Música & Cultura 02 NOV 2026

Accuphase: a história dos irmãos Kasuga, que deixaram a Kenwood para criar o high-end japonês

De uma casa em Tóquio em 1972 ao endereço de Yokohama que mantém até hoje: como a Accuphase fez de tiragens curtas e de evolução lenta a sua marca registrada.

Amplificador integrado Accuphase E-6000 com painel dourado e medidores de potência
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Em 1972, dois irmãos saíram de uma das maiores fabricantes de áudio do Japão para fazer o oposto do que ela fazia. Nakaichi e Jiro Kasuga deixaram a Trio-Kenwood, que fabricava em grande escala, para fundar uma empresa pequena, dedicada só ao áudio de altíssimo nível e com tiragens curtas. Mais de cinco décadas depois, a Accuphase continua no mesmo endereço em Yokohama, continua independente e continua fazendo aparelhos que mudam pouco de geração para geração, por escolha.

Uma empresa que começou numa casa em Tóquio

O documento “The Beginnings of Accuphase”, publicado pela própria empresa, conta que os irmãos Kasuga e um pequeno grupo de colegas tomaram uma decisão logo no início: não fariam produção em massa. Projeto, fabricação, venda e assistência técnica ficariam todos dentro de casa. A empresa nasceu com o nome Kensonic Laboratory, Inc., em Ota-ku, Tóquio, e durante o primeiro ano o escritório e a sala de projeto funcionaram na casa de Jiro Kasuga.

O texto da empresa descreve o contexto: o estéreo tinha acabado de se popularizar no Japão, a indústria crescia, mas quase tudo era produto de massa. Praticamente não havia fabricante japonês especializado em high-end. A Kensonic surgiu para ocupar esse espaço. Quem quiser o outro lado dessa história pode ler o nosso perfil da Kenwood, a casa de onde os Kasuga saíram.

O nome: precisão e fase

A marca Accuphase existiu antes de virar nome da empresa. Segundo a página de filosofia da Accuphase, o nome junta o prefixo ACCU, de accurate (preciso), à palavra PHASE (fase), “um fator dos mais importantes na tecnologia de áudio”. O documento de fundação admite que o nome, incomum e difícil de pronunciar, era desconhecido no começo, e muitos achavam que a marca era estrangeira. Em 1982, no aniversário de 10 anos, a Kensonic Laboratory passou a se chamar Accuphase Laboratory, Inc., unindo marca e empresa.

1973: P-300, C-200 e T-100

Em junho de 1973 a empresa se mudou para uma sede nova em Aoba-ku, Yokohama, onde está até hoje. Em agosto entraram em produção os primeiros aparelhos: o amplificador de potência P-300 e o pré-amplificador C-200, seguidos pelo sintonizador AM/FM T-100. O museu de produtos da Accuphase registra o P-300 e o C-200 em 1973.08 e o T-100 em 1973.09.

A própria empresa reconhece que o preço “também era bem fora do comum”. Mesmo assim, segundo o relato oficial, a recepção foi entusiasmada, e o P-300 ganhou o prêmio de ouro do Japan Compo Grand Prix, da editora Radio Gijutsu, no outono de 1973. Em maio de 1974 veio o E-202, primeiro integrado da casa. A letra E dos integrados, o P das potências e o C dos pré-amplificadores seguem no catálogo até hoje.

Filosofia: poucos aparelhos, vida longa

A Accuphase diz não seguir modas de mercado e explica as tiragens limitadas com a mesma lógica: o nível de acabamento exigido, segundo a empresa, não combina com linhas de produção em massa, e por isso os produtos são vendidos só em um número restrito de lojas especializadas. O documento de fundação diz que, em 40 anos, foram lançados mais de 240 modelos, uma média de seis por ano, e que a empresa guarda exemplares de todos os aparelhos que já fabricou.

O slogan da casa, “Enrich Life through Technology”, aparece em todas as páginas oficiais. É uma postura de engenharia mais do que de estilo, e combina com o visual estável da marca: faces douradas e medidores de potência que pouco mudaram em 50 anos.

As tecnologias da casa

A página de tecnologia da Accuphase lista as soluções próprias que aparecem nos aparelhos atuais. As descrições abaixo são da empresa:

  • AAVA (Accuphase Analog Vari-gain Amplifier): topologia de pré-amplificador que tira o potenciômetro convencional do caminho do sinal. Estreou em 2002, no pré C-2800, modelo do 30º aniversário.
  • MCS (Multiple Circuit Summing-up): vários circuitos de amplificação ligados em paralelo para melhorar a relação sinal/ruído.
  • MDS (Multiple Delta Sigma): conversão D/A com vários conversores delta-sigma, com melhora de THD e de sinal/ruído segundo a marca.
  • MDSD (Multiple Double Speed DSD): técnica para reduzir ruído na reprodução de SACD.
  • DS-DC: demodulação de FM feita por software, usada nos sintonizadores.

A lista mostra como a Accuphase trabalha: aperfeiçoar circuitos clássicos, sobretudo em ruído e controle de volume, em vez de mudar de topologia a cada década.

Marcos recentes

A linha do tempo oficial destaca alguns aniversários. Nos 40 anos, em 2012, saiu o monobloco em classe A pura A-200. Nos 50 anos, em 2022, veio o também monobloco classe A A-300. A empresa recebeu o prêmio do Ministro da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI) nos Product Safety Awards em 2011, 2014 e 2017, quando também foi certificada como “Product Safety Gold Company”. No campo digital, o museu de produtos registra o transporte DP-100 e o conversor DC-101 em 2000. O integrado de referência mais recente é o E-6000, que cobrimos no lançamento do Accuphase E-6000.

Por que a Accuphase importa

A importância da Accuphase não está num único produto que tenha mudado o mercado. Está na demonstração de que uma fabricante japonesa podia disputar o topo do high-end com as americanas e europeias sem copiar ninguém, mantendo a mesma família de produtos, o mesmo endereço e a mesma ideia por mais de 50 anos. Quando a maioria das grandes marcas japonesas dos anos 70 foi vendida, fundida ou reduzida a licenciamento de nome, essa continuidade é rara. Para quem quer entender onde um integrado desse nível se encaixa num sistema, o nosso guia de amplificador integrado é um bom ponto de partida.

Fontes

⌬ FIM · 5 min de leitura
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