Música & Cultura 10 OUT 2026

Electro-Voice: a marca que nasceu num treino de futebol americano e virou a voz do rádio

De uma oficina de rádio falida em 1929 ao RE20, ao X-Array dos Rolling Stones e à venda para a Triton: quase 100 anos de Electro-Voice.

Microfone Electro-Voice RE20 em cabine de locução
MÚSICA & CULTURA

Poucas marcas de áudio têm uma certidão de nascimento tão improvável quanto a Electro-Voice. Ela nasceu de uma oficina de rádio quebrada pela crise de 1929, ganhou nome por causa de um técnico de futebol americano e, quase um século depois, continua no ar: o microfone RE20, lançado em 1968, segue nos estúdios de rádio do mundo inteiro praticamente igual ao original. A história da EV é a história de como se capta e se projeta a voz humana no século 20, do megafone de treino ao line array de turnê dos Rolling Stones.

Uma oficina de rádio em South Bend

Em 1º de setembro de 1927, Al Kahn e Lou Burroughs formaram em South Bend, Indiana, uma sociedade chamada Radio Engineers. Segundo o próprio Kahn, num texto de 1953 republicado pela ProAudioEncyclopedia, o capital inicial era de US$ 30 e um carro usado. O negócio era consertar rádios, e a quebra da bolsa em 1929 deixou a firma insolvente, com dívidas de US$ 5.000.

A saída foi mudar de ramo. O primeiro produto de áudio foi um sistema de som portátil vendido a Knute Rockne, o lendário técnico de Notre Dame, que o usava do alto de uma torre para comandar os treinos. Rockne chamava o aparelho de “Electric Voice”. O nome pegou: a empresa foi incorporada como Electro-Voice em 1º de julho de 1930, segundo Kahn (a Wikipedia registra 1º de junho; ficamos com a data do fundador). O histórico oficial da marca conta o mesmo episódio.

Microfones, guerra e Buchanan

Nos primeiros anos, os microfones saíam à razão de um por semana. Em 1934, Kahn desenvolveu uma bobina humbucking para reduzir zumbido, aplicada no microfone de velocidade V-1. Na Segunda Guerra, a EV fez o microfone de lábio T-45, que cancelava ruído para comunicação militar, e a fábrica chegou a cerca de 500 funcionários.

Em 1946 a empresa se mudou para Buchanan, Michigan, onde ficaria por quase 60 anos. Dali saíram cápsulas de toca-discos (1948), os primeiros alto-falantes hi-fi (1950) e, em 1953, a tecnologia que definiria a marca: o Variable-D, um desenho de microfone dinâmico cardioide que reduz o efeito de proximidade, aquele reforço de graves que aparece quando a boca chega perto da cápsula. Kahn citava na época 19 patentes pendentes, incluindo o “Variable D Gradient Microphone”.

Do “Buchanan Hammer” ao microfone dos repórteres

Em meados dos anos 1950 veio o 664, apelidado de “Buchanan Hammer” por ser praticamente indestrutível, lançado em parte para brigar com o Shure 55. Em 1963, o shotgun 642 Cardiline rendeu à EV um Oscar técnico. E em 1965 chegou o 635A, o microfone omnidirecional de mão que virou ferramenta padrão de repórter de TV por décadas. A Radio World registrou o fim da produção na primavera de 2024, depois de 750 mil a 1 milhão de unidades.

RE20, a voz do rádio

Em 1968, o engenheiro Tom Lininger criou o RE20, quarto modelo com Variable-D, depois do RE15. Microfone dinâmico, cardioide, grande e pesado, ele resolveu um problema que todo locutor conhece: com Variable-D, a voz não incha de grave quando o apresentador se aproxima ou se afasta. A própria EV o chama de “a voz do rádio” e afirma fabricá-lo desde 1968 quase sem mudanças. No fim dos anos 1980 surgiu o RE27N/D, variação com ímã de neodímio. Para quem grava podcast hoje, a lição do RE20 continua valendo: a sonoridade final depende de distância, padrão polar e ambiente, não só do tipo de cápsula. Explicamos isso no nosso guia de microfone USB ou XLR.

Alto-falantes: Patrician, Thiele-Small e corneta de diretividade constante

A EV também foi grande em caixas. Nos anos 1950 lançou a linha hi-fi Patrician, que em 1959 ganhou um woofer de 30 polegadas, o 30W. Em 1952 havia patenteado a Compound Diffraction Horn. Em 1972 e 1973 foi a primeira fabricante a publicar parâmetros Thiele-Small nas folhas de dados de woofers, algo que hoje qualquer projetista de caixa exige. Em 1973 apresentou a corneta de diretividade constante, patenteada em 1978.

No fim dos anos 1970 comprou a TAPCO, empresa de Greg Mackie, que depois fundaria a Mackie. Em 1986 vieram os ímãs de neodímio N/DYM, que deixaram microfones e drivers mais leves e sensíveis, e em 1987 a linha MT-4, entrada da marca no áudio de turnê.

Palcos gigantes

O sistema X-Array estreou na turnê Bridges to Babylon, dos Rolling Stones, em 1997 e 1998, e também foi usado pelo AC/DC. Por volta de 2001 e 2002 veio o X-Line, primeiro line array de grande porte da marca. Hoje o site oficial cita instalações como o Estadio Más Monumental, do River Plate, em Buenos Aires, e palcos do Festival de Glastonbury.

Donos, fusões e a era Keenfinity

A EV trocou de mãos várias vezes. A Gulton Industries a comprou em 1967. Em 1986 a Mark IV Industries comprou a Gulton. Em 1998 a EV se fundiu com a Telex, e em 2006 a Bosch comprou a Telex por US$ 420 milhões, dívida incluída. A fábrica de Buchanan fechou nessa fase; as fontes divergem sobre o ano exato.

Sob a Bosch nasceram as caixas ativas que muita igreja, banda e casa de show conhece: ZLX (2013, com mais de 1 milhão de unidades vendidas, segundo a EV), ETX (2014), EKX (2015) e a portátil a bateria EVERSE 8 (2022).

O capítulo mais recente é de 2024. A Bosch vendeu seu negócio de produtos de segurança e comunicação, incluindo Electro-Voice, Dynacord, RTS e Telex, para o fundo Triton. A venda foi concluída em 30 de junho de 2025 e o grupo passou a se chamar Keenfinity, com sede em Munique, como relatou a ProSoundWeb. A EV, portanto, não pertence mais à Bosch.

E no Brasil?

A EV circula no Brasil sobretudo pelo áudio profissional: caixas ativas em igrejas e eventos e microfones em rádios. Não encontramos confirmação pública de um distribuidor oficial atual. Material da marca de 2019 apontava a Robert Bosch Ltda., em Campinas (SP), como sede regional para a América Latina, mas essa estrutura agora é da Keenfinity.

Por que a EV importa

Muita marca de áudio vende estilo. A Electro-Voice sempre vendeu solução de engenharia: menos efeito de proximidade, publicação de parâmetros de woofer, cornetas que espalham o som de forma previsível. Em 2027 ela completa 100 anos. Nem todo mundo sabe o nome, mas quase todo mundo já ouviu uma voz que passou por um RE20.

Fontes

Foto: microfone Electro-Voice RE20 em cabine de locução. Binksternet / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

⌬ FIM · 6 min de leitura

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seja respeitoso
00:00 / 05:50