Música & Cultura 26 SET 2026

Da “garrafa” ao U 87: a história da Neumann, a marca que definiu o som do estúdio

Fundada em Berlim em 1928, a Neumann criou o condensador de estúdio moderno, cortou vinil para o mundo e hoje faz monitores, fones e interfaces sob o guarda-chuva da Sennheiser.

Microfones condensadores Neumann U 87 e U 47 montados lado a lado em pedestais em um estúdio de gravação
MÚSICA & CULTURA

Entre em qualquer estúdio sério do planeta e há boas chances de encontrar um microfone com o losango da Neumann apontado para um cantor. Poucas marcas conseguiram o que a empresa berlinense fez: virar sinônimo de uma categoria inteira. Por quase um século, a história do microfone condensador de estúdio se confunde com a história da Neumann, e ela continua sendo escrita, agora também com monitores, fones e interfaces.

Berlim, 1928: a “garrafa”

A Georg Neumann GmbH foi fundada em 1928, em Berlim, por Georg Neumann (1898-1976) e Erich Rickmann. O primeiro produto foi o CMV 3, um condensador enorme, com cerca de 40 cm de altura e 9 cm de diâmetro e cápsulas intercambiáveis. Por causa do formato, ganhou o apelido de “garrafa Neumann”. Segundo a própria fabricante, foi o primeiro microfone condensador produzido em série no mundo, e ele aparece em inúmeras fotos de eventos públicos alemães até a Segunda Guerra.

Já em 1931 a empresa lançou o AM 31, seu primeiro torno de corte de discos, com tração direta. Era o começo de uma segunda especialidade que faria a Neumann tão importante para o vinil quanto para a gravação.

Guerra, divisão e recomeço

Em novembro de 1943, bombardeios aliados destruíram a fábrica de Berlim, e Georg Neumann transferiu a produção para Gefell, na Turíngia. Com o fim da guerra, a cidade ficou na zona soviética, e a unidade virou uma estatal da Alemanha Oriental, mais tarde conhecida como Microtech Gefell. Neumann recomeçou do zero no setor ocidental de Berlim, em 1949.

A era de ouro: U 47, M 49 e U 67

O recomeço veio com um clássico instantâneo. O U 47, de 1949, era um condensador valvulado com padrão polar comutável (cardioide e omnidirecional), descrito pela Neumann como o primeiro do tipo. Produzido até 1965, tornou-se peça central de estúdios de jazz, pop e rock e até hoje é uma das referências mais disputadas no mercado de usados.

Em 1951 chegou o M 49, primeiro microfone de estúdio com padrão polar continuamente variável, ajustado à distância pela fonte de alimentação. O técnico podia mudar a captação da sala de controle, ouvindo o resultado em tempo real. Segundo a Neumann, nenhum outro modelo valvulado da marca ficou tanto tempo em linha: de 1951 a 1971.

O U 67, de 1960, nasceu em parte porque a Telefunken encerrou a produção da válvula VF14 usada no U 47. A nova cápsula K 67 e o terceiro padrão polar (figura de oito) fizeram dele o “burro de carga” dos anos formativos da música moderna, nas palavras da própria fabricante. A Neumann voltou a produzi-lo em 2018.

U 87: o transistor chega ao estúdio

Em 1967, apoiada nos avanços da eletrônica de estado sólido, a Neumann apresentou o U 87, da série transformerless “fet 80”, com circuito FET no lugar da válvula. Sem aquecimento, mais leve e simples de alimentar, ele entregava ruído baixíssimo e virou, segundo a empresa, “provavelmente o microfone de estúdio mais conhecido e mais usado do mundo”. Em 1986 veio a revisão U 87 A (hoje U 87 Ai), que abandonou as baterias internas, passou a operar só com phantom power de 48 V e ganhou sensibilidade maior. Na mesma família nasceu o KM 84 (1966), outro clássico, e décadas depois o TLM 103 (1997) levou o som Neumann a orçamentos menores.

O vinil também tem sotaque berlinense

Enquanto os microfones ficavam famosos, os tornos de corte seguiam evoluindo. A linha VMS, iniciada com o VMS 70 em 1970, manteve a base mecânica herdada do AM 31, mas com controles e eletrônica modernos, e ficou conhecida como uma das melhores máquinas de masterização de vinil já feitas. Nos anos 1980, a Neumann ainda esteve por trás do processo DMM (Direct Metal Mastering), que grava direto em cobre. Muito disco que você tem na estante passou por um torno Neumann antes de chegar à prensa.

A era Sennheiser

Georg Neumann morreu em 1976, e a empresa continuou com seus herdeiros até 1991, quando foi comprada pela Sennheiser. A produção de microfones foi para uma fábrica nova com sala limpa em Wedemark, perto de Hannover, enquanto a sede continuou em Berlim.

Sob o novo dono, a Neumann ampliou o portfólio. Em 2010 lançou sua linha de monitores de estúdio KH, com o KH 120, herdando a tecnologia da Klein + Hummel, adquirida pela Sennheiser em 2005. Em 2019 veio o NDH 20, primeiro fone de ouvido da marca, seguido pelo aberto NDH 30 em 2022. No mesmo ano a Sennheiser comprou a suíça Merging Technologies, especialista em conversão AD/DA e no padrão AES67, e integrou a empresa à Neumann. O primeiro fruto foi a MT 48, anunciada em 3 de abril de 2023: a primeira interface de áudio da história da marca, com 4 entradas e 8 saídas analógicas, conversores da Merging e faixa dinâmica de 136 dB, segundo a ficha técnica.

“A MT 48 completa a cadeia de sinal ideal: finalmente, você pode ter a qualidade Neumann em todo o caminho, da fonte sonora ao seu ouvido.”

Ralf Oehl, então CEO da Neumann, no anúncio da MT 48 (Neumann Newsroom, abril de 2023)

A frase resume a estratégia: deixar de ser “só” a marca do microfone do vocal para ocupar a cadeia inteira do estúdio. Desde março de 2024 a empresa é comandada por Yasmine Riechers.

Por que a Neumann importa

O mérito da Neumann não está apenas em ter criado produtos longevos, mas em ter definido o padrão sonoro contra o qual todo condensador de estúdio ainda é comparado. Boa parte dos microfones “vintage” baratos que invadiram o mercado nas últimas décadas se vende prometendo soar como um U 47 ou um U 87. E o fato de a própria Neumann seguir relançando U 67 e M 49 mostra que, para ela, o passado não é peça de museu: é catálogo.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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