Todo fone de ouvido estéreo que você já usou — do headphone de estúdio ao fone sem fio da academia — descende de uma ideia que surgiu em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, em 1958. Foi ali que John C. Koss e o engenheiro Martin Lange Jr. mostraram ao público o SP/3, apresentado pela empresa como o primeiro “stereophone” de alta fidelidade do mundo. Quase sete décadas depois, a Koss continua sendo uma empresa familiar, pequena para os padrões da indústria que ajudou a criar, e dona de uma das histórias mais curiosas do áudio: de peça de museu a meme da bolsa, passando por falência, fraude e uma briga de patentes com a Apple.
De televisores de hospital ao SP/3
A Koss não nasceu fazendo fones. Em 1953, John C. Koss fundou em Milwaukee um negócio de aluguel de televisores para pacientes de hospitais. A virada veio quando ele e Lange desenvolveram um toca-discos estéreo portátil. Segundo o relato da própria empresa, a dupla levou o aparelho a uma feira de áudio em Wisconsin em 1958 com um acessório: um fone estéreo, ligado por uma chave de “privacidade” que desligava os alto-falantes. O público se interessou mais pelo fone do que pelo toca-discos.
Até então, fones eram equipamentos monofônicos, pensados para telefonistas, rádio e aviação. O SP/3 transformou o fone em produto de consumo para ouvir música, e a escuta pessoal virou mercado. O reconhecimento veio em 1972, quando, de acordo com a Koss, o SP/3 original entrou para o acervo da Smithsonian Institution, em Washington.
Pro4, Beatles e a aposta nos eletrostáticos
Nos anos 1960, a marca se consolidou. O Pro4, lançado em 1962, foi eleito o melhor da categoria pela Consumers Union em 1963, e em 1966 a empresa surfou a beatlemania com o Beatlephone, um modelo temático. Em 1970 chegou o Pro/4AA, descrito pela Koss como o padrão para headphones profissionais de tamanho completo, com boa isolação de ruído — um desenho que a marca ainda produz.
A aposta mais ousada, porém, foi técnica. Em 1968, a Koss lançou o ESP/6, que a empresa chama de primeiro headphone eletrostático “autoenergizado” do mundo: em vez de exigir um amplificador dedicado, ele tirava a energia para polarizar o diafragma do próprio sinal do amplificador comum, por meio de uma caixa de conexão. O conceito evoluiu no ESP/9 e culminou, em 1990, no ESP/950, com diafragmas de 1,5 mícron e energizador próprio. O ESP/950 segue à venda no site da Koss mais de três décadas depois.
Falência e o Porta Pro
O sucesso dos anos 1970 não blindou a empresa. Em 1984, após prejuízo de cerca de US$ 6 milhões no ano, a Koss entrou em recuperação judicial (o Chapter 11 americano). Saiu dela no ano seguinte, e em parte graças a um produto lançado justamente em 1984: o Porta Pro.
Criado na esteira do Walkman, o Porta Pro era um fone leve, dobrável, com um arco metálico de aparência estranha e um ajuste de pressão nas têmporas. O som, com graves generosos e uma abertura rara em fones portáteis, conquistou gerações. Em 2024 ele completou 40 anos com praticamente o mesmo desenho, e é vendido ainda hoje. Em 2004 veio o KSC75, um fone de clipe de orelha que usa um driver de 60 ohms com revestimento de titânio parecido com o do Porta Pro e virou lenda entre audiófilos pelo custo irrisório — em torno de US$ 20 nos Estados Unidos. Ambos são cobertos pela garantia vitalícia limitada da Koss, válida nos EUA e no Canadá.
Sucessão, fraude e meme
Em 1991, Michael J. Koss, filho do fundador, assumiu a presidência executiva. Duas décadas depois, a empresa viveu seu pior escândalo: em 2009, a então vice-presidente de finanças, Sujata “Sue” Sachdeva, foi acusada de desviar cerca de US$ 34 milhões da companhia ao longo de anos. Ela foi condenada a 11 anos de prisão.
Em janeiro de 2021, a Koss apareceu num lugar inesperado: a lista de “ações meme” que dispararam junto com a GameStop, impulsionadas por investidores do fórum WallStreetBets. As ações da pequena fabricante de fones subiram de forma explosiva em poucos dias antes de despencar. Meses depois, em 21 de dezembro de 2021, John C. Koss morreu aos 91 anos.
A guerra das patentes sem fio
O capítulo mais recente é jurídico. Em julho de 2020, a Koss processou Apple, Bose, Skullcandy, JLab e Plantronics (Poly) no Distrito Oeste do Texas, alegando ter inventado conceitos de fones sem fio que hoje estão em qualquer TWS. As patentes, segundo a empresa, nasceram do desenvolvimento da linha Striva, fones com Wi-Fi que a Koss levou ao mercado em 2012. A Apple contra-atacou na Justiça, mas as duas empresas fecharam acordo em julho de 2022, com valores não divulgados.
Com os demais, a história foi pior para a Koss. O processo contra a Plantronics foi transferido para a Califórnia, onde um tribunal federal considerou inválidas as reivindicações das patentes por tratarem de ideias abstratas. Como a Koss não recorreu dessa decisão, em julho de 2024 o Tribunal de Apelações do Circuito Federal declarou prejudicados, por perda de objeto, os recursos ligados às revisões de patente pedidas pela Bose.
A Koss provou que um fone pode ser, ao mesmo tempo, invenção histórica e produto barato que sobrevive décadas no catálogo.
Guia do Áudio
Por que a Koss ainda importa
Num mercado dominado por gigantes de tecnologia, a Koss continua fazendo o que sempre fez: fones simples, baratos e com personalidade — e ainda mantém um eletrostático em linha. Nem tudo foi acerto — a empresa perdeu o bonde do fone sem fio que diz ter inventado —, mas pouca marca pode dizer que criou a própria categoria em que compete. Se hoje ouvir música em estéreo no fone parece óbvio, é porque uma feira de áudio em Wisconsin, em 1958, gostou mais do acessório do que do produto principal.