Se você já assistiu a um show ao vivo, ouviu um podcast ou viu um presidente discursar, é quase certo que um microfone Shure estava envolvido. Fundada em 1925 em Chicago, a Shure Incorporated completou seu centenário como uma das empresas de áudio mais respeitadas e influentes do mundo — com produtos que se tornaram sinônimos de suas categorias.
Os primeiros anos: rádio e kits eletrônicos
Sidney N. Shure fundou a empresa como Shure Radio Company em 1925, inicialmente vendendo kits de rádio por catálogo. Com a Grande Depressão devastando o mercado de rádios amadores, Shure pivotou para o desenvolvimento de microfones — uma decisão que definiria o destino da empresa.
O primeiro microfone da Shure, o Model 33N (1932), era um condensador de dois botões. Mas foi o Model 55 Unidyne (1939) que colocou a Shure no mapa. Com seu design icônico em formato de cubo arredondado e o primeiro elemento unidirecional de diafragma único, o Model 55 se tornou o microfone que definiu a era do rádio e das big bands. Elvis Presley, Frank Sinatra e praticamente todo artista da época usaram o 55.
A revolução do SM: microfones indestrutíveis
As décadas de 1960 e 1970 viram o nascimento da linha SM (Studio Microphone), que se tornaria lendária.
O SM57 (1965) foi projetado como microfone de instrumentos, mas sua versatilidade o tornou onipresente. É o microfone oficial do púlpito da Casa Branca desde a era Lyndon Johnson — todo presidente americano desde então falou através de um SM57. No estúdio, é o padrão para microfonação de caixas de bateria e amplificadores de guitarra. Sua cápsula dinâmica cardioide rejeita feedback com eficiência extraordinária.
O SM58 (1966) é, simplesmente, o microfone vocal mais usado da história da música ao vivo. Sua construção é praticamente indestrutível — existem relatos documentados de SM58s sobrevivendo a quedas de andares, imersão em água e até incêndios, continuando a funcionar. A grade de aço pneumática protege a cápsula de impactos, e o filtro anti-pop integrado reduz plosivas sem necessidade de acessórios externos.
O SM58 é o AK-47 dos microfones: simples, confiável e virtualmente indestrutível. Não é o mais sofisticado, mas é o que você quer quando o show não pode parar.
Roberta Lima
SM7B e Thriller: o microfone que gravou o álbum mais vendido da história
O SM7 (1973, atualizado para SM7B em 2001) foi projetado como microfone de broadcast, mas seu momento de fama mundial veio pelas mãos de Quincy Jones e Bruce Swedien no estúdio. O SM7 foi o microfone principal na gravação de Thriller de Michael Jackson (1982) — o álbum mais vendido de todos os tempos, com mais de 70 milhões de cópias.
Décadas depois, o SM7B viveu um segundo ato de popularidade explosiva com o boom dos podcasts e streams. Sua capacidade de rejeitar ruído ambiente, combinada com a resposta em frequência quente e presente, o tornou o microfone de referência para criadores de conteúdo. Joe Rogan, diversas produções da NPR e incontáveis podcasters usam o SM7B diariamente.
Wireless e IEMs: expandindo o portfólio
A Shure não se limitou a microfones com fio. O sistema wireless UHF da série UR (1996) e seus sucessores (ULX-D, Axient Digital) se tornaram o padrão da indústria para transmissão sem fio profissional, usados em shows de artistas como Beyoncé, Taylor Swift e U2.
Na linha de IEMs profissionais, o SE846 (2013) com seus quatro drivers balanced armature e filtros de graves intercambiáveis conquistou músicos e audiófilos. A série Aonic expandiu o portfólio para o mercado consumer, com destaque para o Aonic 50 (headphone) e o Aonic Free (true wireless).
O centenário e o legado
Em 2025, a Shure celebrou 100 anos com eventos especiais, edições limitadas e uma retrospectiva que destacou sua presença em momentos históricos: da posse de presidentes à Woodstock, do moonwalk de Michael Jackson ao podcast mais ouvido do mundo.
O que torna a Shure singular é a longevidade de seus produtos. O SM57 de 1965 e o SM58 de 1966 continuam em produção — essencialmente inalterados — mais de meio século depois. Poucos produtos em qualquer indústria podem reivindicar essa relevância.
Hoje, sob liderança da CEO Christine Schyvinck, a Shure continua inovando em conferencing (linha Stem), áudio de instalação e tecnologia wireless digital, mantendo Chicago como sua base. De um pequeno distribuidor de kits de rádio a um ícone global do áudio, a Shure prova que construir para durar nunca sai de moda.