Quando Al Jolson abriu a boca e declarou “Wait a minute, wait a minute, you ain’t heard nothin’ yet!” no filme The Jazz Singer, em 1927, o público do cinema não estava apenas ouvindo a primeira fala sincronizada da história de Hollywood — estava ouvindo a tecnologia que daria origem à Altec Lansing. Os engenheiros da Western Electric que tornaram aquele momento possível seriam os mesmos a plantar as sementes de uma das marcas mais influentes do áudio profissional do século XX.
Das Salas de Cinema para a Lenda
A história começa com a All Technical Services Company (Altec), fundada em 1937 para dar suporte aos sistemas de som de cinemas nos Estados Unidos. Em paralelo, o engenheiro James Bullough Lansing comandava a Lansing Manufacturing Company, fabricando drivers e alto-falantes de alta qualidade. Em 1 de maio de 1941, as duas empresas se fundiram, formando a Altec Lansing Corporation — uma união que combinava a experiência em engenharia de som para cinemas com a genialidade de Lansing no design de transdutores.
O primeiro amplificador de potência da nova empresa, o Model 142B, chegou ainda em 1941. Mas o verdadeiro golpe de mestre viria pouco depois, com o desenvolvimento dos alto-falantes coaxiais da série 604 e, principalmente, da lendária linha Voice of the Theatre.
Voice of the Theatre: O Padrão de Uma Era
Apresentada oficialmente em 1947, a série Voice of the Theatre (VOTT) redefiniu o que significava ouvir um filme no cinema. O sistema de duas vias, com woofer de 15 polegadas carregado por horn e tweeter de compressão, oferecia uma combinação de potência, clareza e alcance que nenhum concorrente conseguia igualar. Os modelos A-1, A-2, A-4 e A-5 dominaram salas de cinema por todo o país.
Mas foi o A-7 — uma versão mais compacta, projetada para salas menores e reforço sonoro ao vivo — que se tornou verdadeiro ícone. Adotado por casas de show, estúdios de gravação e engenheiros de som itinerantes, o A-7 foi indutido ao TECnology Hall of Fame em 2004. Com quase 2,70 metros de altura, o modelo A-4 original continuava instalado em cinemas mundo afora até o século XXI.
A Voice of the Theatre não era apenas um alto-falante — era o padrão pelo qual todo sistema de som para cinema seria julgado por décadas.
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A Partida de um Gênio
Em 1946, ao expirar seu contrato de não-concorrência de cinco anos, James B. Lansing deixou a Altec Lansing após persistentes desentendimentos com a diretoria, especialmente com George Carrington. Em 1 de outubro de 1946, fundou a Lansing Sound, Incorporated, em Los Angeles — que logo seria rebatizada como James B. Lansing Sound, ou simplesmente JBL. A Altec exigiu a mudança de nome para evitar confusão com sua marca. Ironicamente, o mesmo gênio criativo que ajudou a construir a Altec daria origem à sua maior rival no áudio profissional.
Woodstock e o Som de Uma Geração
Na década de 1960, a Altec Lansing já havia expandido seu domínio para além dos cinemas. Quando o engenheiro de som Bill Hanley — conhecido como o “pai do som de festival” — precisou sonorizar o Festival de Woodstock em agosto de 1969, recorreu a drivers e caixas Altec. Hanley utilizou gabinetes Altec HIS 410 com woofers de 15 polegadas carregados por horn, combinados com amplificadores McIntosh e Crown, para levar o som de Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Who a meio milhão de pessoas nos campos de Bethel, Nova York. A Altec Lansing não apenas equipou o festival mais icônico da história do rock — ela ajudou a inventar o conceito de sonorização de grande porte.
Declínio, Queda e Reinvenção
Os anos que se seguiram foram turbulentos. Em 1958, o empresário James Ling comprou a empresa, incorporando-a ao conglomerado LTV (Ling-Temco-Vought). Em 1974, a LTV separou a Altec, deixando-a com dívidas pesadas. A empresa entrou em recuperação judicial e, em 1984, foi adquirida pela Gulton Industries. Dois anos depois, a marca passou para a Sparkomatic.
A partir dos anos 1990, a Altec Lansing se reinventou como marca de eletrônicos de consumo, produzindo caixas de som para computadores e dispositivos portáteis — um caminho muito distante das salas de cinema e palcos de festival de suas origens. Em 2005, a Plantronics adquiriu a marca por aproximadamente US$ 166 milhões. Novas mudanças de propriedade vieram com a Prophet Equity em 2009 e o Infinity Group em 2012, por US$ 17,5 milhões.
Hoje, a Altec Lansing vende alto-falantes Bluetooth portáteis e fones de ouvido — produtos que pouco lembram os monumentais sistemas Voice of the Theatre. Mas para quem conhece a história do áudio, o nome Altec Lansing ainda evoca aquele momento mágico em que a voz saiu da tela do cinema pela primeira vez, e os campos de Woodstock tremeram sob o peso do som amplificado. Algumas vozes, afinal, nunca se calam por completo.