Música & Cultura 11 OUT 2026

Quad: a história da marca britânica de Peter Walker, do Quad II e do ESL-57 ao current dumping do 405

Da Acoustical Manufacturing Co., fundada em Londres em 1936, à primeira caixa eletrostática de faixa completa produzida em série e ao amplificador que rendeu um Queen's Award: como a Quad virou sinônimo de engenharia britânica de áudio.

Amplificador valvulado Quad II, com duas válvulas KT66, duas EF86 e transformadores em gabinete cinza, fotografado sobre fundo escuro
MÚSICA & CULTURA

Poucas marcas resumem tão bem a engenharia britânica de áudio quanto a Quad. Em pouco mais de quatro décadas, o engenheiro Peter Walker e sua pequena empresa de Huntingdon colocaram no mercado a primeira caixa eletrostática de faixa completa produzida em série, um amplificador valvulado que virou referência e um circuito transistorizado tão original que virou artigo técnico, patente e prêmio da Coroa. Tudo isso sob um lema que a marca repete até hoje: buscar “the closest approach to the original sound”, a aproximação mais fiel possível do som original.

De Londres a Huntingdon

Segundo a página de história oficial da Quad, Walker fundou a empresa em Londres em 1936 com o nome S.P. Fidelity Sound Systems, rebatizada no mesmo ano como The Acoustical Manufacturing Co. Ltd. O começo foi com amplificadores e sistemas de sonorização pública. Em 1941, em plena guerra, a firma se mudou para Huntingdon, em Cambridgeshire, e a cidade continua sendo a base britânica de engenharia e assistência técnica da marca. A mesma cidade viu nascer, décadas depois, a Meridian Audio.

No fim dos anos 1940, o amplificador QA12/P e a caixa Corner Ribbon levaram a empresa ao hi-fi doméstico. Em 1951 veio o produto que batizou a marca: Q.U.A.D., sigla de Quality Unit Amplifier Domestic. O nome curto acabou engolindo o da própria companhia.

Quad II: o valvulado que virou referência

Em 1953 chegaram a unidade de controle e o amplificador de potência Quad II. O monobloco usa um par de válvulas KT66 na saída, com transformadores blindados e um chassi cinza, compacto e quase industrial. A Quad credita sua longevidade à topologia de saída de Walker, com acoplamento pelo catodo. Na minha leitura, o Quad II é o melhor exemplo da filosofia da casa: potência modesta, distorção baixa e nenhuma concessão à moda.

ESL-57: a caixa que repensou a caixa

A peça mais importante da história da Quad foi demonstrada em 1956 e começou a ser vendida em 1957: o Quad Electrostatic Loudspeaker, depois apelidado de ESL-57. Em vez de cone, bobina e ímã, um diafragma extremamente leve é movido eletrostaticamente entre placas perfuradas (os estatores). A Quad o descreve como a primeira caixa eletrostática de faixa completa produzida comercialmente. A promessa era clareza e distorção muito baixa, com as limitações de volume máximo e de graves típicas de painéis de dipolo.

O ESL-57 mostrou que um transdutor podia ser repensado desde o princípio, ideia que outras marcas de eletrostáticas, como a MartinLogan, levariam adiante por caminhos próprios. Até hoje, a Quad mantém assistência para os ESL originais em Huntingdon.

Em 1981, a segunda geração, ESL-63, apelidada de FRED (Full Range Electrostatic Doublet), trouxe eletrodos em anéis concêntricos alimentados por linhas de atraso. O objetivo era fazer o painel irradiar como uma fonte pontual. Segundo a marca, a produção do primeiro ano esgotou em dois meses.

Transistores, design e museu: 33 e 303

A Quad entrou na era do transistor em 1967 com o pré 33 e o amplificador de potência 303. Minimalistas por fora, usavam por dentro um estágio de saída em “triplas” para contornar os problemas de estabilidade térmica comuns nos primeiros amplificadores de estado sólido. A dupla ganhou um prêmio de design industrial em 1969 e, segundo a Quad, o 33 entrou para o acervo do MoMA, em Nova York. Do outro lado do Atlântico, o Science Museum de Londres guarda um sistema de alta fidelidade de 1969 (objeto 1969-13), com crédito à Acoustical Manufacturing Co. Ltd., que reúne um 33, um 303, um sintonizador FM e duas caixas eletrostáticas Quad.

Current dumping e o 405

Em dezembro de 1975, Walker publicou na revista Wireless World o artigo “Current dumping audio amplifier” e apresentou o conceito à Audio Engineering Society. A ideia é dividir o trabalho: um amplificador pequeno e preciso define o sinal, enquanto transistores de potência, os dumpers, apenas despejam a corrente pesada na carga. Uma rede de ponte com componentes passivos faz com que os erros dos dumpers, incluindo a distorção de cruzamento, se cancelem, sem depender de ajuste fino de polarização. A patente americana US 3.970.953, “Distortion-free amplifiers”, em nome de Peter James Walker e Michael Peter Albinson e cedida à Acoustical Manufacturing, tem prioridade britânica de janeiro de 1974 e foi concedida em 20 de julho de 1976.

O resultado comercial foi o amplificador 405, um grande sucesso de vendas. Em 1978, a empresa recebeu o Queen’s Award for Technological Achievement. A Quad afirma ser a única fabricante de hi-fi a ter recebido esse prêmio. A família current dumping seguiu nas décadas seguintes, e um 405 restaurado ainda é opção comum para alimentar caixas passivas.

Verity, IAG e a Quad de hoje

Walker deixou o dia a dia da empresa no fim dos anos 1980 e morreu em 2003. Em 1995, numa década difícil para o hi-fi britânico, a Quad foi comprada pelo Verity Group. Em 1997, passou a integrar o grupo International Audio Group (IAG), que também controla a Wharfedale, a Audiolab, a Mission e a Leak. Segundo a página da Quad no site da IAG, o grupo tem sede e fábricas na Ásia e escritórios de P&D no Reino Unido. Gestão, projeto e assistência da Quad continuam em Huntingdon.

A fase IAG trouxe a série 99 e os ESL-988/989, a terceira geração eletrostática, seguidos pela caixa 11L (produto do ano da What Hi-Fi? em 2002), pelos ESL-2805/2905 e pelos ESL-2812/2912, de 2012. Vieram ainda o Vena (2014), a linha Artera (2015) e as caixas Revela (2023). Em 2024, a marca relançou o 33 e o 303. Em 2025, apresentou o integrado Quad 3, a série Platina e a linha ESL-X, que chama de sexta geração do eletrostático.

Minha opinião: a Quad atual vive do próprio passado, às vezes até demais. Mas poucas marcas têm um passado que mereça tanto ser revisitado. ESL-57, Quad II e 405 são três respostas elegantes para a pergunta que Walker fez em 1936.

Fontes

Foto de abertura: amplificador Quad II com válvulas KT66 — Harumphy/Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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