Música & Cultura 03 JUL 2026

Sony: Da Fita Magnética ao Áudio Espacial, a Marca que Moldou Cada Era do Som

De um gravador de fita de 35 kg no Japão pós-guerra ao streaming em 360 Reality Audio, a Sony não apenas acompanhou a evolução do áudio — ela a liderou.

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Poucas marcas podem reivindicar ter inventado, reinventado e depois reinventado de novo a forma como o mundo ouve música. A Sony é uma delas. De um Japão devastado pela guerra a uma potência global de áudio, a trajetória da divisão sonora da empresa fundada por Masaru Ibuka e Akio Morita é uma aula de ousadia, inovação e — em alguns momentos — de tropeços espetaculares.

Das cinzas de Tóquio: o começo

Em maio de 1946, no porão destruído de uma loja de departamentos em Nihonbashi, Tóquio, Ibuka e Morita fundaram a Tokyo Tsushin Kogyo K.K. O primeiro produto de áudio foi o gravador de fita Type-G, lançado em 1950: pesava absurdos 35 kg e custava cerca de 450 dólares. Não era portátil. Mas funcionava, e abriu caminho para tudo que viria depois.

Em 1955 veio o TR-55, o primeiro rádio transistorizado do Japão — cinco transistores projetados internamente, tecnologia licenciada da Bell Labs, apenas 560 gramas. Em 1958, a empresa adotou o nome Sony, juntando o latim sonus (som) com o coloquial americano sonny. O som já estava no DNA do nome.

Walkman: o Big Bang do áudio pessoal

Se existe um único produto que define a Sony, é o Walkman TPS-L2. Lançado em 1º de julho de 1979 por 33.000 ienes, o aparelho nasceu de um pedido prosaico: Ibuka queria ouvir música em viagens sem carregar o volumoso gravador TC-D5. A solução foi radical — um player de cassete estéreo que só reproduzia, sem gravar. Os executivos acharam loucura.

A Sony previa vender 5.000 unidades por mês. Vendeu mais de 30.000 nos primeiros dois meses. O Walkman não criou apenas um produto — criou uma categoria. Pela primeira vez, música hi-fi era genuinamente portátil. Ele pavimentou o caminho para o Discman, o iPod e o smartphone no seu bolso. Hoje, um TPS-L2 original descansa no Smithsonian.

O CD e a aliança com a Philips

Em outubro de 1982, a Sony lançou o CDP-101 — o primeiro player de CD comercial do mundo. Fruto de parceria histórica com a Philips, o aparelho custava 168.000 ienes e introduziu a bandeja motorizada horizontal que viraria padrão universal. Enquanto a Philips usava DAC de 14 bits, a Sony insistiu na codificação de 16 bits e fabricou seu próprio conversor. O áudio digital de consumo nasceu ali.

MiniDisc e ATRAC: a aposta que não vingou

Nem tudo virou ouro. O MiniDisc, lançado em 1992, era tecnicamente brilhante: disco óptico compacto e regravável, codec proprietário ATRAC comprimindo áudio 5:1 sem perdas perceptíveis. No Japão, fez sucesso. No resto do mundo, tropeçou feio.

A Sony, dividida entre fabricante de hardware e dona de gravadoras, implementou DRM tão agressivo que o formato ficou mais difícil de usar que alternativas inferiores. Subestimou a memória flash. E quando o MP3 explodiu, a insistência no ATRAC proprietário isolou a empresa. O último MiniDisc saiu de linha em 2013 — prova de que inovação sem ecossistema aberto morre na praia.

Do estúdio ao game

Enquanto o MiniDisc agonizava, a Sony reinava onde poucos percebiam. O fone MDR-7506, praticamente inalterado por mais de 30 anos, tornou-se o headphone de referência para estúdios, rádio e cinema ao redor do mundo. No universo dos games, o PlayStation adotou CDs em vez de cartuchos, abrindo 24 canais de som — salto brutal ante os 8 do Super Nintendo. O som de boot do PS1, criado por Takafumi Fujisawa em 1994, virou patrimônio da cultura pop.

Os reis do cancelamento de ruído

A partir de 2016, com o MDR-1000X, a Sony entrou no mercado de ANC — e dominou. A série WH-1000XM evoluiu de forma implacável: cada geração refinou o cancelamento, a assinatura sonora e os recursos inteligentes. O codec LDAC, que transmite três vezes mais dados via Bluetooth que o SBC, tornou-se padrão de facto para wireless hi-res no Android.

O WH-1000XM5 consolidou a Sony como referência absoluta em ANC over-ear. O WH-1000XM6, lançado em maio de 2025, elevou a régua mais uma vez — provando que, mesmo após seis gerações, a série ainda dita o padrão.

Hi-Res e o Walkman que vale ouro

Enquanto o streaming dominava, a Sony dobrou a aposta em alta resolução. O NW-WM1Z, Walkman audiófilo com chassi banhado a ouro em cobre livre de oxigênio, suporta DSD nativo e FLAC hi-res — o oposto filosófico do streaming comprimido, e existe justamente para isso. Com o 360 Reality Audio, sua tecnologia de som espacial, a Sony posiciona instrumentos em uma esfera ao redor do ouvinte usando mapeamento individual de orelha.

O legado

Oitenta anos depois de dois engenheiros fundarem uma empresa num porão destruído, a Sony moldou praticamente todas as eras do áudio moderno: fita magnética, transistor, cassete portátil, CD, MiniDisc, cancelamento de ruído, alta resolução wireless e som espacial. Errou com o MiniDisc e o ATRAC. Acertou com o Walkman, o CD, o LDAC e a série XM. O saldo é o de uma empresa que, no seu melhor, não segue tendências — cria as categorias que os outros vão disputar.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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