Roy Gandy tinha um emprego estável na Ford, um hobby obsessivo em hi-fi e uma frustração crescente: nenhum toca-discos acessível soava como ele achava que deveria soar. Em vez de reclamar, fez o que todo engenheiro frustrado faz — decidiu fabricar o próprio. O resultado é a Rega Research, uma das marcas mais respeitadas do áudio britânico, que cinco décadas depois continua fabricando toca-discos à mão num industrial estate em Southend-on-Sea, Essex.
1973: o nascimento no galpão
O nome Rega vem das iniciais dos dois fundadores: Tony Relph e Roy Gandy. Os dois registraram a empresa em 1973, e o primeiro produto foi o Planet — um toca-discos projetado por Gandy para resolver os problemas que ele identificava nos modelos comerciais da época: construção frágil, braços imprecisos e subchassis resonantes.
A parceria durou pouco. Em poucos meses, Relph saiu da empresa, deixando Gandy sozinho com o nome e a visão. Durante dois anos, Roy continuou trabalhando na Ford durante o dia e montando toca-discos à noite e nos fins de semana.
Planar 2 e Planar 3: a ascensão
Em 1975, Gandy lançou o Planar 2 — um toca-discos que rapidamente se estabeleceu como a melhor opção na faixa de entrada do mercado britânico. Mas foi o Planar 3, lançado em junho de 1977 e anunciado na Hi-Fi News and Record Review, que transformou a Rega numa marca de referência.
O Planar 3 era elegante na simplicidade: plinth leve, motor externo desacoplado, braço Rega próprio e construção que priorizava rigidez e baixa ressonância. O som era revelador, o preço era acessível, e o design era atemporal. O modelo passou por cinco encarnações — Planar 3 (1977-2000), P3 (2000-2007), P3-24 (2007-2012), RP3 (2012-2016) e Planar 3 novamente (2016-presente) — mas a filosofia nunca mudou.
A filosofia Rega: menos é mais
Roy Gandy sempre defendeu princípios de design que iam contra a corrente da indústria:
- Leveza sobre massa: enquanto concorrentes empilhavam quilos de acrílico e metal nos pratos, Gandy argumentava que massa excessiva armazena energia e prejudica o timing. Os pratos Rega são leves, rígidos e projetados para não interferir na música.
- Rigidez sobre amortecimento: em vez de isolar vibrações com materiais absorventes, Rega prefere construções rígidas que conduzem e dissipam energia rapidamente.
- Integração vertical: Rega fabrica seus próprios braços, cápsulas, motores e eletrônica. Poucos fabricantes de toca-discos fazem tudo in-house.
O braço Rega: uma lenda por direito próprio
Os braços da Rega são provavelmente os tonearms mais copiados e influentes da história do vinil. O RB300, lançado nos anos 80, estabeleceu padrões de precisão e rigidez que muitos concorrentes ainda não igualam. A evolução continuou com o RB330, RB880 e, no topo, o RB3000 — cada um refinando a geometria, os rolamentos e a construção do antecessor.
O RB2000, usado no flagship Planar 10, é feito de uma única peça de alumínio usinado — sem juntas, sem parafusos, sem compromissos.
Além dos toca-discos
Embora os toca-discos sejam o coração da marca, a Rega expandiu para amplificadores integrados (Brio, Elex, Elicit, Aethos), CD players (Apollo, Saturn), DACs e phono preamps. Todos seguem a mesma filosofia: construção sólida, design funcional, fabricação britânica e som que prioriza timing e musicalidade.
O amplificador Brio, em particular, é um dos integrados mais queridos do mercado — compacto, potente e com uma apresentação sonora que privilegia ritmo e envolvimento sobre detalhes analíticos.
Made in England — de verdade
Hoje, a Rega opera em diversas instalações num industrial estate em Southend-on-Sea, totalizando quase 6.500 m². Cada produto é montado à mão por técnicos britânicos. Os drivers de caixa acústica são fabricados no local. Os braços são usinados em CNC e montados um a um. É manufatura artesanal em escala industrial — uma raridade no áudio moderno.
Roy Gandy, aos 80 anos passados, continua envolvido com o design de novos produtos. Sua recusa em terceirizar, em cortar custos ou em seguir modas é a razão pela qual um Planar 3 de 2026 soa tão essencialmente Rega quanto o original de 1977. É a mesma obsessão — só com melhores ferramentas.