Quem viveu os anos 1980 e 1990 lembra: ter um toca-fitas ou CD player Alpine no painel era uma declaração. Mas a história da marca japonesa vai muito além do status de garagem. Foi a Alpine que, junto com a Honda, colocou o primeiro sistema de navegação num carro de série, que criou o primeiro equalizador computadorizado automotivo e que, décadas depois, ajudou a Apple a levar o iPod para o painel. Tudo isso começou como uma sociedade improvável entre uma fabricante de componentes de Tóquio e a americana Motorola.
Uma joint venture com a Motorola
A raiz da Alpine é a Alps Electric, fundada em 1948 como Kataoka Electric para fabricar chaves rotativas, e que adotou o nome Alps Electric em 1964, segundo o histórico oficial da Alps Alpine. Em 10 de maio de 1967, a Alps se associou à divisão automotiva da Motorola e criou a Alps Motorola Co., Ltd. A ideia era desenvolver eletrônica para o mercado automotivo japonês, que crescia rápido.
O primeiro produto veio em 1968: um mecanismo de toca-fitas de oito pistas, o formato que dominava os carros americanos na época. Em 1969, a empresa começou a fabricar rádios automotivos. Segundo o perfil da empresa publicado pelo International Directory of Company Histories, a Alpine abriu uma subsidiária de vendas em Torrance, na Califórnia, e depois uma fábrica em Greenwood, Indiana, a primeira fábrica japonesa de som automotivo na América do Norte. Na Europa, vieram escritórios em Düsseldorf, Paris e no Reino Unido.
Em 1978, a Alps comprou a participação da Motorola e a empresa passou a se chamar Alpine Electronics, Inc.
O carro que sabia onde estava
O marco mais importante da Alpine talvez nem seja de áudio. Em 1981, em parceria com a Honda, a empresa desenvolveu o Electro Gyrocator, reconhecido como o primeiro sistema de navegação automotiva do mundo. Não havia GPS civil: como o nome indica, o sistema se apoiava num giroscópio para estimar a posição do carro. Plantou a semente de tudo o que se usa hoje no painel.
No ano seguinte, em 1982, veio o primeiro equalizador computadorizado para carros. A relação com a Honda seguiria por décadas, com a Alpine fornecendo sistemas sem a própria marca estampada, inclusive a navegação em DVD da picape Ridgeline, segundo a Wikipédia.
A lição do tiro de pistola
Uma das histórias mais curiosas da marca está no museu da Alpine no Japão: um toca-fitas modelo 7307, do início dos anos 1980, com um buraco de bala. Segundo o relatório de responsabilidade corporativa da empresa de 2009, citado pela Wikipédia, um dono americano frustrado com o desempenho do aparelho atirou nele com uma pistola calibre .45 e o devolveu à fabricante. A Alpine levou o recado a sério e investiu US$ 25 milhões num centro de testes e avaliação em Iwaki, na província de Fukushima, cidade que até hoje abriga o centro de engenharia da empresa.
A era de ouro do CD e das competições
Nos anos 1980 e 1990, a Alpine virou referência entre os entusiastas. O CD tuner 7909, de 1990, e os amplificadores da série 3545 ficaram famosos com o Buick Grand National 1986 preparado pela SpeakerWorks para Richard Clark, carro que venceu o título Pro Unlimited da IASCA em 1989, 1990 e 1991 e se aposentou invicto nas competições de som. Em 1993, a marca lançou o 7980, o primeiro trocador de três CDs embutido no painel junto com o sintonizador.
Do início dos anos 1980 ao fim dos 1990, a Alpine fornecia som para a Lamborghini e usava o Countach, e depois o Diablo, como mascote em catálogos e feiras. No topo, surgiram o sistema F#1 Status e os amplificadores V12 AccuClass-D.
Do iPod ao CarPlay sem fio
A Alpine foi rápida em perceber que a música estava saindo do disco. Em 2004, lançou o KCA-420i, o primeiro adaptador de pós-venda para controlar o iPod pelo rádio do carro. Em 2007, o iDA-X001 foi o primeiro receiver desenvolvido em parceria com a Apple para o tocador. Em 2017, o iLX-107 se tornou o primeiro receiver de painel com Apple CarPlay sem fio, segundo a Wikipédia.
A força invisível das montadoras
Boa parte do faturamento da Alpine nunca veio das lojas de som. Em 2006, 76% da receita vinham de vendas OEM, isto é, de equipamentos fornecidos diretamente às montadoras. Honda e Volkswagen usaram sistemas Alpine sem a marca; Jaguar, Jeep e Land Rover ofereceram sistemas com o nome Alpine em destaque. A lista inclui ainda BMW, Mercedes-Benz e, a partir de 2011, vários modelos de Chrysler, Dodge e Jeep. A empresa mantém fábricas em vários países, entre eles o Brasil, além de Hungria, México, China e Tailândia.
Alps Alpine e a Alpine de hoje
Em 1º de janeiro de 2019, a Alps Electric comprou as ações da Alpine que ainda não controlava e as duas empresas integraram os negócios sob um novo nome, Alps Alpine Co., Ltd., listada na Bolsa de Tóquio. A Alpine continua existindo como marca e subsidiária dedicada a áudio e infoentretenimento automotivo.
No pós-venda, a marca aposta em receivers com tela grande para carros de painel apertado. O exemplo mais conhecido é o Halo11 iLX-F511, que encaixa uma tela flutuante de 11 polegadas num chassi 1-DIN, com CarPlay e Android Auto sem fio, áudio em alta resolução de 96 kHz/24 bits e equalizador paramétrico de 13 bandas por canal, segundo as especificações divulgadas pelos varejistas. Nos alto-falantes, linhas como a S-Series seguem como porta de entrada; nós já analisamos o kit componente Alpine S-S65C.
A Alpine nunca foi a marca mais barata, e as concorrentes japonesas, como a Pioneer, disputaram cada centímetro do painel. Mas poucas empresas podem dizer que mudaram tanto o que esperamos de um carro: que ele toque bem, que converse com o celular e que saiba para onde estamos indo. Se você está pensando em renovar o som do seu, comece pelo nosso guia de como montar um som automotivo de qualidade.
Foto: sede da Alpine em Iwaki (Japão), por Altomarina, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.