A história da Devialet começa com uma ideia que ninguém acreditava ser possível — e quase termina com uma crise que ninguém esperava. Em 2004, o engenheiro francês Pierre-Emmanuel Calmel inventou o ADH (Analog Digital Hybrid), uma tecnologia de amplificação que combina a precisão de um amplificador classe A com a potência de um classe D. Em 2007, ele se juntou a Quentin Sannié (CEO), Emmanuel Nardin e Mathias Moronvalle para fundar a Devialet em Paris. O objetivo era ambicioso: fazer o melhor amplificador do mundo.
O D-Premier e a estreia triunfal
O primeiro produto da Devialet chegou em 2010: o D-Premier, um amplificador integrado que custava mais de € 10.000 e pesava 10 kg. A imprensa especializada enlouqueceu. O som era excepcionalmente limpo — distorção inferior a 0,0005% — e a potência de 240 W/ch vinha de um gabinete que parecia uma obra de arte minimalista. A Devialet não tinha entrado no mercado — tinha chutado a porta.
Entre 2010 e 2012, a startup levantou mais de € 17 milhões em investimento. Em 2013, o D-Premier virou Devialet 240, e modelos mais acessíveis (110 e 170) expandiram a linha Expert.
Phantom: a caixa que mudou tudo
Em 2014-2015, a Devialet deu o salto que definiu seu destino: lançou a Phantom, uma caixa wireless ativa com design esférico, woofers laterais pulsantes e potência que desafiava a física do gabinete. A Phantom compacta de 1.200 watts impressionava tanto pelo visual quanto pelo som — graves profundos saindo de um objeto do tamanho de um melão. A Gold Phantom de 2016 elevou a potência a 4.500 watts de pico.
O Phantom se tornou o produto-ícone da Devialet. Apareceu em hotéis de luxo, lojas da Apple e salas VIP do mundo todo. A parceria com a Ópera de Paris em 2017 consolidou a marca como símbolo de áudio premium francês.
O império se expande
A Devialet seguiu captando investimento com voracidade. Em 2016, levantou € 100 milhões de investidores como Foxconn, Roc Nation (de Jay-Z), Groupe Arnault (LVMH) e o fundo Naver. O dinheiro financiou expansão global, novas fábricas e uma linha crescente de produtos:
- 2018: Phantom Reactor (versão compacta e mais acessível)
- 2020: Gemini (earbuds wireless com ANC)
- 2022: Dione (soundbar Dolby Atmos) e Mania (caixa portátil smart)
Parcerias de marca incluíram a Sky Soundbox (com Sky UK) e a Sound Joy (com Huawei). O portfólio de patentes passou de 160.
A crise
Por trás do glamour, os números não fechavam. Em 2023, a Devialet reportou prejuízo de € 15 milhões sobre uma receita em queda de 20%. As perdas acumuladas desde a fundação eram enormes: –€ 24 milhões em 2021, –€ 25,2 milhões em 2023. A empresa entrou em procedimento de conciliação — o equivalente francês a uma reestruturação de dívida preventiva.
O CEO Franck Lebouchard e o cofundador Pierre-Emmanuel Calmel deixaram a empresa. Em 2024, Jacques Demont assumiu como CEO, o quadro de funcionários foi cortado para cerca de 350 pessoas, e a Devialet abandonou sua sede em Paris como medida de economia.
O presente e o futuro
A Devialet não morreu — mas mudou. A estratégia atual pivotou para parcerias com Huawei (mercado chinês) e BYD (áudio automotivo em veículos elétricos), além de expansão no varejo no Oriente Médio. O plano inclui até dez lojas na região até 2027.
A tecnologia ADH continua sendo o coração de tudo que a Devialet faz. A Phantom permanece como produto-ícone. E a Mania portátil mostrou que a marca pode fazer produtos mais acessíveis sem perder a identidade.
A Devialet é o lembrete de que genialidade técnica não garante sucesso comercial. Mas também é a prova de que, quando o produto é genuinamente revolucionário, sempre haverá quem pague para ouvi-lo.
Redação Guia do Áudio