Poucas marcas encarnam tão bem a potência sem pedir desculpas quanto a Krell Industries. Fundada em 1980 por Dan D’Agostino e Rondi D’Agostino (nascida Halling), dois ex-funcionários da Mark Levinson, a empresa de Orange, Connecticut, transformou amplificadores classe A grandes, pesados e quentes em objeto de desejo de uma geração de audiófilos. Também é uma história de ruptura: o casal se separou profissionalmente em 2009, Dan abriu outra marca e, em junho de 2024, a morte de Rondi deixou a Krell com a produção parada.
As origens: dois ex-Mark Levinson e uma ideia fixa
Segundo o obituário publicado pelo Strata-gee, Rondi Halling nasceu em 3 de janeiro de 1946 na Califórnia, e começou a carreira no áudio na Mark Levinson, onde conheceu Dan D’Agostino. A página institucional da empresa atual de Dan informa que ele se formou em engenharia elétrica na UC Berkeley e, “em 1980, fundou a Krell Industries”, onde foi engenheiro-chefe até 2009. O site da Krell repete o ano de fundação e mantém Orange, Connecticut, como sede.
Em entrevista ao Hifi Pig, em 2020, Dan resumiu a motivação em uma frase: olhando os amplificadores da época, achou que “podia projetar um amplificador diferente de tudo”. Foi esse aparelho que, nas palavras dele, “começou a Krell”.
KSA-100: o cartão de visita
O primeiro produto foi o KSA-100, um amplificador estéreo de potência em classe A. Segundo o histórico da marca publicado pelo portal Stereoindex (fonte secundária), o modelo ficou pronto no fim de dezembro de 1980 e foi apresentado no ano seguinte em Las Vegas, com pedidos que superaram a capacidade da fábrica recém-aberta. Dan aponta como marcos o amplificador KSA-250 e o pré KRC-HR, que, segundo ele, fizeram a empresa “crescer dramaticamente”.
Minha leitura: o mérito da Krell não foi inventar a classe A, que já existia, e sim empacotá-la com fontes enormes e foco declarado em corrente.
A empresa cresce: Evolution e a era do home theater
Nos anos 2000 a Krell já fazia pré-amplificadores, players e processadores. Em 2006, segundo nota do Residential Systems, Dan era o CEO e Rondi a presidente da empresa.
A linha Evolution foi o grande projeto da década. Em comunicado de 27 de fevereiro de 2006, reproduzido pelo eCoustics, a Krell anunciou o embarque do pré Evolution 202, do SACD/CD player Evolution 505 e dos amplificadores Evolution 402 (estéreo, 400 W por canal segundo o fabricante) e Evolution 600 (mono, 600 W). Todos derivavam do amplificador Evolution One e do pré Evolution Two, lançados em 2005. O texto destaca o circuito proprietário CAST, que mantém o sinal no domínio da corrente. São números do fabricante.
2009: a saída de Dan e o nascimento de outra marca
A versão de Dan sobre a saída é dura. Ao Hifi Pig, ele disse que foi “forçado a sair” da própria empresa por “um investidor minoritário” e que, depois de esgotar as opções legais, decidiu seguir em frente. Rondi permaneceu, e o Strata-gee registra que ela se tornou a única proprietária da Krell.
A Dan D’Agostino Master Audio Systems foi fundada em 2011, segundo o próprio site, e fabrica tudo em Cave Creek, no Arizona. A linha começou pelo monobloco Momentum e hoje inclui as séries Relentless, Progression e Pendulum.
iBias: a Krell repensa a classe A
Sem o fundador, a Krell fez em 2014 uma das jogadas técnicas mais interessantes da sua história. Na CES daquele ano, segundo o Twice, a empresa trouxe de volta amplificadores de alta potência em classe A depois de mais de sete anos sem eles no catálogo, agora com a tecnologia iBias (então com patente pendente). Segundo a explicação da empresa, o estágio de saída nunca desliga, como na classe A tradicional, mas o amplificador mede em tempo real a demanda de corrente na saída e fornece apenas a polarização necessária naquele instante. Os sete modelos, do Duo 175 ao Solo 575, cabiam em chassi de 3U, contra 5U dos classe A anteriores.
Opinião: o iBias é engenhoso, e é legítimo perguntar se uma polarização que varia com a demanda ainda merece o rótulo “classe A” puro, já que a ideia lembra projetos de polarização deslizante de outras épocas. O que se pode afirmar é que a Krell tentou tornar a classe A viável em racks e salas menores.
2024 em diante: luto, pausa e incerteza
Rondi D’Agostino morreu em 18 de junho de 2024, aos 78 anos. Segundo o Strata-gee, em comunicado a Krell se descreveu como “uma das últimas empresas privadas e familiares” do high-end e anunciou que fecharia “pelas próximas semanas”. Virou uma pausa longa. O site oficial atual traz uma linha do tempo: suspensão temporária da produção após a morte da fundadora, avaliação operacional em agosto de 2024, nova equipe executiva em novembro de 2024, reforma da fábrica a partir de janeiro de 2025 e meta de produção plena “em 2026”. A mesma página diz que a assistência técnica segue operando, mas também que a data de retomada da produção “ainda está sendo determinada”. Não há confirmação independente de que a fabricação tenha voltado.
Para quem tem um Krell, convém confirmar prazos e peças com a assistência antes de enviar o aparelho. Fica o contraste: Dan segue produzindo no Arizona, enquanto a marca que ele e Rondi criaram tenta provar que sobrevive aos fundadores.
Leia também a história da Hegel e seu SoundEngine, da Quad e o current dumping e o Nagra Amp II S em classe A/AB.
Fontes
- Krell Industries, site oficial (linha do tempo desde junho de 2024 e status da assistência)
- Dan D’Agostino Master Audio Systems, página “About Us”
- Comunicado da Krell de 27/02/2006 sobre a linha Evolution (reproduzido pelo eCoustics)
- Twice, “Krell Brings Back High-Power Class A Amps” (07/01/2014), cobertura secundária
- Hifi Pig, entrevista com Dan D’Agostino (16/01/2020), cobertura secundária
- Strata-gee, sobre a morte de Rondi D’Agostino (24/06/2024), cobertura secundária
- Residential Systems, nota de 07/08/2006, cobertura secundária
- Stereoindex, histórico da Krell e do KSA-100, cobertura secundária