Poucas marcas do áudio nasceram tão longe do áudio quanto a SME. A empresa inglesa começou fazendo miniaturas para modelismo, passou a fabricar peças de precisão para aviões e só entrou no mundo do vinil porque o fundador queria um braço melhor para o próprio sistema de som. Esse braço virou produto, o produto virou referência, e o encaixe de cabeçote que a SME popularizou continua presente em toca-discos de DJ e de entrada no mundo todo. É uma história de engenharia mecânica antes de ser uma história de som.
Da maquete à aviação (1946-1958)
Segundo a linha do tempo oficial da empresa, a SME foi fundada em 1946 por Alastair Robertson-Aikman com o nome de Scale Model Equipment Company. O negócio inicial era projetar e fabricar modelos de precisão para exposições e para o comércio de modelismo. A sigla que hoje estampa toca-discos de luxo vem daí: equipamento para modelos em escala.
A partir de 1950, a empresa diversificou para a subcontratação de engenharia e passou a produzir peças de precisão para aeronaves. A SME cita clientes como Rolls-Royce, Hawker e Martin-Baker. Na década de 1950, segundo o texto institucional, o modelismo foi ficando para trás em favor de peças para instrumentos de aviação e máquinas de escritório.
O braço que mudou o nome da empresa (1959)
Em 1959, Robertson-Aikman projetou um braço de toca-discos para uso próprio. O protótipo foi mostrado a amigos da indústria de áudio, que o incentivaram a produzi-lo comercialmente. De acordo com a SME, o primeiro braço de precisão da marca chegou ao mercado em setembro daquele ano. A recepção foi tão boa que uma nova fábrica foi construída e a empresa trocou de nome para SME Limited, um título que a própria companhia descreve como “menos comprometedor” para as novas atividades.
O Series I era produzido a um ritmo de 25 unidades por semana, todas com componentes usinados individualmente. Em 1962 vieram os braços Series II de 9 e 12 polegadas, conhecidos pelos códigos 3009 e 3012. A enciclopédia Wikipedia (fonte secundária) registra que esses modelos foram amplamente adotados por audiófilos e emissoras de rádio nas décadas de 1960 e 1970, e que o encaixe de cabeçote removível da SME, baseado em um desenho da Ortofon, tornou-se padrão de fato da indústria. É o mesmo tipo de encaixe que muitos toca-discos de DJ usam até hoje.
A evolução dos braços (1972-1988)
A linha do tempo oficial lista uma sequência de braços:
- 1972: Series II Improved de 9 polegadas
- 1977: Series III e Series IIIS
- 1980: Series II tipo R, em 9, 10 e 12 polegadas
- 1986: Series V
- 1987: Series IV
- 1988: Series 300
Cada geração respondeu a uma mudança nas cápsulas. Segundo a Wikipedia, o Series III tinha massa efetiva muito baixa para cápsulas de alta complacência, como a Shure V15 IV. Já o Series V foi pensado como braço de massa média, mais adequado às cápsulas de bobina móvel (MC), de complacência menor. Nele, o cabeçote removível foi eliminado para ganhar rigidez. É um exemplo claro de que braço e cápsula precisam combinar, assunto que explicamos no guia de instalação e alinhamento de cápsula.
Os toca-discos completos (1991 em diante)
Depois de três décadas fazendo braços, a SME lançou seu primeiro toca-discos completo em 1991, o Model 30. Vieram em seguida o Model 20 (1992), o Model 10 (1999), o Model 20/12 (2006), o Model 30/12 (2008) e o Model 15 (2015). Em paralelo, a divisão de engenharia de precisão seguia atendendo outras indústrias. Para 1990, a SME cita trabalhos para Rolls-Royce Motor Cars, British Oxygen Company, Parker Pen, Ford, Williams e Philips Medical.
Robertson-Aikman morreu em 2006. A revista norte-americana Stereophile publicou na época um obituário intitulado “Alastair Robertson-Aikman (1924–2006)” (fonte secundária).
Nova fase e o resgate da Garrard
Em 2016, ano em que completou 70 anos, a SME passou a integrar o grupo Cadence Audio. A Wikipedia associa a aquisição ao empresário Ajay Shirke. Em 2018 a empresa anunciou um programa de investimento em máquinas na fábrica de Steyning, em West Sussex, e lançou o Synergy, toca-discos integrado com pré-amplificador phono embutido, braço de magnésio com cápsula casada e fiação Crystal Cable.
No mesmo ano, segundo a SME, a controladora Cadence Audio comprou a marca Garrard, outro nome histórico dos toca-discos britânicos. Em 2019 saiu um novo Garrard 301 com plinto de nogueira maciça e braço SME M2-12R, além do Model 12A da própria SME, que usa o braço 309.
O topo atual é o Model 60. A SME o descreve como o toca-discos mais avançado tecnicamente que já fez, com motor AC síncrono bifásico, controle de velocidade por DSP e o novo braço Series VA, cujo tubo é usinado em CNC a partir de uma resina polimérica de alta densidade, em vez de metal. Segundo a ficha oficial, o toca-discos sozinho pesa 48 kg, e o braço tem massa efetiva de 10 a 11 g. A página do produto cita uma avaliação da Hi-Fi News publicada em julho de 2022.
O legado
A SME atravessou oito décadas sem abandonar a origem industrial. Ainda hoje, segundo o site oficial, fabrica em Steyning tanto toca-discos e braços quanto componentes de precisão para os setores aeroespacial, de Fórmula 1 e de equipamentos médicos. A trajetória lembra a de outras marcas tradicionais do vinil, como a Thorens, mas com uma diferença marcante: a SME chegou ao áudio pela usinagem, e não o contrário. Para quem tem um toca-discos em casa, o legado mais concreto talvez seja invisível: o encaixe de cabeçote que ajudou a padronizar e os ajustes de braço que hoje parecem óbvios, explicados no nosso passo a passo de regulagem de toca-discos.