Pouca gente sabe, mas é bem provável que um alto-falante ou fone feito pela Foster Electric já tenha passado pelas suas mãos com outra marca estampada. A fabricante japonesa construiu boa parte da sua história como fornecedora de componentes para outras empresas. A Fostex, sua marca própria, virou outra coisa: um nome cultuado por quem monta caixas em casa, por quem modifica fones e por uma geração de músicos que gravou as primeiras demos em gravadores multipista de fita.
Shinano, 1949: dois sócios e um alto-falante sem marca
Segundo a página de história da Foster Electric, tudo começou em junho de 1949, quando Shigehiro Nishimura e Hiroaki Shinohara fundaram o Shinano Onkyo Kenkyūsho (Instituto de Pesquisa Acústica Shinano) em Shibuya, Tóquio, para fabricar alto-falantes. “Shinano” é o nome antigo da província de Nagano, de onde vinham os dois. O primeiro produto saiu sem marca, e só duas lojas do distrito de atacado de eletrônicos de Kanda aceitaram vendê-lo, mas ele vendeu bem. O lema escolhido pela empresa foi “sinceridade”. (A Wikipédia em inglês cita 1948 como fundação; aqui seguimos a data da própria empresa.)
Em 1953 a empresa virou Shinano Onkyo K.K. e registrou a marca “Foster”; em 1959 adotou o nome Foster Electric. A linha do tempo oficial mostra o alto-falante G-205 usado no rádio transistorizado TR-55 da Sony, a entrada na fabricação de microfones em 1962 e de fones de ouvido em 1964. Nos anos 1980, um pedido da GM (Delco) por alto-falantes automotivos levou a empresa a automatizar a produção; nos anos 2000, o crescimento veio dos fones que acompanhavam celulares.
Esse papel de fornecedora é o pano de fundo de tudo. A Wikipédia em japonês lista clientes como Sennheiser, Sony, Yamaha, Denon e Beats, além de fones para iPod e iPhone; é uma informação de terceiros, não confirmada pela Foster, mas ajuda a entender o tamanho da operação por trás de um nome pouco conhecido do público.
1973: nasce a Fostex
A página de história da Fostex marca 1973 como o ano de nascimento da marca, criada como subsidiária independente da Foster Electric; a página institucional em inglês celebra os 50 anos completados em 2023. Em abril de 2003, a Fostex Corporation foi incorporada de volta à Foster Electric e passou a operar como divisão interna, a “Fostex Company”.
Os alto-falantes FE e a cultura do faça-você-mesmo
A Fostex informa que o FE103, alto-falante full-range de 10 cm, tem mais de 50 anos de história, e a página do FE103En trata o modelo como representante dessa linhagem. No Japão, os FE viraram matéria-prima de uma cultura inteira de caixas montadas em casa, especialmente as de corneta traseira (back-loaded horn) projetadas pelo crítico Tetsuo Nagaoka, que circulam até hoje em fóruns de DIY. A explicação é simples: um único driver de banda larga elimina o divisor de frequências e deixa o projeto do gabinete fazer o resto.
RP: o fone planar que virou base de modificação
A sigla RP significa Regular Phase: um driver planar próprio da Fostex em que todo o diafragma se move em fase, segundo a página oficial do T50RPmk4, que diz que o driver foi desenvolvido há mais de 50 anos. A linha do tempo da Foster registra microfones, fones e alto-falantes RP nos anos 1970. Um catálogo de 1977 reproduzido pelo arquivo Preservation Sound mostra os T50, T30, T20 e T10 da época.
A versão moderna, o T50RP, ganhou vida própria entre entusiastas. Por ser robusto, barato para um planar e fácil de abrir, virou base de modificações caseiras e comerciais; a mais famosa, a Mad Dog, deu origem à MrSpeakers, hoje Dan Clark Audio. A linha segue ativa: em 2026 a Fostex anunciou os T50RPmk4Q e T60RPmk2Q e até um T50RP-BT sem fio.
Multipistas: o estúdio que cabia no quarto
A partir de 1981, a Fostex disputou com a TASCAM o mercado de gravação multipista acessível. Segundo a Wikipédia (fonte secundária), vieram os gravadores de rolo A-2 e A-4, o A-8 de oito pistas em fita de 1/4″, o portátil X-15 a pilhas em 1983 e máquinas de 16 e 24 pistas como B-16, E-16 e G-24S. Na era digital, a marca passou por disco rígido (DMT-8), DVD (DV824) e gravadores de campo como o FR-2. Muitos desses aparelhos hoje constam da lista de produtos descontinuados no site oficial.
TH900: laca urushi e o topo da linha
No outro extremo está o TH900, fone fechado com conchas de bétula japonesa acabadas em laca urushi bordô pela casa Sakamoto Otozō Shōten, driver de 50 mm com ímã de 1,5 tesla e diafragma de biocelulose, conforme a página oficial do TH900. O modelo original saiu de linha e deu lugar ao TH900mk2. Por volta de 2016, uma colaboração com a Massdrop (hoje Drop) derivou o TH-X00, de conchas de mogno, que popularizou o som da família fora do Japão.
A Fostex hoje
Em 2026 houve sinais de enxugamento: a Fostex encerrou em 30 de junho o serviço que convertia TH900, TH500RP e TH600 para cabo destacável e o atendimento presencial de reparos, mantendo o conserto por envio, segundo o comunicado oficial e a página de manutenção. Mas a marca não acabou: no mesmo ano lançou os fones TH810 e TH818 e novos modelos RP, e a Foster Electric segue tratando a Fostex como sua marca de varejo em aviso oficial de abril. É uma marca menor do que nos tempos dos multipistas, mas fiel ao que sempre fez de melhor: transdutores.
Fontes
- Foster Electric: história da empresa (japonês)
- Fostex: história da marca e página institucional
- Fostex: T50RPmk4, FE103En, TH900
- Fostex: comunicado sobre fim do serviço de cabo destacável (maio de 2026)
- Wikipédia: Fostex (fonte secundária, gravadores multipista)
- Preservation Sound: catálogo de fones RP de 1977 (fonte secundária)
Foto: gravador multipista Fostex X-12, por David Hilowitz, licença CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.