John Bowers e Roy Wilkins se conheceram durante a Segunda Guerra Mundial, servindo no Royal Corps of Signals do exército britânico. Ambos foram recrutados pelo MI6 em Whaddon Hall, onde mantinham comunicações secretas de rádio com agentes na Europa ocupada. Bowers tinha apenas 17 anos. Quando a guerra acabou, os dois descobriram que compartilhavam mais do que memórias de trincheira: tinham uma obsessão genuína por rádio, eletrônica e, acima de tudo, por como a música deveria soar. Em agosto de 1946, abriram uma pequena loja de eletrônicos em Worthing, no litoral sul da Inglaterra. Oito décadas depois, a marca que nasceu ali é sinônimo de excelência em áudio no mundo inteiro.
Uma herança que mudou tudo
Nos primeiros anos, a loja de Bowers e Wilkins vendia rádios, televisores, equipamentos para radioamadores e fazia reparos. Bowers, porém, não conseguia se contentar com os alto-falantes disponíveis no mercado — e começou a projetar os seus próprios como hobby, montando caixas sob medida para clientes exigentes.
Uma dessas clientes era Miss Knight, ex-cantora de ópera, que ficou tão impressionada com o conhecimento musical de Bowers e com as caixas que ele construiu para ela que, ao falecer, deixou-lhe £10.000 em testamento — o equivalente a cerca de £200.000 em valores atuais. Foi esse dinheiro que permitiu a Bowers deixar o balcão da loja e fundar, em 1966, a B&W Electronics Ltd., dedicada exclusivamente à fabricação de alto-falantes.
Roy Wilkins ficou com a loja. Seu filho, Paul Wilkins, juntou-se à nova empresa como diretor comercial. E assim começou uma das trajetórias mais notáveis da história do áudio.
Os primeiros passos: do P1 ao tweeter iônico
O primeiro produto comercial, o P1, usava drivers comprados de terceiros — um woofer EMI e um tweeter Celestion — com gabinete e crossover projetados por Bowers. Vendeu bem. Mas o P1 foi apenas a porta de entrada.
Com os lucros, Bowers investiu em equipamentos de medição e desenvolveu o P2, que incorporava o exótico tweeter Ionofane da Fane Acoustics — um dispositivo que ionizava o ar para reproduzir frequências acima de 50 kHz. O resultado sonoro era extraordinário; o problema prático, nem tanto: o tweeter iônico gerava um campo eletromagnético que interferia em televisores vizinhos, produzia um cheiro forte de ozônio e exigia um cristal que precisava ser trocado periodicamente. A revista Gramophone chamou o P2 de quase perfeito. A Sony licenciou o design para o mercado japonês.
Kevlar: 41 anos de revolução silenciosa
Se existe um material que definiu a B&W por quatro décadas, é o Kevlar. Em 1974, o Dr. Peter Fryer, usando interferometria a laser para estudar o comportamento de cones de alto-falantes, descobriu que fibras de aramida (Kevlar) impregnadas com resina ofereciam uma combinação ideal de rigidez e amortecimento — minimizando a distorção que assolava cones convencionais de papel ou polipropileno.
O primeiro produto a usar cones de Kevlar foi o DM6, lançado em 1976 e projetado com o designer industrial Kenneth Grange. Seu formato inusitado — com drivers montados em planos verticais diferentes — rendeu-lhe o apelido de “Pinguim Grávido”. Mas o som calou qualquer piada. A B&W continuou usando Kevlar nos midranges por 41 anos consecutivos, até substituí-lo pelo material Continuum na série 800 D3 em 2015.
A 801 e a consagração em Abbey Road
Em 1979, após três anos de desenvolvimento usando modelagem computacional, a B&W lançou a 801 — o alto-falante que mudaria para sempre a reputação da marca. Com seu tweeter separado montado no topo (o conceito “Tweeter on Top” já esboçado na DM7 de 1977) e desempenho de referência em todas as faixas de frequência, a 801 chamou a atenção dos Abbey Road Studios.
Os engenheiros da EMI adotaram a 801 como monitor de referência — e a B&W mantém essa parceria até hoje. Se você já ouviu um disco mixado ou masterizado em Abbey Road nas últimas quatro décadas, ele passou por caixas B&W. Poucas credenciais no mundo do áudio carregam tanto peso.
Nautilus: o alto-falante que parece de outro planeta
John Bowers faleceu em dezembro de 1987, mas antes de morrer iniciou o projeto mais ambicioso da história da marca. Concluído em 1993, o Nautilus é um alto-falante que parece uma escultura alienígena — com tubos espiralados que se estendem atrás de cada driver, eliminando a energia traseira que normalmente distorce o som dentro do gabinete. É, até hoje, uma das peças mais radicais de engenharia acústica já concebidas, e seus princípios de design migraram para toda a linha 800 Series.
Diamantes, Continuum e a era moderna
Nos anos 2000, a B&W introduziu o tweeter de diamante — um domo de diamante sintético depositado por vapor, com rigidez incomparável e ponto de breakup acima de 70 kHz. A tecnologia estreou na 800 D e migrou progressivamente para modelos mais acessíveis.
Em 2015, a série 800 D3 trouxe o cone Continuum, substituto do Kevlar, e a turbina Flowport para reduzir ruído de porta. A evolução continuou com a 800 D4 em 2021, incorporando novos gabinetes de alumínio e biomimética nos suportes de tweeter.
A marca também expandiu para o universo lifestyle: a icônica Zeppelin (caixa wireless em formato de dirigível), headphones como o PX8, earphones true wireless Pi8 e a soundbar Panorama 3 levaram a engenharia B&W para públicos que nunca comprariam uma torre de £30.000.
Mudanças de controle e o futuro
Em 2016, a B&W foi adquirida pela Eva Automation, startup do Vale do Silício focada em smart home. A experiência não foi feliz — problemas financeiros levaram à venda para o grupo Sound United em 2020, que depois foi absorvido pela Masimo Corporation. Hoje, a B&W divide o conglomerado com Denon, Marantz, Polk Audio e Classé.
Apesar das mudanças corporativas, a fábrica em Worthing continua operando e a linha 800 Series segue sendo montada à mão na Inglaterra. O legado de John Bowers — o veterano de guerra que queria apenas que a música soasse como deveria — permanece intacto em cada domo de diamante, em cada cone de Continuum, e em cada sessão de masterização nos lendários estúdios de Abbey Road.