Música & Cultura 30 JUN 2026

Devialet: a engenharia francesa que reinventou o som

Nascida em Paris em 2007, a Devialet transformou a indústria de áudio com sua tecnologia híbrida ADH e o icônico Phantom — uma esfera sonora que desafia tudo o que sabíamos sobre caixas de som.

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Em 2004, num laboratório parisiense, o engenheiro Pierre-Emmanuel Calmel teve uma daquelas ideias que mudam indústrias inteiras. E se fosse possível combinar a pureza sonora da amplificação analógica classe A com a potência e eficiência da classe D digital? A resposta veio na forma de uma tecnologia que ele batizou de ADH — Analog Digital Hybrid — e que se tornaria o coração pulsante de uma das marcas de áudio mais audaciosas do século XXI.

A fundação: três visionários, uma obsessão

Três anos depois da invenção do ADH, em 2007, Calmel uniu forças com o empresário Quentin Sannié e o designer Emmanuel Nardin para fundar a Devialet em Paris. A missão era clara e ambiciosa: reinventar a amplificação de áudio a partir do zero. Sannié assumiu como CEO, Calmel como CTO, e Nardin trouxe a sensibilidade estética que se tornaria marca registrada da empresa. Os três compartilhavam uma convicção: a tecnologia de áudio havia estagnado, e era possível fazer muito mais.

O protótipo do ADH funcionava conectando um pequeno amplificador classe A de alta voltagem diretamente ao alto-falante, enquanto um estágio classe D paralelo fornecia a corrente necessária. O resultado era som com a linearidade e a musicalidade do analógico, mas com a eficiência energética e a potência do digital. Uma combinação que, até então, parecia impossível.

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O D-Premier: o amplificador que chocou o mundo

Em 2010, a Devialet lançou seu primeiro produto comercial: o D-Premier. Com apenas 4,3 centímetros de altura — uma fração do tamanho de amplificadores convencionais — o aparelho parecia mais uma obra de arte minimalista do que um equipamento de áudio. Na CES de Las Vegas em 2011, a Devialet exibiu o D-Premier com suas entranhas expostas, revelando a engenharia não convencional por trás daquele chassi elegante. A indústria tomou nota.

Entre 2010 e 2012, a empresa captou mais de 17 milhões de euros em investimentos, sinalizando que o mercado acreditava na visão dos fundadores. O D-Premier evoluiu para a linha Expert, com modelos cada vez mais potentes, mas a Devialet já tinha os olhos em algo ainda mais radical.

Phantom: a esfera que desafiou a física

Após três anos de pesquisa e desenvolvimento, 88 patentes registradas e 1.431 peças meticulosamente projetadas, a Devialet apresentou o Phantom no final de 2014. O design esférico, obra de Emmanuel Nardin, não era apenas uma escolha estética — era uma solução acústica. A forma elimina ondas estacionárias internas e permite uma dispersão sonora de 360 graus que preenche qualquer ambiente.

O Phantom não era uma caixa de som. Era uma declaração de que tudo o que sabíamos sobre alto-falantes compactos estava errado.

— Imprensa especializada na época do lançamento

Em 2016, o Gold Phantom elevou a aposta: som de até 108 decibéis num aparelho que cabia numa prateleira. Para colocar em perspectiva, 108 dB é o volume de um show de rock ao vivo. Num dispositivo de poucos quilos. A física, aparentemente, havia sido convencida a cooperar.

O grande capital e os parceiros improváveis

Ainda em 2016, a Devialet concluiu uma rodada de investimentos de 100 milhões de euros que atraiu nomes surpreendentes: a gigante taiwanesa Foxconn, a Roc Nation de Jay-Z, a Playground Global de Andy Rubin (criador do Android), a Renault e a Sharp. Era a convergência entre tecnologia de ponta, entretenimento e indústria automotiva — todas apostando que o som do futuro falaria francês.

Em 2017, a marca firmou um contrato de dez anos com a Ópera de Paris, instalando uma sala de descoberta sonora no histórico Palais Garnier. A parceria com a Huawei, iniciada em 2019, resultou na linha Sound de caixas de som inteligentes, levando a tecnologia ADH a um público muito mais amplo. A Devialet também colaborou com a Sky UK no Sky Soundbox e com a Belkin no Soundform Elite.

A evolução contínua: do Mania ao novo Phantom Ultimate

A Devialet nunca parou de expandir seu universo. Em março de 2022, lançou o Dione, um soundbar premium. Em novembro do mesmo ano, veio o Mania — sua primeira caixa portátil, com certificação IP67 contra água e poeira, pensada para levar o som Devialet para além das salas de estar. Em 2023, os fones Gemini II mostraram que a marca também dominava o áudio pessoal.

O capítulo mais recente veio em setembro de 2025, com o Phantom Ultimate. Disponível em dois modelos — o 108 dB (US$ 3.800) e o compacto 98 dB (US$ 1.900) — o novo Phantom traz um tweeter que alcança 35 kHz para fidelidade ultra-alta, e um woofer redesenhado com 30% mais área de superfície, entregando graves que descem até 14 Hz. Em 2026, uma edição limitada em parceria com Roland-Garros trouxe acabamento em vermelho argila, homenageando os icônicos courts de saibro do torneio.

O legado em construção

Com mais de 250 patentes acumuladas, parcerias que vão da alta-costura à Fórmula 1 — em abril de 2026, o piloto Isack Hadjar tornou-se o primeiro embaixador global da marca — a Devialet segue sendo um caso raro de empresa que uniu engenharia de ponta, design radical e ambição comercial sem comprometer sua alma sonora. De um laboratório parisiense ao Palais Garnier, a trajetória da Devialet é a prova de que a França tem muito mais a oferecer ao mundo do áudio do que apenas bom gosto.

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