Música & Cultura 12 SET 2026

Sonus Faber: o luthier de Vicenza que transformou caixas de som em instrumentos musicais — e hoje pertence à Bose

Franco Serblin aplicou técnicas de fabricação de violinos a caixas acústicas numa oficina artesanal na Itália. O resultado foi uma das marcas mais bonitas e musicais do hi-fi — que a Bose acaba de comprar.

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Existe um punhado de marcas de áudio que você reconhece antes de ouvir — pelo acabamento, pela forma, pela madeira. A Sonus Faber é a mais emblemática delas. Nascida em 1983 numa pequena oficina artesanal nos arredores de Vicenza, na região do Vêneto italiano, ela fez das caixas acústicas objetos tão bonitos quanto os violinos de Cremona que a inspiraram. E tão musicais quanto.

Franco Serblin: o carpinteiro que ouvia música clássica

Franco Serblin (1939–2013) era o caçula de sete irmãos, filho de um mestre carpinteiro de ascendência croata, criado numa casa onde a música clássica era trilha sonora permanente. A combinação de madeira e som moldou sua obsessão. Em 1980, três anos antes de fundar a empresa, ele construiu um protótipo chamado Snail Project — uma caixa acústica de madeira inspirada em esboços de Leonardo da Vinci. Apenas dez unidades foram feitas.

Em 25 de março de 1983, Serblin registrou oficialmente a Sonus Faber — latim para “artesão do som” — numa oficina em Monteviale, nas colinas de Vicenza. O primeiro produto comercial foi a Parva, um monitor de estante com cone de Kevlar em gabinete de nogueira maciça. Era diferente de tudo que existia no mercado: bonito, quente, musical.

A conexão com os violinos de Cremona

O grande salto conceitual veio na década de 1990, quando Serblin mergulhou nas técnicas dos luthiers — os construtores de violinos que fizeram a fama de Cremona, cidade vizinha de Vicenza e berço de Stradivari e Guarneri. Ele percebeu que os princípios usados para controlar a vibração da madeira num violino podiam ser aplicados a gabinetes de caixas acústicas.

O resultado foi a Guarneri Homage (1993), lançada para celebrar os 250 anos da morte de Giuseppe Guarneri del Gesù. Foi a primeira caixa hi-fi da história com gabinete em formato de alaúde — curvas orgânicas em vez de caixas retangulares. O mundo do áudio nunca mais foi o mesmo.

A série Homage se expandiu com a Amati Homage e a monumental Stradivari Homage, cada uma mais ambiciosa que a anterior. Madeira maciça, couro italiano, acabamento à mão — cada caixa levava dias para ser montada.

A fábrica em forma de violino

Por volta de 2003, a Sonus Faber mudou sua sede para um edifício projetado pelo Studio Albanese em Arcugnano, nos arredores de Vicenza. O detalhe que ninguém esquece: o prédio tem o formato de um violino visto de cima. Sem paredes internas de concreto — apenas divisórias transparentes para maximizar a luz natural. É fábrica, showroom e declaração de princípios, tudo ao mesmo tempo.

A saída de Serblin e o legado

Em 2006, após 23 anos, Franco Serblin deixou a empresa que fundou para criar uma marca boutique menor. Sua saída foi amigável, mas marcou o fim de uma era. Serblin faleceu em 31 de março de 2013, deixando um legado que transcende o áudio: ele provou que uma caixa de som pode ser uma obra de arte sem sacrificar a fidelidade sonora.

A Sonus Faber seguiu em frente com uma equipe de P&D expandida. O modelo Aida (aproximadamente US$ 120 mil o par) e a Suprema — a flagship atual, revestida em couro Poltrona Frau — representam o estado da arte em engenharia acústica italiana.

De Maserati à Bose: a era corporativa

A marca expandiu para o automotivo, fornecendo sistemas de som para o superesportivo Maserati MC20 e para iates da Wally. Em 2023, no 40º aniversário, lançou uma nova edição da Stradivari, 20 anos após o original.

Mas a notícia mais surpreendente veio em novembro de 2024: a Bose Corporation adquiriu o McIntosh Group — que já controlava a Sonus Faber desde 2012. Assim, a marca artesanal de Vicenza passou a pertencer à gigante americana de Framingham. É um casamento improvável: a Bose da praticidade e do consumo de massa; a Sonus Faber do couro costurado à mão e da madeira selecionada por luthiers.

Por enquanto, a produção segue em Arcugnano. As caixas continuam sendo montadas à mão por artesãos italianos. E a filosofia de Franco Serblin — de que som e beleza são inseparáveis — permanece intacta no DNA de cada produto.

Uma caixa Sonus Faber não reproduz música. Ela a interpreta — como um instrumento acústico faria.

Redação Guia do Áudio

⌬ FIM · 4 min de leitura

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