Para uma geração inteira de brasileiros, o primeiro “som de verdade” da casa tinha um nome: Gradiente. Amplificadores, receivers, tape decks e os famosos “System” empilhados na estante da sala fizeram da marca paulistana o equivalente nacional das gigantes japonesas nos anos 1970 e 1980. A história dela é também a história da indústria eletrônica brasileira: nasceu sob proteção, cresceu com a Zona Franca de Manaus, comprou marcas estrangeiras, fabricou videogames e celulares e, com a abertura do mercado, encolheu até virar uma empresa que hoje vive mais de licenciamento do que de fábrica. No meio do caminho, ainda protagonizou uma das disputas de marca mais curiosas do país, contra a Apple, pelo nome iPhone.
De Pinheiros para a estante da sala
A Gradiente foi fundada em outubro de 1964, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, por estudantes de engenharia da USP, entre eles Luis Alberto Salvatore e Nelson Bastos, segundo reportagens da Exame e do TecMundo. O nome que se tornaria sinônimo da empresa veio depois: no início dos anos 1970, o empresário Émile Staub comprou a companhia, e seu filho, Eugênio Staub, assumiu o comando. Eugênio segue como presidente do conselho até hoje, segundo a Exame.
A virada industrial veio com a instalação de fábrica na Zona Franca de Manaus, no começo dos anos 1970, e com a abertura de capital na bolsa. Num país de importação quase proibitiva, fabricar eletrônica de consumo localmente era vantagem enorme, e a Gradiente soube ocupar o espaço.
Os aparelhos que marcaram época
O acervo do Radiomuseum registra a evolução do catálogo: o amplificador STA-950 (1973), o receiver STR-1250 (1974), os receivers STR-1000 e STR-800 (1975), o amplificador quadrifônico SQ-1400 (1975), em plena febre do som quadrifônico, os tape decks CD-1667, CD-2500 e CD-3500 e, já em 1980, o amplificador de potência A-1, anunciado como “Direct Coupled Reference”. Nos anos 1980 vieram toca-discos como o 5020A, de tração por correia.
Mas o produto que definiu a marca para o grande público foi o conceito System, lançado por volta de 1978: módulos casados, amplificador, sintonizador, tape deck e toca-discos, vendidos juntos, com visual uniforme e preço acessível para a classe média. Em 1981 veio a linha modular Compo, e a Wikipédia em português registra ainda uma linha de alto desempenho chamada Esotech, de 1983, que hoje aparece em anúncios de colecionadores.
O ‘Meu Primeiro Gradiente’ não era só um slogan de retorno: era a memória afetiva de milhões de salas brasileiras.
Redação Guia do Áudio
Compras no exterior: Garrard, Polyvox e Telefunken
No auge, a Gradiente foi às compras. No fim dos anos 1970 (1978 ou 1979, conforme a fonte), adquiriu a britânica Garrard, uma das fabricantes de toca-discos mais tradicionais do Reino Unido, que antes pertencera à Plessey. Em 1979 comprou a brasileira Polyvox, outra marca forte de som doméstico, e em 1989 incorporou a operação brasileira da Telefunken. A empresa também manteve parcerias tecnológicas com fabricantes estrangeiros, que ajudaram a trazer projetos de tape decks, amplificadores e videocassetes para a linha nacional.
Muito além do áudio
A Gradiente usou sua estrutura industrial para entrar em quase tudo que era eletrônica de consumo. Em 1983 lançou o Atari 2600 oficial no Brasil; de 1985 a 1990 fabricou os computadores MSX Expert; em 1993 criou, com a Estrela, a Playtronic, que fabricava consoles da Nintendo no país (a Estrela saiu em 1996, e a Gradiente deixou os games em 2003). Em 1997 formou uma joint venture com a Nokia para celulares, vendendo sua participação à finlandesa em 2000 por US$ 415 milhões, segundo o InfoMoney. Em 2005 chegou a comprar a Philco, revendida dois anos depois.
A abertura do mercado e a crise
O modelo que fez a Gradiente crescer foi o mesmo que a expôs. Com a abertura comercial dos anos 1990, marcas japonesas, coreanas e depois chinesas chegaram com escala e preço impossíveis de acompanhar. A empresa, que faturou cerca de R$ 1 bilhão em 1998, entrou em crise grave em 2007 e 2008, com dívida na casa dos R$ 500 milhões, e passou por reestruturação extrajudicial.
Em 2012, a operação ressurgiu como IGB Eletrônica, mantendo a marca Gradiente e apostando na nostalgia com a campanha “Meu Primeiro Gradiente”. Não bastou: em 2018 a IGB pediu recuperação judicial em Manaus, com dívidas de cerca de R$ 976 milhões. O processo foi encerrado em 2023. Segundo a Exame e o InfoMoney, a companhia hoje tira receita principalmente do aluguel de galpões em Manaus e de royalties do licenciamento da marca, e anunciou uma aposta em energia solar residencial.
A briga com a Apple pelo nome iPhone
Em 2000, sete anos antes do celular da Apple, a Gradiente pediu ao INPI o registro da marca “G GRADIENTE IPHONE”, concedido em 2008. Em dezembro de 2012 a empresa chegou a lançar um Android chamado iphone Neo One. A Apple foi à Justiça, e instâncias federais determinaram que a exclusividade da Gradiente não alcança a palavra “iPhone” isolada. O caso subiu ao Supremo Tribunal Federal, que em 2022 reconheceu repercussão geral; no plenário virtual formou-se maioria a favor da Apple, mas em outubro de 2023 o ministro Dias Toffoli pediu destaque, o que leva o julgamento ao plenário físico e zera o placar. Em maio de 2025, a Gradiente obteve uma vitória pontual no STJ, e, segundo a CartaCapital, em abril de 2026 o caso seguia sem data para voltar à pauta do STF.
O legado
A Gradiente não tem hoje peso na indústria de áudio, e seria desonesto romantizar isso. Mas poucas marcas explicam tão bem como o brasileiro passou a ouvir música em casa: o receiver prateado, o tape deck para gravar a rádio, o System completo comprado em prestações. Os aparelhos das décadas de 1970 e 1980 seguem circulando no mercado de usados e em oficinas de restauro, e muitos colecionadores defendem que os melhores receivers da marca, bem revisados, ainda fazem bonito ligados a um bom par de caixas.
Foto: tape deck Polyvox, marca adquirida pela Gradiente em 1979. José Augusto, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.