Em 13 de setembro de 1927, em Yokohama, no Japão, nascia a Victor Talking Machine Company of Japan — uma subsidiária da americana Victor Talking Machine Company, de Camden, Nova Jersey. A empresa fabricava gramofones e prensou o primeiro disco de vinil no Japão, oferecendo desde o início uma rara combinação de hardware e software. Ninguém poderia imaginar que aquela modesta operação japonesa se tornaria a JVC, criadora do formato de vídeo doméstico mais bem-sucedido de todos os tempos — e uma força significativa no mundo do áudio.
De Subsidiária a Empresa Independente
A história dos primeiros anos da JVC é uma sequência de mudanças de propriedade que refletem as turbulências do século XX. Em 1929, a Radio Corporation of America (RCA) adquiriu a Victor americana e, com ela, todas as suas subsidiárias estrangeiras — incluindo a operação japonesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943, a JVC se separou da RCA, retendo as marcas Victor e o icônico logotipo “His Master’s Voice” (o cãozinho Nipper diante do gramofone) exclusivamente para o mercado japonês.
Em 1953, a Matsushita Electric Industrial (hoje Panasonic) tornou-se acionista majoritária da JVC — uma relação que duraria mais de cinco décadas e daria à empresa a estabilidade financeira necessária para investir em pesquisa e desenvolvimento de ponta.
Pioneirismo no Áudio: Do Quadrafônico ao Videosphere
Antes de conquistar o mundo com o vídeo, a JVC fez contribuições notáveis ao áudio. Em 1970, a empresa lançou o Videosphere — uma televisão portátil dentro de uma carcaça esférica inspirada em capacetes espaciais, com um despertador na base. Embora fosse um produto de vídeo, o Videosphere se tornou um ícone do design industrial da era espacial e demonstrou a ousadia criativa da JVC.
Em 1971, a JVC introduziu o CD-4 (Compatible Discrete 4), o primeiro sistema discreto de som quadrafônico para discos de vinil. Diferente dos sistemas matriciais concorrentes (como o SQ da CBS), o CD-4 oferecia quatro canais verdadeiramente separados, gravados no sulco do disco usando uma portadora ultrassônica de 30 kHz. A RCA adotou o formato nos Estados Unidos sob o nome “Quadradisc”, e centenas de gravações foram lançadas ao longo dos anos 1970.
O CD-4 foi o único sistema quadrafônico discreto em disco de vinil a conquistar aceitação significativa na indústria — uma proeza técnica impressionante para a época.
Referência histórica
Para dar suporte ao formato, a JVC desenvolveu amplificadores de quatro canais, o demodulador 4DD-5, fones de ouvido quadrafônicos e alto-falantes omnidirecionais. Em 1973, inaugurou o JVC Cutting Center nos Estados Unidos para masterização de discos CD-4.
VHS: A Fita que Venceu a Guerra
O capítulo mais célebre da história da JVC começou nos laboratórios da empresa em meados dos anos 1970. Enquanto a Sony lançava o Betamax em 1975, os engenheiros da JVC trabalhavam em um formato alternativo de videocassete doméstico: o Video Home System, ou VHS.
Em 9 de setembro de 1976, o presidente da JVC apresentou o Victor HR-3300 no Hotel Okura, em Tóquio — o primeiro gravador VHS do mundo. As vendas começaram em 31 de outubro de 1976 nos bairros de eletrônicos de Akihabara. O que se seguiu foi a mais famosa guerra de formatos da história da tecnologia.
A estratégia da JVC foi decisiva: em vez de manter o VHS como formato proprietário, a empresa licenciou a tecnologia para outros fabricantes. Até 1984, quarenta empresas fabricavam equipamentos VHS, contra apenas doze no campo Betamax. O tempo de gravação mais longo do VHS (inicialmente duas horas, contra uma hora do Betamax) e o preço mais acessível selaram a vitória. O VHS se tornou sinônimo de vídeo doméstico por mais de duas décadas.
Além do VHS: Super VHS e D-VHS
A JVC não parou no VHS original. Em abril de 1987, lançou o Super VHS (S-VHS) no Japão, com o gravador HR-S7000. O S-VHS elevou a resolução horizontal de 250 para 400 linhas de TV, aproximando-se da qualidade do DVD. Entretanto, o alto custo de aparelhos e fitas limitou sua popularidade fora do Japão e de ambientes profissionais.
Em dezembro de 1997, a JVC apresentou o D-VHS (Digital VHS), co-desenvolvido com Hitachi, Matsushita e Philips. O formato gravava vídeo digital usando compressão MPEG-2, suportando conteúdo em alta definição — 720p e 1080i — anos antes do Blu-ray. Uma fita D-VHS podia armazenar até 49 horas de vídeo em menor resolução. O formato foi visionário, mas chegou tarde demais para competir com os DVDs graváveis e os discos rígidos.
A Fusão com a Kenwood e o Legado
Em 2007, a Matsushita liberou sua participação majoritária na JVC. No ano seguinte, em 1 de outubro de 2008, a JVC se fundiu oficialmente com a Kenwood Corporation, formando a JVCKenwood Holdings — rebatizada como JVCKenwood Corporation em 2011. A fusão uniu duas marcas com heranças complementares: a JVC no vídeo e no áudio de consumo, e a Kenwood no áudio automotivo e nas comunicações profissionais.
Hoje, sob o guarda-chuva da JVCKenwood, a marca JVC continua presente em projetores, fones de ouvido e equipamentos de áudio para automóveis. Mas seu lugar na história está garantido por algo maior: a JVC provou que uma subsidiária japonesa de uma empresa americana de gramofones podia reinventar a forma como o mundo inteiro assistia — e ouvia — entretenimento em casa. Do disco de vinil quadrafônico ao VHS que derrotou o Betamax, a Victor Company of Japan nunca deixou de honrar o lema gravado naquele primeiro gramofone: a voz do dono, amplificada para o mundo.