Poucas marcas de áudio já existiam antes do disco de vinil e do gramofone elétrico. A Thorens, sim. Fundada em 1883 numa vila do Jura suíço, ela atravessou caixas de música, fonógrafos, a era de ouro do hi-fi, a quase extinção trazida pelo CD e uma falência — e chegou a 2026 viva, fazendo toca-discos que ainda carregam nomes dos anos 1950 e 1970.
Sainte-Croix: relojoaria, caixas de música e isqueiros
Tudo começa com Hermann Thorens, que registrou o negócio da família em Sainte-Croix, no cantão de Vaud. Polo de mecânica fina, a região viu a Thorens nascer fabricando caixas de música, mecanismos de relógio e até isqueiros. Quem sabe fazer um cilindro de caixa de música girar em velocidade constante já resolveu metade do problema de um toca-discos.
A transição para a reprodução de som veio cedo. Em 1903, a empresa começou a fabricar fonógrafos no estilo Edison, de cilindro, e depois gramofones de corneta. Segundo a cronologia oficial da marca, em 1928 lançou um dos primeiros motores elétricos para gramofone, acompanhado de uma cápsula de princípio magnético. Nos anos 1920, a empresa chegou a empregar cerca de 1.200 pessoas.
TD 124: o toca-discos de estúdio que virou lenda
O salto de prestígio aconteceu em 1957, com o TD 124. Pensado para estúdios e para o usuário doméstico exigente, ele usava um sistema híbrido em que o motor movia, por correia, uma polia escalonada, que por sua vez acionava a roda intermediária (o famoso idler) encostada no prato. A correia isolava parte da vibração do motor; a roda garantia torque e firmeza de rotação. O aparelho oferecia quatro velocidades — 16⅔, 33⅓, 45 e 78 rpm — com ajuste fino de rotação e estroboscópio.
O TD 124 ficou em linha até 1968 e gerou variantes como TD 134 e TD 135. A fama não é só nostalgia: avaliações especializadas costumam destacar o pulso rítmico dos aparelhos de roda intermediária, algo que muitos toca-discos de correia modernos não reproduzem.
TD 150 e TD 160: o subchassi que fez escola
Se o TD 124 é o ícone, o TD 150 talvez seja o modelo mais influente da casa. Desenvolvido em meados dos anos 1960 — num período em que a Thorens se fundiu, em 1963, com a Paillard, fabricante de câmeras e máquinas de escrever —, ele abandonou a roda intermediária em favor da correia e trouxe um subchassi suspenso por molas cônicas, que desacoplava prato e braço das vibrações da base. A receita é apontada como base de projetos que viriam depois, entre eles o britânico Linn Sondek LP12.
A parceria com a Paillard durou pouco. Em 1966, as empresas se separaram e o negócio de toca-discos passou para a recém-criada Thorens-Franz AG, que montou pesquisa, desenvolvimento e produção em Lahr, na Alemanha, junto com a EMT de Wilhelm Franz — fabricante de toca-discos profissionais de rádio.
Em 1972 chegou o TD 160, evolução direta do TD 150, que foi fabricado quase sem interrupção por cerca de 20 anos e virou o toca-discos de referência de toda uma geração de audiófilos. É o modelo da foto que abre este texto. Em 1979, a marca ainda mostrou até onde podia ir com o Reference, um monstro de cerca de 90 kg feito em apenas 100 unidades.
A crise: o CD quase apaga a Thorens
Os anos 1980 e 1990 foram cruéis com quem vivia de vinil. Após trocas de controle, produção terceirizada e um corte de custos em 1997, a Thorens Audio Vertriebs GmbH pediu insolvência em 1999. A marca sobreviveu porque o empresário suíço Heinz Rohrer assumiu os direitos e manteve a operação por meio de uma nova estrutura, com modelos mais acessíveis, como os TD 170 e TD 190, já sem subchassi suspenso. Houve brilhos pontuais, como o prêmio EISA 2011/2012 para o TD 309, mas a marca parecia viver do próprio nome.
Gunter Kürten e o “Vale Analógico” alemão
A virada recente começou em maio de 2018, quando Gunter Kürten, ex-CEO da Denon e da Elac, assumiu a empresa e transferiu a sede para Bergisch Gladbach, perto de Colônia — região que a imprensa especializada passou a chamar de “Vale Analógico” da Alemanha, vizinha da Transrotor. Na época, ele resumiu a missão assim:
Estou comprometido com a tradição da Thorens e vejo meu trabalho como preservar o legado da marca, mas também desenvolver ainda mais essa joia analógica.
Gunter Kürten, em comunicado reproduzido pela StereoNET em 2018
O que veio depois mostra que não era só retórica. Em 2019, no High End de Munique, a Thorens apresentou os TD 1600 e TD 1601, sucessores declarados do TD 160, mantendo a suspensão por molas com subchassi. Em 2020, ressuscitou o TD 124 como TD 124 DD — agora com motor de tração direta desenvolvido pela própria Thorens, botão de parada rápida eletrônico e um braço novo, o TP 124. Nos 140 anos da marca, em 2023, saiu uma edição limitada a 140 unidades, vendida por € 11.999 com a cápsula MC Ortofon SPU 124, de carcaça de baquelite. No mesmo ano, o New Reference retomou o nome de 1979, com isolamento ativo de vibração feito com a alemã Seismion.
A Thorens hoje
A linha atual cobre uma faixa ampla: dos modelos de entrada e intermediários, como TD 1500 e a família DD de tração direta (que ganhou o TD 404 DD, apresentado em 2025 com o motor do TD 124 DD), até as séries 1600 e o New Reference no topo. No fim de 2025, a marca passou a ser distribuída na América do Norte pela MoFi Distribution.
Minha leitura: a Thorens de Kürten acertou ao tratar o passado como matéria-prima, não como museu. Os nomes TD 124 e TD 160 voltaram, mas com motores, braços e eletrônica de agora. A crítica justa é que essa reverência custa caro, e no Brasil a marca aparece mais no mercado de usados do que nas vitrines. A caixa de música de Sainte-Croix, afinal, nunca parou de tocar.