Música & Cultura 02 JUL 2026

A história da JBL: como James B. Lansing revolucionou o mercado de áudio

Do Oscar técnico em Hollywood ao suicídio trágico do fundador, da era de ouro dos estúdios ao domínio absoluto das caixas bluetooth: a saga da marca que virou sinônimo de som.

MÚSICA & CULTURA

Se você já foi a um churrasco no Brasil na última década, já ouviu uma JBL. A marca do ponto de exclamação virou sinônimo de caixa de som portátil com a mesma naturalidade com que Gillette virou lâmina de barbear — e, no entanto, quase ninguém que carrega uma Flip na mochila sabe que por trás dessas três letras existe um dos personagens mais brilhantes e trágicos da história do áudio: James Bullough Lansing, um engenheiro genial que morreu endividado, aos 47 anos, sem imaginar que suas iniciais um dia valeriam bilhões.

Do rádio ao Oscar: os anos de cinema

James Martini nasceu em 1902, numa cidadezinha mineradora de carvão em Illinois, o nono de catorze filhos. Adotou o sobrenome da família Bullough, que o acolheu na juventude, e mais tarde o americanizou para Lansing. Em 1927, ao lado do sócio Ken Decker, fundou em Los Angeles a Lansing Manufacturing Company, fabricando alto-falantes de seis e oito polegadas para rádios de console.

A virada veio com o cinema falado. Em 1936, Douglas Shearer, chefe de som da MGM, liderou o desenvolvimento do primeiro sistema de alto-falantes realmente viável para salas de cinema — o Shearer Horn —, com componentes construídos pela Lansing. O sistema rendeu à equipe um prêmio científico e técnico da Academia de Hollywood. Sim, você leu certo: antes de tocar pagode na praia, a JBL embrionária ganhou um Oscar técnico.

Altec Lansing: a marca-irmã que veio antes

O destino, porém, cobrou caro. Decker, que cuidava dos negócios, morreu num acidente de avião em 1939, e Lansing — engenheiro brilhante, administrador desastroso — viu a empresa afundar. Em dezembro de 1941, a Altec Service Corporation comprou a Lansing Manufacturing por módicos 50 mil dólares, dando origem à Altec Lansing. É por isso que existem duas marcas históricas com “Lansing” no nome: ambas saíram das mãos do mesmo homem.

Lansing cumpriu cinco anos como vice-presidente de engenharia da Altec — a duração exata do contrato. No dia em que ele expirou, em 1946, pediu as contas e fundou a Lansing Sound, Incorporated. A Altec contestou o nome, parecido demais com suas marcas, e a empresa virou James B. Lansing Sound. Nos produtos, ficou a abreviação que o mundo conheceria: JBL.

O D130, as dívidas e a tragédia

O primeiro grande produto da nova casa foi o D130, um alto-falante de 15 polegadas lançado em 1947, tão bem projetado que permaneceu em produção, com variações, por 55 anos. Leo Fender o adotou em seus amplificadores de guitarra — e, sem planejar, a JBL entrou para a história do rock antes mesmo de o rock ter nome.

Mas o gênio da engenharia seguia sabotado pelo empresário. Em três anos, a JBL trocou de endereço quatro vezes, atrasou fornecedores e acumulou cerca de 20 mil dólares em dívidas. Em setembro de 1949, James B. Lansing tirou a própria vida no rancho onde morava em San Marcos, na Califórnia. Numa ironia devastadora, foi o seguro de vida — que tinha a própria empresa como beneficiária — que recapitalizou a JBL e permitiu que ela sobrevivesse ao criador.

Bill Thomas e a era de ouro dos estúdios

Quem assumiu foi o vice-presidente Bill Thomas, e aqui vai uma opinião honesta: Thomas é o herói esquecido dessa história. Foi ele quem transformou uma fabricante quebrada em ícone. Dos anos 1950 vieram o Hartsfield e o monumental Paragon, caixas-escultura que estampavam revistas; em 1962, a JBL criou o primeiro monitor de estúdio de duas vias, plantando a semente da linha 43xx que definiria o som dos discos que você ama.

Em 1977, mais estúdios de gravação usavam monitores JBL do que todas as outras marcas somadas.

Pesquisa Billboard, 1977

No mercado doméstico, o L100 — versão de consumo do monitor 4310 — vendeu mais de 125 mil pares nos anos 1970 e se tornou a caixa acústica mais vendida do mundo em sua época. Em 1969, Thomas vendeu a JBL para a Jervis Corporation, de Sidney Harman, que rebatizaria o grupo de Harman International. Sob a Harman, a divisão profissional virou onipresente: PAs de shows, festivais e turnês, som de cinema e monitores de referência em estúdios do mundo inteiro.

Samsung e a caixinha que engoliu o mercado

Em março de 2017, a Samsung concluiu a compra da Harman — e da JBL junto — por 8 bilhões de dólares, na época a maior aquisição internacional já feita por uma empresa coreana. Mas o golpe de mestre da JBL no século 21 tinha vindo antes, em 2012, com um cilindro despretensioso chamado Flip. Vieram depois Go, Charge, Xtreme, Boombox e a linha PartyBox, e a marca simplesmente atropelou a categoria de caixas bluetooth, virando líder incontestável de vendas em mercados como o Brasil.

Sejamos francos: uma Flip não é referência audiófila, e ninguém deveria fingir que é. Mas é um produto honesto — robusto, bem afinado para o uso real e com um acerto raro entre preço, graves e durabilidade que a concorrência ainda persegue. E é essa máquina de vender caixinhas que banca a engenharia pesada da divisão profissional. O homem que morreu devendo 20 mil dólares deu nome a uma marca que hoje vale bilhões e toca em cada esquina do planeta. Poucas histórias no áudio são tão tristes — e tão grandiosas — quanto a dele.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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