integrado valvulado com gabinete de madeira e frontal de alumínio. A série durou décadas (SQ-38D, SQ-38F, SQ-38FD) e, nas palavras da própria Luxman, estava em praticamente todo jazz kissa, os cafés de audição de jazz japoneses. Em 1966, o MQ-36 dispensava o transformador de saída (OTL).
A linhagem 500 e a ambição internacional
Em 1968, os integrados SQ-505 e SQ-507 deram origem à série 500 da Luxman, cujo desenho e caráter sonoro a empresa diz ter mantido nos L-507 e L-509. Nos anos 1970, a Lux apostou em todas as frentes. Lançou a LUX Kit, com cerca de 70 kits de amplificadores, toca-discos e outros aparelhos para quem montava em casa. Em 1975, ano do cinquentenário, apresentou o amplificador M-6000, de 300 W por canal segundo a fabricante (que não informa carga nem distorção). A meta era o mercado hi-end do exterior. Em 1977, a Laboratory Reference Series trouxe o que a Luxman chama de primeira configuração de amplificador DC do mundo.
A inventividade foi além das amplificadoras: o toca-discos PD-300 (1980) prendia o disco ao prato por vácuo, e o DAC DA-07 (1987) usava a teoria de “fluency” do professor Toraichi, da Universidade de Tsukuba.
Os anos Alpine e a volta por cima
Os anos 1980 foram os mais turbulentos. A Lux entrou na órbita da Alpine, a gigante do som automotivo. A imprensa especializada ocidental, como a Hi-Fi+, data a compra de 1984, e fontes japonesas citam uma aliança de capital já em 1981. Seguiu-se uma década de produtos de massa com a marca dupla ALPINE/LUXMAN, que relatos da época associam a uma diluição da imagem da marca fora do Japão. A história da própria Alpine contamos no nosso perfil da Alpine Electronics.
A recuperação veio pelo topo. Em 1996, o pré C-10 e o power B-10, em acabamento champanhe, estrearam um atenuador com 456 resistores fixos de precisão. Em 1999, a Luxman estreou o ODNF (Only Distortion Negative Feedback), circuito que realimenta apenas a componente de distorção. Curiosamente, ele apareceu primeiro num amplificador automotivo, o CM-2100. Em 2001, o DU-10 levou a marca aos tocadores universais de SACD e DVD-Audio.
Sob a IAG, ainda japonesa
Por volta de 2009 e 2010 (a imprensa diverge sobre o ano exato), a Luxman passou ao International Audio Group, o grupo chinês que também é dono de Quad, Wharfedale e Audiolab. A página de marcas da IAG lista a Luxman até hoje. Ao contrário de outras marcas do grupo, como a Quad, a Luxman tem produtos projetados e fabricados no Japão, segundo a Hi-Fi+.
A fase recente reforçou as duas pernas da casa. As válvulas voltaram em 2004, com o CL-88 e o MQ-88, e em 2007 com o compacto NeoClassico. A Luxman também voltou aos toca-discos em 2011, com o PD-171, o primeiro desde 1983. No estado sólido, a página do integrado L-509Z descreve o LIFES (Luxman Integrated Feedback Engine System), sucessor do ODNF estreado no pré C-10X e no power M-10X. Ele vem com o atenuador LECUA-EX, dois grandes VU meters de ponteiro e potência nominal declarada de 120 W + 120 W em 8 Ω.
Cem anos, com o pé no futuro
O centenário de 2025 ganhou uma página especial no site japonês e a série CENTENNIAL. O primeiro modelo foi o amplificador de fones P-100 CENTENNIAL. Depois vieram o integrado L-100 CENTENNIAL (classe A pura, 20 W + 20 W em 8 Ω segundo a ficha), o D-100, o B-100 e as edições limitadas valvuladas CL-38uC e MQ-88uC.
Na nossa leitura, o mérito da Luxman é a coerência. Ela atravessou a troca do rádio pelo disco, do disco pelo CD e do CD pelo streaming, sobreviveu a um sócio que quase apagou sua reputação e continua fazendo o que sabe: amplificadores de construção exemplar, com medidores que fazem o ponteiro dançar. É caro e conservador, mas difícil de imitar. Se você está montando um sistema e quer opções mais acessíveis, veja a nossa seleção de DACs e amplificadores de mesa.
Fontes
- Luxman: Company / History (site oficial, inglês)
- Luxman: 会社概要 e LUXMANのあゆみ (site oficial, japonês)
- Luxman: página do centenário (創業100周年) (site oficial)
- Luxman: L-509Z (LIFES, ODNF, LECUA-EX) (fabricante)
- Luxman: P-100 CENTENNIAL e L-100 CENTENNIAL (fabricante)
- IAG: marcas do grupo (grupo controlador)
- Hi-Fi+: Luxman C-700u e M-700u (2016) (imprensa especializada, sobre Alpine e IAG)
- Wikipedia: Luxman (apoio secundário)