Se você tem um toca-discos, há uma chance enorme de que a agulha lendo seus discos seja dinamarquesa. A Ortofon se apresenta como a maior fabricante de cápsulas magnéticas do mundo, equipa de fábrica toca-discos de marcas como Pro-Ject, Technics e Fluance, e dominou por décadas as cabines de DJ. Mas a história da empresa começou longe do vinil — no cinema, quando os filmes ainda eram mudos.
1918: dois engenheiros e o som no filme
Em 9 de outubro de 1918, em Copenhague, os engenheiros dinamarqueses Axel Petersen e Arnold Poulsen fundaram a Electrical Phono Film Company. O objetivo era colocar som sincronizado na película, com o sistema que ficou conhecido como Petersen & Poulsen. Em 12 de outubro de 1923, a dupla exibiu no Palads Teatret, em Copenhague, um filme com som sincronizado; no ano seguinte, gravou o que a empresa descreve como o primeiro filme sonoro captado ao ar livre.
O trabalho com gravação levou naturalmente à outra ponta da cadeia: as cabeças de corte, que gravam os sulcos nas matrizes dos discos. Durante a Segunda Guerra, segundo a própria Ortofon, a empresa ampliou a resposta das cabeças de corte de cerca de 5 kHz para 14 kHz — um salto de fidelidade enorme para a época.
“Orto fon”: o som correto
Em 1946 a companhia passou a se chamar FonoFilm Industri, e em abril de 1947 foi criada a Ortofon A/S, inicialmente como braço comercial. O nome vem do grego orto fon, “som correto” — uma declaração de intenções que a marca carrega até hoje.
Em 1948 veio o produto que definiria a empresa: a primeira cápsula de bobina móvel (moving coil) da Ortofon, destinada à reprodução mono. A lógica era a mesma da cabeça de corte, só que ao contrário: em vez de transformar sinal elétrico em movimento, a agulha transformava o movimento do sulco em sinal.
1959: SPU, a cápsula que virou padrão
Quando o LP estéreo chegou, a Ortofon respondeu com a SPU (Stereo Pick-Up), em 1959. Encapsulada num headshell próprio, pesada e de baixa saída, ela se tornou referência da indústria — e nunca saiu de linha. Versões como SPU Meister (1992), SPU Mono e edições comemorativas mantêm viva, mais de 65 anos depois, uma cápsula projetada para os primeiros discos estéreo.
Dos anos 1970 aos 1980: MC20, Concorde e a cabine de DJ
Em 1969, a M-15 inaugurou o sistema magnético VMS da marca. Em 1972, a fábrica deixou Copenhague e foi para Nakskov, na ilha de Lolland, dentro de um programa do governo dinamarquês para levar indústrias ao interior. É lá que a Ortofon produz até hoje, com cerca de 100 funcionários, segundo uma visita da loja francesa Son-Vidéo em 2016.
A MC20, de 1977, virou referência entre as bobinas móveis de preço acessível. Mas o lançamento que mudou a história da empresa foi a Concorde, de 1979: uma cápsula de baixa massa integrada ao headshell, premiada com o prêmio de design industrial dinamarquês. A partir de meados dos anos 1980, ela conquistou os DJs — leve, fácil de trocar, resistente a scratch e ao trabalho pesado das pistas. Por anos, a imagem de uma Concorde espetada num Technics SL-1200 foi praticamente o símbolo do DJ de vinil. Em 1981, a série OM ampliou a presença da marca no mercado de entrada.
Do centenário ao presente
Nos anos 2000, a Ortofon passou para as mãos de investidores privados (em 2004) e lançou a linha que a tornaria onipresente: a série 2M, de 2007, com os modelos Red, Blue, Bronze e Black. Hoje é sua linha mais vendida — a 2M Red é talvez a cápsula de fábrica mais comum em toca-discos de entrada e intermediários. Em 2008 vieram as Cadenza; em 2012, a MC Anna, batizada em homenagem à soprano Anna Netrebko.
O centenário, em 2018, rendeu duas frentes. Para os DJs, a linha Concorde MkII (Mix, DJ, Club, Scratch e Digital), apresentada na NAMM. Para o topo do hi-fi, a MC Century, limitada a 100 unidades, com corpo de titânio impresso em 3D e cantiléver de diamante, projetada por Leif Johannsen.
Em 2026, a marca continua empurrando o limite: na High End de Viena apresentou a MC Vertex, novo topo de linha de US$ 16.999, com cantiléver de diamante maciço e corpo de titânio com revestimento DLC, ao lado da MC X50, de US$ 1.699, segundo o ecoustics.
Por que a Ortofon importa
Poucas marcas conseguem estar, ao mesmo tempo, no toca-discos de entrada de quem acabou de comprar o primeiro disco e no sistema de referência de quem gasta o preço de um carro numa cápsula.
Redação Guia do Áudio
A Ortofon atravessou o cinema mudo, a chegada do estéreo, a ascensão do CD, a quase morte do vinil e o seu renascimento — e em cada fase encontrou um nicho para ocupar. O segredo, se há um, está no nome: a obsessão pelo “som correto” aplicada a uma peça minúscula, feita numa cidade pequena da Dinamarca, que ainda decide como soa boa parte dos discos do planeta.
Para quem está começando no vinil, a lição prática é simples: trocar a agulha de uma 2M Red por uma 2M Blue, sem trocar o corpo da cápsula, é um dos upgrades mais baratos e perceptíveis que existem. Mais de um século depois de Petersen e Poulsen, a Ortofon ainda é, para muita gente, o primeiro degrau do hi-fi.