Existe uma tradição em áudio doméstico que poucos fabricantes dominam: criar um produto que soa tão bem quanto parece. A Marshall, com seus amplificadores icônicos de palco, sempre entendeu que estética e som não são compromissos opostos. O Stanmore IV, lançado em julho de 2026 por US$ 399,99 (estimado em R$ 2.999 no Brasil), é a destilação mais refinada dessa filosofia — e, ouso dizer, o melhor speaker de mesa Bluetooth que a Marshall já produziu.
Design: o clássico que não cansa
Se você já viu um Marshall Stanmore, sabe o que esperar visualmente — e isso é um elogio. O gabinete forrado em vinil texturizado, a grade frontal em tecido com o logo dourado, os três botões de latão no topo (volume, graves, agudos) e o LED indicador de status compõem um design que é instantaneamente reconhecível e atemporal.
O Stanmore IV não tenta reinventar a roda estética. Ele a puxa com orgulho. Numa era de caixas genéricas em tecido cinza, ter um objeto com essa personalidade sobre a estante é um prazer visual que poucos concorrentes oferecem. É o tipo de produto que visitantes comentam: “que bonito, o que é isso?”
A mudança funcional mais significativa no design é a porta bass reflex reposicionada para a parte inferior do gabinete. Nas gerações anteriores, a porta ficava na traseira, exigindo que o Stanmore fosse posicionado afastado da parede para não comprometer os graves. Agora, ele pode encostar tranquilamente na parede ou ficar numa prateleira apertada sem perda de desempenho nos graves. É uma daquelas mudanças de engenharia simples e brilhantes que fazem diferença real no dia a dia.
Som: potência com personalidade
Os números já impressionam no papel: 110W totais, distribuídos em 60W para o woofer de 5 polegadas e 25W para cada um dos dois tweeters de 0,75 polegadas. Na prática, a impressão é ainda melhor.
Os graves são fenomenais para um speaker de mesa. O woofer de 5 polegadas, combinado com a porta bass reflex inferior, entrega sub-graves com impacto real a partir de 36 Hz. Não estamos falando de graves artificialmente inflados por DSP — é extensão genuína, com textura e controle. Linhas de baixo em jazz têm peso e definição; kicks de música eletrônica têm punch sem distorção. É o tipo de grave que você sente no peito mesmo em volumes moderados.
Os médios são driven e encorpados — com aquele caráter levemente quente que é a assinatura sonora da Marshall. Guitarras elétricas soam particularmente envolventes, o que não surpreende vindo de uma marca cuja história é feita de amplificadores de guitarra. Vocais têm presença e intimidade, ocupando o centro do palco sonoro com autoridade. Se você ouve muito rock, blues ou qualquer gênero onde guitarras e vozes são protagonistas, o Stanmore IV vai soar como se tivesse sido feito para você — porque foi.
Os agudos são vibrantes sem serem agressivos. Os dois tweeters dedicados garantem dispersão ampla e detalhamento respeitável, com pratos e hi-hats mantendo presença e ar sem aquele brilho excessivo que cansa em sessões longas. O SPL máximo de 97 dB a 1 metro é mais do que suficiente para encher uma sala de estar grande sem distorção.
Conectividade: quase perfeita
O Bluetooth 5.3 com LDAC é o grande upgrade de conectividade. Finalmente, um Marshall de mesa que recebe áudio hi-res via Bluetooth sem fio. A diferença entre SBC e LDAC é audível neste speaker — com LDAC, os agudos ganham ar e os graves, definição. Se você tem um celular Android com LDAC, vai aproveitar cada bit.
O Auracast permite conectar múltiplos speakers Marshall para reprodução em grupo, e as entradas RCA e AUX de 3,5 mm garantem compatibilidade com fontes analógicas — toca-discos com pré-amp, TVs antigas, o que for. O app da Marshall oferece EQ ajustável, embora os knobs físicos no topo da caixa sejam tão intuitivos que raramente senti necessidade de abrir o celular.
A ausência que dói: sem Wi-Fi. Nenhum suporte a AirPlay 2, Chromecast, Spotify Connect ou qualquer protocolo de rede. Para um speaker de R$ 2.999 em 2026, é uma omissão difícil de justificar. Concorrentes como o Sonos Era 100 e o KEF LSX II oferecem ecossistemas multiroom completos por preços similares. Se integração com casa inteligente e streaming direto são prioridades, o Stanmore IV simplesmente não compete nessa arena.
Outra limitação óbvia: não tem bateria. É um speaker de mesa que precisa de tomada, ponto final. Não é portátil, não é para levar para o quintal. É para ficar bonito na estante e soar espetacular ali, plugado na parede.
Veredicto
O Marshall Stanmore IV é um speaker que faz duas coisas excepcionalmente bem: soar fantástico e ficar lindo fazendo isso. Os 110W de potência com graves que descem até 36 Hz, o LDAC para Bluetooth hi-res e a porta bass reflex inferior que libera o posicionamento fazem dele o melhor Stanmore já feito — com folga.
Mas o preço de R$ 2.999 e a ausência de Wi-Fi/AirPlay exigem que o comprador saiba exatamente o que está comprando: um speaker Bluetooth premium com caráter sonoro e visual incomparáveis, não um hub de áudio multiroom. Se sua prioridade é o melhor som Bluetooth para uma sala, com um design que é praticamente uma obra de arte, o Stanmore IV entrega como poucos. Se você precisa de Wi-Fi e integração com assistentes virtuais, olhe para outro lado.
O Stanmore IV soa como um Marshall deveria soar: potente, encorpado e com personalidade de sobra. É caro, é limitado em conectividade de rede, e é absolutamente magnífico no que se propõe a fazer.
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