Música & Cultura 07 SET 2026

Harman Kardon: o primeiro receiver hi-fi do mundo, os SoundSticks no MoMA e a venda bilionária para a Samsung

Dois engenheiros investiram US$ 5 mil cada, criaram o primeiro receiver compacto hi-fi da história e transformaram áudio doméstico em objeto de desejo — até a Samsung pagar US$ 8 bilhões pela empresa inteira.

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Em 1953, dois engenheiros da David Bogen Company — fabricante de sistemas de PA que ninguém lembra hoje — saíram batendo a porta. Sidney Harman tinha tentado convencer a diretoria a entrar no nascente mercado de hi-fi doméstico. A resposta foi não. Harman ligou para Bernard Kardon, engenheiro-chefe da Bogen, e propôs uma sociedade. Cada um colocou US$ 5.000 na mesa. Nasceu a Harman Kardon, em Westbury, Long Island, com uma ideia simples que ninguém tinha executado: colocar sintonizador, pré-amplificador e amplificador num único chassis elegante.

O Festival D-1000: o produto que inventou uma categoria

O primeiro produto da dupla foi o Festival D-1000 — considerado o primeiro receiver compacto AM/FM hi-fi do mundo. Até então, montar um sistema de som em casa exigia comprar componentes separados, conectá-los com cabos e torcer para que a impedância combinasse. O D-1000 resolveu tudo numa caixa só, com design pensado para a sala de estar, não para um laboratório.

Foi um sucesso comercial imediato. A ideia de que áudio de qualidade podia ser bonito e acessível — não apenas funcional — definiria o DNA da marca pelos próximos 70 anos.

A era Citation: quando hi-fi virou arte

Em 1959, a Harman Kardon lançou o Citation II, um amplificador valvulado de 60 watts por canal com resposta de frequência que chegava a 60.000 Hz — muito além da audição humana, mas capaz de capturar harmônicos e overtones que davam naturalidade ao som. A linha Citation se tornou lendária entre audiófilos, e o Citation XX de 1980 foi chamado pela revista The Audio Critic de “o amplificador com melhor som do mundo”.

Em 1958, a marca já tinha criado outro marco: o Festival TA-230, o primeiro receiver estéreo hi-fi da história. Quando o FM estéreo multiplex chegou em 1959, a Harman Kardon tinha adaptadores prontos antes da concorrência.

Bernard sai, Sidney fica — e vai à Casa Branca

Em 1956, Bernard Kardon decidiu se aposentar e vendeu sua parte para Sidney Harman, que assumiu o controle total da empresa. Harman era um personagem fascinante: empresário obsessivo, mas também intelectual e político. Em 1976, vendeu a empresa para a Beatrice Foods por US$ 100 milhões e foi nomeado Secretário Adjunto de Comércio no governo Jimmy Carter.

Em 1980, quando a Beatrice decidiu se desfazer da divisão de áudio, Harman recomprou a empresa por US$ 55 milhões — quase metade do que tinha recebido quatro anos antes. Poucos empresários na história do áudio tiveram a audácia de vender e recomprar a própria empresa.

Os SoundSticks e a parceria com Jony Ive

No ano 2000, a Harman Kardon fez algo que nenhuma marca de áudio tinha feito antes: criou um produto que foi parar no acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York. Os SoundSticks, com seu design transparente que lembrava águas-vivas, foram co-projetados com influência direta de Jony Ive, o lendário designer da Apple que definiu a estética do iMac e do iPod.

Ive comparou o design a um instrumento de sopro: “projetado para que o som fluísse livremente”. O resultado foi um sistema de caixas satelite + subwoofer que parecia uma escultura. Os SoundSticks sobreviveram a cinco gerações e continuam em produção em 2026 — agora na versão 5, com Wi-Fi e HDMI, mantendo o design icônico intocado.

Do carro à sala: áudio automotivo como segundo pilar

Em 1992, a Harman Kardon estreou seu primeiro sistema de som automotivo no Range Rover, inaugurando uma divisão que se tornaria gigante. Hoje, a marca equipa veículos da BMW, Mercedes-Benz, Audi, Volkswagen, Hyundai e Kia. Para muita gente, o primeiro contato com o nome Harman Kardon não é num receiver — é no painel do carro.

A venda para a Samsung: US$ 8 bilhões e um império de marcas

Em novembro de 2016, a Samsung Electronics anunciou a aquisição da Harman International — empresa-mãe da Harman Kardon, JBL, AKG, Mark Levinson e dezenas de outras marcas — por aproximadamente US$ 8 bilhões. Foi a maior aquisição da história da Samsung e transformou o conglomerado coreano no maior grupo de áudio do planeta.

Em setembro de 2025, a Harman (já sob a Samsung) deu outro passo decisivo: adquiriu a Sound United da Masimo por US$ 350 milhões, incorporando Bowers & Wilkins, Denon, Marantz, Polk Audio e Definitive Technology ao portfólio. Hoje, o guarda-chuva Harman reúne mais de 23 marcas de áudio sob o mesmo teto.

O legado que permanece

Sidney Harman morreu em 2011, aos 92 anos. Bernard Kardon já tinha partido antes. Mas o que os dois criaram com US$ 10.000 num subúrbio de Nova York transcendeu o áudio: a Harman Kardon provou que tecnologia de som podia ser bonita, que um receiver não precisava parecer equipamento de laboratório, e que design e fidelidade sonora não são opostos — são complementares.

Dos medidores analógicos do Citation II à transparência etérea dos SoundSticks, a marca carrega uma convicção que permanece atual: o melhor som é aquele que você quer ter na sua sala. Não escondido — exibido.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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