Aos 15 anos, Paul Wilbur Klipsch construiu seu primeiro alto-falante com um tubo de correspondência e dois fones de ouvido — um ano antes da primeira transmissão pública de rádio nos Estados Unidos. O garoto de Elkhart, Indiana, que perdeu o pai engenheiro aos 12 e cresceu entre Novo México e Texas, não sabia que aquele experimento adolescente definiria o resto de sua vida. E que vida: engenheiro da General Electric, mantenedor de locomotivas elétricas no Chile, geofísico de petróleo no Texas, oficial do Exército americano na Segunda Guerra e, finalmente, o homem que colocou cornetas gigantes dentro das salas de estar do mundo inteiro.
O galpão atrás da lavanderia
Em 1945, o tenente-coronel Paul Klipsch estava lotado no campo de provas de artilharia de Hope, Arkansas, quando a guerra terminou. Em vez de voltar para a vida urbana, ficou. Alugou um galpão de lata atrás de uma lavanderia a seco e começou a construir o que chamava de “X-3” — um gabinete de corneta dobrada que usava o canto da sala como extensão acústica do próprio alto-falante.
A ideia era genial na sua simplicidade: em vez de forçar um driver pequeno a mover volumes enormes de ar sozinho, a corneta funcionava como um megafone ao contrário, amplificando mecanicamente a saída sonora. O canto de 90 graus da parede completava a geometria. O resultado era uma eficiência absurda para a época — crucial quando os amplificadores valvulados entregavam meros 5 ou 10 watts.
A patente saiu em 1945. Em 1946, Paul registrou a empresa como Klipsch and Associates e produziu as primeiras 12 unidades do que passaria a se chamar Klipschorn — montadas sob contrato pela Baldwin Piano, usando tweeters Western Electric. Contratou seu primeiro funcionário em 1948. O Klipschorn está em produção contínua desde então: 80 anos ininterruptos, o recorde absoluto entre alto-falantes.
O excêntrico de Hope
Paul Klipsch era descrito pelos vizinhos como “parte Nikola Tesla, uma pitada de Howard Hughes”. Profundamente religioso, tomava notas durante os sermões na igreja e depois desafiava o padre sobre inconsistências lógicas. Detinha 23 patentes — 12 em acústica, 8 em geofísica e 3 em balística — e tratava qualquer afirmação sem base empírica como ofensa pessoal.
Suas frases ficaram famosas no meio audiófilo:
“Não existe ‘alta fidelidade’. Ou você tem fidelidade, ou tem infidelidade.”
Paul W. Klipsch
“Áudio era um hobby e depois virou profissão, mas ainda me considero um amador — porque amador é quem pratica sua arte por amor.”
Paul W. Klipsch
Quando colegas disseram que ele não poderia lançar uma caixa sem corneta porque isso contradiria sua própria filosofia, respondeu: “The hell I can’t” — e construiu assim mesmo. Um amigo brincou que seria “herético” vender aquilo. Paul, sem hesitar, batizou o produto de Heresy.
A linhagem Heritage
A partir do Klipschorn vieram os modelos que hoje formam a série Heritage, ainda fabricada à mão em Hope, Arkansas, com gabinetes de madeira maciça folheada:
- Heresy (1957) — originalmente um canal central compacto para sistemas estéreo de três caixas, virou modelo independente e está na quarta geração.
- Cornwall (1959) — o nome vem de “corner/wall”, a primeira Klipsch projetada para funcionar tanto no canto quanto contra a parede. Foi brevemente descontinuada em 1990 e voltou após uma petição de fãs. Hoje está na Cornwall IV.
- La Scala (1963) — nasceu como PA portátil para demonstrações de vendas e virou caixa de referência doméstica. A versão mais recente, La Scala AL6 (2025), trouxe gabinete ventilado pela primeira vez.
- Forte (1985) — três vias, posicionada entre Heresy e Cornwall em tamanho e potência.
Todas compartilham a tecnologia de corneta Tractrix com tweeter de compressão de titânio — descendente direta do projeto original de Paul.
Da garagem à corporação
Paul Klipsch não teve herdeiros interessados no negócio. Em 1989, vendeu a empresa ao primo de segundo grau Fred S. Klipsch e sua esposa Judy. A sede mudou para Indianapolis, mas a fábrica Heritage permaneceu em Hope. Sob Fred, a Klipsch diversificou para home theater, cinema profissional, instalação residencial e áudio portátil, levando as vendas internacionais de 5% para 40% do faturamento.
Paul morreu em 5 de maio de 2002, aos 98 anos, em Hope. Em 2004, foi postumamente incluído no Hall da Fama da Consumer Electronics Association.
Em 2011, a Audiovox Corporation (depois rebatizada VOXX International) comprou o grupo Klipsch por cerca de US$ 170 milhões. E em abril de 2025, a Gentex Corporation, de Michigan, adquiriu a VOXX — incluindo Klipsch e Onkyo — por US$ 196 milhões, levando a marca para seu terceiro proprietário corporativo.
O museu e o legado
Em Hope, um museu sem fins lucrativos preserva a coleção pessoal de Paul: protótipos, patentes, amplificadores e objetos pessoais. O Klipsch Museum of Audio History fica numa área industrial ao lado da fábrica Heritage — literalmente do outro lado da rua de onde as caixas continuam sendo montadas à mão, como em 1946.
Hoje a Klipsch vende de tudo: soundbars, fones Bluetooth, alto-falantes portáteis fabricados na China e sistemas de cinema THX certificados. Mas o coração da marca ainda pulsa naqueles gabinetes de nogueira e cerejeira montados em Arkansas, com cornetas Tractrix que descendem diretamente do galpão atrás da lavanderia. Paul Klipsch provou que eficiência não é atalho — é engenharia. E que um amador apaixonado pode construir algo que sobrevive a 80 anos, três donos corporativos e todas as modas que a indústria inventou desde então.