Poucas marcas de áudio dividem tanto a opinião de quem trabalha com som quanto a Behringer. Para muita gente, foi a primeira mesa de som, a primeira interface de áudio ou o primeiro sintetizador analógico que coube no bolso. Para outros, é sinônimo de cópia, processo judicial e concorrência predatória. As duas leituras têm base. A história da empresa fundada por Uli Behringer em 1989 é, ao mesmo tempo, uma das mais bem-sucedidas da democratização do equipamento de áudio e uma das mais controversas.
O engenheiro que não podia pagar pelo próprio estúdio
Uli Behringer nasceu em 14 de abril de 1961 em Baden, na Suíça, numa família de músicos: segundo a biografia reunida na Wikipédia, o pai era organista de igreja e físico nuclear, a mãe pianista e intérprete. Começou a estudar piano aos quatro anos e, aos 16, construiu o primeiro sintetizador, o UB1.
A versão da própria empresa para a fundação é a de um músico e técnico de som que não conseguia pagar pelo equipamento do próprio estúdio e decidiu fabricar o que precisava. A Behringer foi fundada em 25 de janeiro de 1989 em Willich, na Alemanha, perto de Düsseldorf. A cidade ainda aparece como sede da marca.
A virada: produção na China
A decisão que definiu o futuro da empresa veio cedo. Em 1990, para reduzir custos, a Behringer transferiu a produção da então Alemanha Ocidental para a China continental, inicialmente com fornecedores terceirizados. Em 1997, Uli Behringer se mudou para Hong Kong para supervisionar a qualidade da fabricação de perto.
O modelo de negócio estava montado: projetos de produtos conhecidos do mercado profissional, fabricados em escala com custo muito menor e vendidos por uma fração do preço. Mesas da linha Xenyx, processadores, amplificadores, interfaces USB e, mais tarde, microfones e caixas ativas se espalharam por home studios, igrejas, bandas iniciantes e pequenas casas de show no mundo todo.
Os processos
O mesmo modelo gerou atrito constante. Em junho de 1997, a americana Mackie acusou a Behringer de violação de marca e de trade dress e pediu US$ 327 milhões de indenização. Na ação, a Mackie listava casos anteriores, como o processo da Aphex Systems pela cópia do Aural Exciter Type F, em que a Aphex teria obtido 690 mil marcos alemães. Em 30 de novembro de 1999, porém, a Justiça Federal americana em Seattle rejeitou as alegações de violação de direito autoral sobre a mesa MX 8000, com o entendimento de que esquemas de circuito não são protegidos por copyright. A história da Mackie, aliás, está no nosso perfil da marca.
Em 2005, a Roland processou a Behringer pelo visual de seus pedais de guitarra. O caso terminou em acordo confidencial em 2006, depois que a Behringer mudou os desenhos.
O episódio mais documentado envolve o regulador americano. Em fevereiro de 2006, a FCC publicou uma notificação de responsabilidade aparente contra a Behringer USA, propondo multa de US$ 1 milhão. Segundo o documento, a empresa comercializou 50 modelos de equipamentos sem a autorização exigida para dispositivos que emitem radiofrequência e continuou importando e vendendo esses produtos por mais de um ano depois do início da investigação. A Behringer alegou que os aparelhos tinham passado nas normas europeias CE e que não percebeu as diferenças de procedimento. Depois disso, montou um laboratório próprio de testes de segurança e compatibilidade eletromagnética.
De fabricante barata a dona de marcas históricas
Nos anos 2000, a Behringer passou de alvo a compradora. Em maio de 2000, adquiriu os direitos da tecnologia CoolAudio, de circuitos integrados para áudio, da americana Intersil. Em dezembro de 2009, o grupo, então chamado Music Group, comprou da Bosch duas marcas respeitadíssimas do áudio profissional: a britânica Midas, de mesas de som, e a Klark Teknik, de processadores. Vieram depois a Turbosound, em 2012, e o grupo TC, em 2015, trazendo para o mesmo guarda-chuva nomes como TC Electronic, TC-Helicon, Tannoy e Lab.gruppen. A história da Tannoy conta esse capítulo do lado britânico.
Em dezembro de 2017, o Music Group virou Music Tribe, holding com sede em Makati, nas Filipinas, presidida por Uli Behringer. Em 2018, a empresa inaugurou o complexo industrial Music Tribe City, em Zhongshan, na província chinesa de Guangdong, que concentra a produção das marcas do grupo.
X32: a mesa que mudou o mercado
A compra da Midas e da Klark Teknik teve efeito direto no produto mais importante da história recente da Behringer: a mesa digital X32, lançada no início da década de 2010 com tecnologia vinda das novas marcas do grupo. Ela levou recursos de mesas digitais de palco para uma faixa de preço antes ocupada por mesas analógicas. Segundo números atribuídos ao próprio Uli Behringer, a X32 passou de 700 mil unidades vendidas, dado da empresa que não encontramos confirmado de forma independente.
Sintetizadores: originais e clones
A partir de 2016, a Behringer entrou com força em sintetizadores e baterias eletrônicas, combinando projetos próprios, como o Neutron, com recriações de clássicos: o Model D (inspirado no Minimoog), o RD-8 (Roland TR-808), o TD-3 (Roland TB-303) e dezenas de outros. Os preços derrubaram a barreira de entrada para o synth analógico. Criadores e fabricantes como Roger Linn, Tom Oberheim e a Curtis Electromusic criticaram publicamente a clonagem sem autorização. A Behringer responde que recriar hardware antigo é legal quando as patentes já expiraram.
A relação com a comunidade também teve episódios ruins. Em 2017, o Music Group processou a Dave Smith Instruments, um engenheiro da empresa e 20 usuários do fórum Gearslutz por difamação. O caso foi rejeitado como ação estratégica contra a participação pública (SLAPP). Em 2020, um vídeo satírico da marca mirando o jornalista Peter Kirn foi criticado por uso de imagens consideradas antissemitas, e um pedido de desculpas de Uli Behringer publicado no Facebook foi apagado no dia seguinte.
O que a Behringer representa hoje
No Brasil, a marca é presença comum em lojas de instrumentos e em setups de entrada, como mostram produtos que já analisamos: a interface UMC404HD, com pré-amplificadores que levam o nome Midas, é um bom exemplo de como o grupo usa as marcas adquiridas para dar credibilidade aos produtos de baixo custo.
A avaliação honesta é dupla. A Behringer colocou mesas, interfaces e sintetizadores ao alcance de milhões de músicos que não teriam como pagar pelos originais, e hoje controla algumas das marcas mais respeitadas do áudio profissional. Também construiu essa trajetória com cópias contestadas, multas e brigas judiciais com concorrentes e críticos. Quem compra Behringer compra as duas partes dessa história.