Poucas marcas de áudio podem dizer que têm peças no acervo permanente do MoMA de Nova York e do Victoria and Albert Museum de Londres. A Meridian Audio pode — e isso aconteceu antes mesmo de a marca existir oficialmente. Em 1974, o engenheiro eletrônico Bob Stuart e o designer industrial Allen Boothroyd criaram o Lecson AC1 preamp e AP1 power amp, peças tão elegantes que foram adquiridas por museus de arte. Três anos depois, em 1977, os dois fundaram a Meridian em Huntingdon, na Inglaterra, com uma missão: levar processamento digital para a reprodução musical doméstica.
Os pioneirismos que definiram a marca
A lista de “primeiros” da Meridian é absurda para o tamanho da empresa:
- 1977: M1 — considerada a primeira caixa ativa para uso doméstico do mundo
- 1978-1983: Primeiro CD player audiófilo britânico
- 1986: Série 200 — primeiro sistema hi-fi de qualidade audiófila com rede multiroom
- 1988: D600 — primeira caixa ativa digital para casa
- 1991: Série 500+ — primeiro processador de surround totalmente digital para hi-fi
- 1997-98: Meridian Lossless Packing (MLP) — codec que se tornaria a base do Dolby TrueHD
- 2000: DSP8000 — caixa flagship que entrou para o CEDIA Hall of Fame em 2023
A contribuição mais impactante para a indústria como um todo foi o MLP. Quando a Dolby precisou de um formato lossless para o Blu-ray e o HD DVD, licenciou a tecnologia da Meridian e a rebatizou como Dolby TrueHD. Cada Blu-ray que você já assistiu com áudio lossless usa tecnologia inventada em Huntingdon.
A filosofia DSP: tudo digital, tudo ativo
Enquanto a maioria do hi-fi funciona com caixas passivas alimentadas por amplificadores externos, a Meridian apostou pesado em caixas ativas com processamento DSP embutido. A vantagem: cada driver tem seu próprio amplificador otimizado, e o crossover é feito no domínio digital com precisão cirúrgica — sem os componentes passivos (capacitores, indutores) que degradam o sinal.
As caixas DSP da Meridian — especialmente a série DSP8000 — são consideradas referência em resolução, linearidade e controle. O preço também é de referência: um par de DSP8000 custa mais de £ 50.000. Mas o conceito filtrou para produtos mais acessíveis, incluindo caixas compactas e até soundbars.
O mundo automotivo
Em 2007, a Meridian começou a fornecer sistemas de áudio para a McLaren Automotive. Em 2011, firmou parceria com a Jaguar Land Rover — uma colaboração que se tornou o pilar comercial da empresa. O Range Rover topo de linha usa um sistema Meridian de 39 alto-falantes que é considerado um dos melhores do setor automotivo.
A partir de 2018, a Meridian expandiu para outros fabricantes: LG (tecnologia “Audio Tuned With Meridian” em caixas XBOOM Go e TVs), Kia (EV6), Rivian e mais recentemente Togg e AVATR. Em 2025, adicionou áudio marítimo com a MasterCraft e parceria com a United Airlines para fones de bordo.
MQA: a aposta que deu errado
Em 2014, Bob Stuart lançou o MQA (Master Quality Authenticated), um codec de áudio que prometia entregar qualidade “master” em arquivos compactos. A ideia era sedutora: streaming de alta resolução com metade da banda. O Tidal adotou MQA, e centenas de DACs e players adicionaram suporte.
Mas o MQA sempre foi controverso. Audiófilos e engenheiros criticaram o formato por ser lossy (com perda de informação), por exigir licenciamento caro e por usar marketing que confundia “autenticado” com “lossless”. Quando serviços como Apple Music e Amazon Music começaram a oferecer lossless real via FLAC/ALAC sem custo extra, o MQA perdeu sua proposta de valor.
Em abril de 2023, a MQA Limited — empresa separada que detinha os direitos do codec — entrou em administração judicial (insolvência). Em setembro de 2023, a canadense Lenbrook Industries (dona da NAD e PSB) adquiriu os ativos, incluindo patentes e a plataforma BluOS.
É importante notar: a falência foi da MQA Ltd, não da Meridian Audio. A Meridian continua operando normalmente como fabricante de caixas, DSPs e sistemas automotivos.
O presente
A Meridian Audio segue como empresa privada, dirigida pelo CEO John Buchanan, com fábrica em Huntingdon e mais de 350 prêmios da indústria. Em 2024, lançou o Meridian Ellipse, uma caixa wireless que traz a filosofia DSP para um formato mais compacto e acessível.
O legado é inegável: a Meridian inventou mais padrões de áudio digital do que qualquer outra marca de seu tamanho. Que o MQA tenha falhado não diminui isso — apenas lembra que mesmo os pioneiros erram quando tentam ser visionários demais.
A Meridian é a marca que o resto da indústria deveria agradecer em silêncio. O Dolby TrueHD no seu Blu-ray, a caixa ativa no seu home office e o conceito de DSP em caixas domésticas — tudo começou em Huntingdon.
Redação Guia do Áudio