Música & Cultura 22 OUT 2026

Magnepan: a história das caixas Magneplanar, do porão de Jim Winey ao 30.7

Como um engenheiro da 3M criou no porão de casa o painel planar-magnético que a Magnepan fabrica há mais de 50 anos em White Bear Lake, e o que essas caixas cobram em sala e amplificação.

Par de caixas Magnepan 20.7, painéis planares altos com tecido preto e laterais de madeira avermelhada
MÚSICA & CULTURA

Existe uma caixa acústica americana com mais de meio século de estrada que não tem caixa, não tem cone e carrega, entre críticos, a fama de entregar muito pelo preço. A Magnepan, de White Bear Lake, no Minnesota, construiu toda a sua reputação em cima de um único princípio, o painel planar-magnético que ela batizou de Magneplanar, e nunca saiu dele. É uma história de teimosia de engenheiro, de fábrica pequena no Meio-Oeste e de um produto que exige do dono quase tanto quanto entrega.

Um engenheiro da 3M no porão de casa

Jim Winey (1934–2024) trabalhava como engenheiro na 3M quando começou a mexer com alto-falantes no porão de casa. Segundo o próprio site da Magnepan, ele tinha caixas eletrostáticas e passou a experimentar para criar uma versão melhor delas.

Jonathan Valin, da The Absolute Sound, descreve o primeiro protótipo como algo rudimentar: uma bobina colada numa tira de dois pés do material magnético da 3M, alimentada por um amplificador Dyna. Pela versão oficial da empresa, em 1969 Winey inventou o Magneplanar, “um equivalente magnético de filme fino ao eletrostático”, e fundou a Magnepan.

Tympani, Audio Research e a fama de “Maggie”

Segundo Valin, em 1971 Winey já comercializava o enorme Tympani I, de três painéis articulados por caixa, e o primeiro distribuidor da Magnepan foi William Z. Johnson, fundador da Audio Research, outra empresa do Minnesota. Frank Doris, da revista Copper, também data a chegada do Tympani 1U ao mercado em 1971. A Wikipédia lista datas diferentes para as gerações do Tympani, então trate o calendário fino com cautela: o que as fontes concordam é que, já no inverno de 1972–73, o modelo tinha passado por quatro iterações.

Daí vieram os apelidos e a linhagem: MG-I, MG-II, MG-III, a série SMG/MMG de entrada e, mais tarde, a nomenclatura com ponto que vigora hoje. Valin resume a evolução técnica: os painéis passaram de acionamento só “push” para push-pull, os drivers de médios e graves viraram quasi-ribbon e os melhores tweeters se tornaram fitas verdadeiras.

Quasi-ribbon e True Ribbon, sem mistério

O coração de uma Maggie é uma folha de Mylar com uma tira finíssima de alumínio colada à mão, suspensa diante de fileiras de ímãs. Quando o sinal do amplificador passa pelo alumínio, a membrana inteira é empurrada, sem cone nem bobina convencional. A Magnepan chama isso de quasi-ribbon: “uma fita verdadeira sobre um filme de Mylar”. Botões espalhados pelo painel quebram a membrana em zonas ressonantes menores, explica a fábrica.

Já o True Ribbon é a fita no sentido clássico: uma lâmina corrugada de alumínio, sem substrato, solta no campo magnético. Segundo a empresa, ela tem um décimo da espessura de um fio de cabelo e aparece nos modelos topo, como 3.7i, 20.7 e 30.7. Como a frente e a traseira do painel irradiam juntas, toda Maggie é um dipolo: o som sai para a frente e para trás, em fases opostas.

A linha atual

O catálogo de caixas de chão no site oficial vai do LRS+ ao 30.7, passando por .7, 1.7i, 2.7i, 3.7i e 20.7, além de modelos de suporte e do sistema Mini Maggie. O 30.7, de quatro painéis e quatro vias, foi eleito Produto do Ano geral da The Absolute Sound na edição de janeiro de 2018. Na outra ponta, o LRS+ é vendido direto pela fábrica, no esquema “Buy Direct” do site, listado a US$ 1.295 o par com frete grátis em 22/10/2026; os demais modelos de chão seguem pela rede de revendas. Mais recentemente surgiu a série X, versões com crossover reprojetado, nascida no departamento de serviço pelas mãos de Mick Bucher.

Tudo continua saindo de White Bear Lake. A Magnepan diz ter uma planta de mais de 50 mil pés quadrados, ter vendido mais de 200 mil pares e usar “praticamente só peças americanas”, com o slogan “Made in America. Sold in China.” Wendell Diller, funcionário de longa data que aparece em vídeos da marca explicando a tecnologia, e Mark Winey, filho do fundador, foram citados por Valin como responsáveis pelos lançamentos mais recentes. Jim Winey morreu em janeiro de 2024, aos 89 anos.

A conta que ninguém conta na loja

Agora a parte crítica. As fichas oficiais de LRS+, .7, 1.7i, 3.7i e 20.7 informam 86 dB a 500 Hz com 2,83 V (a 1 m, nos manuais) e 4 Ω nominais. Repare que a medição é feita a 500 Hz, não no 1 kHz mais comum, então não compare diretamente com fichas de outras marcas. O manual do 1.7i é franco: pede amplificador capaz de pelo menos 120 W RMS por canal em 4 Ω e diz que “mais potência é melhor”. A fábrica argumenta que a carga é quase resistiva, fácil para o amplificador; ainda assim, 4 Ω e sensibilidade modesta descartam muito receiver de entrada.

Depois vem o espaço. O 1.7i tem cerca de 1,64 m de altura, e o 20.7, aproximadamente 2 m. Por ser dipolo, a Maggie precisa respirar: o manual do 1.7i manda deixar pelo menos 2,5 pés (cerca de 76 cm) da parede de trás e sugere 4 a 5 pés como ideal; o do LRS+ pede no mínimo 2 pés. Numa sala brasileira típica, isso significa a caixa no meio do cômodo.

Quem já gosta de painéis vai reconhecer o dilema que aparece nas histórias da MartinLogan e da Quad: o painel cobra em sala e amplificação. E a ligação com o mundo dos fones é direta: a própria Magnepan lembra que os planares magnéticos de fones, como os da HiFiMan, usam o mesmo princípio quasi-ribbon.

Fontes

⌬ FIM · 5 min de leitura

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