Entre num estúdio profissional em qualquer lugar do mundo e há boa chance de encontrar duas peças com o mesmo logotipo: um microfone C414 pendurado sobre um violão e um fone K240 no gancho da mesa de som. A AKG nasceu numa Viena devastada pelo pós-guerra, inventou ou popularizou formatos que hoje parecem óbvios — o microfone dinâmico cardioide, o fone aberto — e passou por fusões, aquisições e um fechamento traumático na cidade natal. É uma das histórias mais ricas do áudio profissional.
Viena, 1947: cinema, buzinas e cápsulas
A empresa foi fundada em 1947 pelo físico Rudolf Görike e pelo engenheiro Ernst Pless, com o nome de Akustische und Kino-Geräte Gesellschaft — “Sociedade de Equipamentos Acústicos e de Cinema”. A sigla AKG vem daí. Nos primeiros anos, o negócio era equipar cinemas austríacos com projetores, alto-falantes e fotômetros, e a empresa fabricava praticamente tudo o que envolvesse som: buzinas de carro, interfones, cápsulas de carvão para telefones e headsets.
O primeiro fone da casa, o K120 DYN, saiu em 1949. Era o começo de uma linha que se tornaria tão importante quanto a de microfones.
1953: o ano que definiu a marca
Dois lançamentos de 1953 explicam o lugar da AKG na história. O primeiro foi o D12, apontado como o primeiro microfone dinâmico cardioide de diafragma único do mundo. A captação cardioide — que privilegia o som da frente e rejeita o de trás — é hoje o padrão de quase todo microfone de palco. O D12 também é o avô do D112, lançado em 1986 e até hoje um dos microfones de bumbo mais usados em estúdios e shows, com seu pico de presença em torno de 4 kHz que ajuda o ataque do bumbo a aparecer na mixagem.
O segundo foi o C12, com a cápsula CK12, desenvolvido a pedido da rádio estatal austríaca. Segundo a Harman, foi o primeiro microfone condensador de diafragma grande com padrão polar selecionável remotamente — nove padrões, escolhidos numa caixa de controle longe do microfone. O C12 virou objeto de culto, e a cápsula CK12 é uma das mais copiadas da história.
O fone aberto e o reinado nos estúdios
Em 1959, a AKG lançou o K50, descrito como o primeiro fone circum-aural (over-ear) aberto do mundo, segundo a retrospectiva da Harman. A ideia de deixar o fone “respirar”, em vez de vedá-lo, dava um som mais natural e menos cansativo — e abriu um caminho que a marca seguiria por décadas.
O K240, lançado em 1975 segundo a retrospectiva oficial da Harman, tornou-se um dos fones semiabertos de estúdio mais vendidos de todos os tempos. Em 1978 veio o K340, um híbrido de driver dinâmico com eletrostático, e em 1989 o lendário K1000, com drivers praticamente soltos diante das orelhas, chamado pela própria AKG de “earspeaker”. Já fora de linha, o K1000 é disputado no mercado de usados.
Em 2005, o K701 estreou com bobina de fio plano e diafragma Varimotion de duas camadas, e virou referência para audiófilos; sua versão profissional, o K702, ainda está em catálogo. Em outubro de 2010, a parceria com Quincy Jones gerou o Q701, uma variação do K701 em cores chamativas, inclusive verde-limão — uma rara incursão da marca no mundo do estilo.
O C414 e a evolução do condensador
Em 1971, a AKG lançou o C414, sucessor transistorizado (FET) da linhagem C12. Com quatro padrões polares — o hipercardioide foi acrescentado, segundo a Harman, a pedido da BBC —, o C414 se tornou o “canivete suíço” dos estúdios: voz, violão, piano, overhead de bateria, metais. Passou por várias versões, como a C414 EB de 1976 e a B-ULS de 1986, até as atuais C414 XLS e XLII, esta última com leve realce de presença para vozes.
Bolsa, Harman e Samsung
A AKG abriu capital na Bolsa de Viena em 1984. Em setembro de 1993, a americana Harman International comprou 76% da empresa e, em julho de 1994, os 24% restantes. Sob a Harman, a AKG passou a dividir o guarda-chuva com JBL, Harman Kardon e Mark Levinson — a história da JBL está no nosso perfil da marca.
Em novembro de 2016, a Samsung anunciou a compra da Harman por US$ 8 bilhões, concluída em março de 2017. Desde então, a AKG pertence indiretamente à Samsung — e a marca passou a aparecer nos fones que acompanham celulares Galaxy e na assinatura sonora de vários aparelhos da coreana.
O fim da fábrica de Viena
O capítulo mais duro veio em 28 de setembro de 2016, quando a Harman anunciou o fechamento das operações da AKG em Viena, com as demissões concluídas até meados de 2017. A sede da marca foi transferida para Northridge, na Califórnia, e a produção foi para a Ásia. Parte dos engenheiros vienenses não aceitou o fim da tradição: em 2017, ex-funcionários fundaram a Austrian Audio, que hoje fabrica microfones e fones na própria Viena.
A AKG hoje
A marca continua relevante no estúdio. O catálogo de fones profissionais inclui K240 Studio, K361, K371, K712 Pro e K72. Em janeiro de 2026, na NAMM, a AKG apresentou a nova Série C de microfones condensadores — C104, C114 e C151 —, os primeiros microfones de estúdio novos da marca em oito anos, ao lado dos veteranos C414, C214 e C12 VR.
Se Viena perdeu a fábrica, não perdeu a herança: o desenho do C12, a captação cardioide do D12 e a ideia do fone aberto do K50 estão em praticamente todo estúdio do planeta, inclusive em produtos de concorrentes. Para conhecer outras marcas que moldaram o áudio profissional, leia as histórias da Neumann e da Beyerdynamic.
Foto: AKG C414 B-XL II, por Branko Radovanović, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Fontes e base da análise
Informações documentais, sem teste próprio do Guia do Áudio. Consulte: Harman: retrospectiva oficial dos fones AKG.