Música & Cultura 22 JUN 2026

KEF: da fundição de Kent ao Uni-Q — como um engenheiro da BBC criou uma das marcas de caixas mais respeitadas do mundo

Fundada em 1961 por Raymond Cooke num galpão Nissen em Maidstone, a KEF transformou polímeros, coaxiais e metamateriais em caixas que redefinem o possível. Esta é a história.

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Em 1961, um engenheiro britânico que havia trabalhado na BBC e na Wharfedale decidiu que o futuro das caixas acústicas estava nos polímeros sintéticos, não nos cones de papel que dominavam o mercado. Seu nome era Raymond Cooke, e o galpão Nissen onde montou sua oficina ficava no terreno da Kent Engineering & Foundry, em Maidstone, condado de Kent. Das iniciais da fundição nasceu o nome: KEF.

O engenheiro e a BBC

Raymond Cooke (1925–1995) era um homem de método. Formado em engenharia elétrica, trabalhou no departamento de pesquisa da BBC antes de passar cinco anos na Wharfedale sob a tutela de Gilbert Briggs, um dos patriarcas das caixas britânicas. Na BBC, Cooke absorveu a cultura de medição rigorosa e padrões implacáveis de reprodução sonora. Na Wharfedale, aprendeu a fazer caixas de verdade. Em 1961, juntou as duas coisas e fundou a KEF com a convicção de que ciência e engenharia, não intuição e artesanato, deveriam guiar o projeto de alto-falantes.

Os drivers que equiparam a BBC

A primeira grande contribuição da KEF ao mundo do áudio veio na forma de dois drivers que se tornariam lendários: o B110, um woofer/midrange de 110 mm com cone de Bextrene (polímero sintético), e o T27, um tweeter dome de 19 mm em Mylar. Ambos foram desenvolvidos nos anos 1960 sob a liderança de Malcolm Jones, o primeiro funcionário da KEF, e adotados pela BBC para equipar o monitor LS3/5A — provavelmente a caixa mais influente da história do áudio britânico.

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O LS3/5A foi projetado pela BBC para uso em vans de transmissão externa onde não havia espaço para monitores convencionais. Com um volume interno de apenas 5 litros, entregava reprodução vocal de precisão forense — e se tornou fenômeno comercial, com mais de 60.000 pares produzidos por diversos fabricantes licenciados ao longo de décadas. Os drivers KEF eram o coração do projeto.

Uni-Q: a inovação que definiu a marca

Em 1988, a KEF patenteou a tecnologia que se tornaria sua assinatura: o Uni-Q. O conceito é elegante: posicionar o tweeter no centro acústico do cone do woofer/midrange, criando uma fonte sonora pontual coaxial. Isso elimina os problemas de fase e lobing que drivers separados inevitavelmente criam, resultando num sweet spot dramaticamente maior — o ouvinte não precisa sentar exatamente no centro para ouvir som coerente.

O Uni-Q não era apenas uma ideia inteligente — era engenharia de precisão brutal. Alinhar acusticamente dois drivers em um mesmo eixo, sem que um interfira no outro, exigiu anos de desenvolvimento computacional e modelagem. A cada geração, o Uni-Q foi refinado. A versão atual, de 12ª geração, incorpora a tecnologia MAT (Metamaterial Absorption Technology), desenvolvida com o Acoustic Metamaterials Group: uma estrutura labiríntica atrás do tweeter que absorve 99% do som traseiro indesejado, reduzindo coloração e distorção a níveis inéditos.

Marcos de produto

A linha Reference da KEF, lançada em 1973 com o Model 104, estabeleceu o segmento premium da marca e continua em produção até hoje. Em 2007, a KEF colaborou com o designer galês Ross Lovegrove para criar o Muon, uma escultura sonora de alumínio superformado limitada a 100 pares mundiais, revelada no Salão do Móvel de Milão.

Em 2011, surgiu o Blade, a primeira caixa do mundo projetada como “Single Apparent Source” — todas as frequências parecem emanar de um único ponto no espaço. Com quatro woofers laterais em configuração force-canceling e o Uni-Q no centro, o Blade redefiniu o que uma coluna de chão podia fazer.

Mas o produto que mais impactou o mercado veio em 2012: a LS50, uma bookshelf lançada no 50º aniversário da marca como homenagem espiritual ao LS3/5A. Compacta, acessível (para padrões KEF) e sonoramente brilhante, a LS50 se tornou um dos alto-falantes mais vendidos e premiados da história do hi-fi. A versão Meta, com MAT, chegou em 2020 e elevou ainda mais o patamar.

Mudança de mãos, mesma alma

Em 1992, a KEF foi adquirida pelo Gold Peak Group, conglomerado de Hong Kong, passando a operar sob a subsidiária GP Acoustics. A mudança de proprietário inicialmente preocupou audiófilos, mas provou ser benéfica: os recursos da Gold Peak financiaram o desenvolvimento do Blade, do Muon e das sucessivas gerações Reference. A engenharia e a produção continuam em Maidstone, Kent — onde tudo começou.

Legado

Com mais de 150 patentes, mais de 300 prêmios da indústria e presença em listas de recomendação da Stereophile, What Hi-Fi? e The Absolute Sound há décadas, a KEF é prova de que ciência aplicada e paixão por som não são mutuamente excludentes. Raymond Cooke morreu em 1995, mas sua filosofia — “medir, modelar, inovar” — continua viva em cada Uni-Q que sai da linha de produção em Kent.

A KEF é a marca que transformou engenharia acústica em forma de arte. Do galpão Nissen ao Blade Meta, a trajetória é uma masterclass em como inovação sustentada cria legado.

Roberta Nascimento, Guia do Áudio

⌬ FIM · 4 min de leitura

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