Existem marcas que fabricam alto-falantes. E existe a Tannoy — a única marca de áudio que virou palavra no dicionário. Na Inglaterra, “tannoy” (com t minúsculo) é sinônimo de sistema de PA e autofalante público desde a Segunda Guerra Mundial. Mas antes de equipar aeroportos, estações de trem e o próprio Palácio de Buckingham, a Tannoy começou como uma empresa de retificadores de rádio numa garagem em Dulwich, no sul de Londres. Esta é a história de como um engenheiro de Yorkshire criou uma das marcas mais reverenciadas do hi-fi — e do driver coaxial que ninguém conseguiu superar em 76 anos.
O retificador de tântalo (1926)
Guy R. Fountain, nascido em Yorkshire em 1898, era engenheiro e inventor. Em 1926, abriu uma oficina na Tulsemere Road, em Dulwich, Londres, sob o nome Tulsemere Manufacturing Company. O negócio original não tinha nada a ver com alto-falantes: Fountain fabricava retificadores eletrolíticos para rádios domésticos — dispositivos que convertiam corrente alternada em contínua para alimentar os receptores valvulados da época.
O componente-chave do retificador era uma liga de tântalo e chumbo (lead alloy). Das primeiras sílabas dos dois materiais — Tantalum Alloy — nasceu o nome Tannoy, adotado como marca em 1928 e registrado oficialmente em 10 de março de 1932.
A guerra que transformou Tannoy em palavra (1939–1945)
Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a Tannoy já havia migrado de retificadores para sistemas de amplificação e alto-falantes de PA. As Forças Armadas Britânicas adotaram sistemas Tannoy em larga escala — em bases militares, fábricas de armamentos, navios e campos de aviação. O som vindo daqueles alto-falantes de corneta tornou-se tão onipresente que soldados e trabalhadores passaram a chamar qualquer sistema de PA de “the tannoy”.
O ápice simbólico veio em 1945, quando um sistema Tannoy instalado no Palácio de Buckingham transmitiu o anúncio do fim da guerra para funcionários e guardas reais. A palavra entrou no Oxford English Dictionary em 1946 como substantivo genérico para sistema de som público — um raro caso de marca que transcende o produto.
O Dual Concentric: a invenção que definiu tudo (1948)
Se a guerra deu à Tannoy um nome universal, o pós-guerra deu a ela uma identidade sonora eterna. Em 1948, na London Radio Show, a Tannoy apresentou o Dual Concentric — um alto-falante coaxial em que o tweeter de compressão é montado concentricamente atrás do cone do woofer, com sua trompa saindo pelo centro do cone principal.
O resultado é uma fonte pontual verdadeira: graves e agudos emanam do mesmo ponto no espaço, eliminando problemas de fase e integração temporal que afetam caixas convencionais com drivers separados. A imagem estéreo é coerente em qualquer ângulo de escuta, os transientes são perfeitamente alinhados e a sensação de realismo é extraordinária.
O conceito foi desenvolvido sob a direção do próprio Guy Fountain, e o primeiro driver a usá-lo foi o Monitor Silver de 15 polegadas. A filosofia Dual Concentric permanece no coração de todo produto Tannoy de alta fidelidade até hoje — 76 anos depois.
Autograph e o nascimento do hi-fi de referência (1953)
Em 1953, o engenheiro-chefe Ronnie H. Rackham projetou o Tannoy Autograph — um gabinete corner-horn (corneta de canto) que abrigava o driver Monitor Silver de 15 polegadas. O Autograph explorava as paredes do canto da sala como extensão da corneta, produzindo graves profundos com eficiência extraordinária a partir de um amplificador valvulado de poucos watts.
O Autograph se tornou lendário no Japão, onde audiófilos construíram salas de escuta dedicadas ao redor do par de caixas. A combinação do Dual Concentric com o carregamento horn criou uma assinatura sonora quente, dinâmica e espacialmente convincente que define o som Tannoy até hoje.
Monitor Gold, Monitor Red e a era dos estúdios (1960–1980)
Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a Tannoy produziu versões refinadas do Dual Concentric — o Monitor Red, o Monitor Gold e o HPD (High Performance Dual) — que equiparam estúdios de gravação, emissoras de rádio e salas de cinema em todo o mundo. A Decca Records, a BBC e diversos estúdios de Abbey Road usaram monitores Tannoy como referência.
Na década de 1970, a produção foi transferida de Londres para Coatbridge, na Escócia, onde a Tannoy manteve fábricas por décadas.
A série Prestige: o legado vivo
A série Prestige mantém viva a herança do Autograph e dos Monitors clássicos. O modelo mais icônico é o Westminster Royal GR — um gabinete corneta de piso com o Dual Concentric de 15 polegadas e acabamento em madeira maciça que custa o equivalente a um carro de luxo. Ao lado dele, os modelos Canterbury GR, Kensington GR, Stirling GR e Turnberry GR oferecem o som Tannoy em formatos e preços variados (embora nenhum seja exatamente barato).
A nomenclatura da Prestige é toda baseada em localidades britânicas — Westminster (o parlamento), Canterbury (a catedral), Kensington (o bairro real), Stirling (o castelo escocês) — uma homenagem às raízes inglesas e escocesas da marca.
Mudança de mãos: TC Group e Music Tribe (2002–hoje)
Em 2002, a Tannoy foi adquirida pelo TC Group, conglomerado dinamarquês de áudio profissional que também controlava TC Electronic, Lab Gruppen e Lake. Em abril de 2015, o TC Group inteiro foi adquirido por Uli Behringer e incorporado ao Music Group — renomeado Music Tribe em 2017.
A mudança de propriedade gerou preocupação entre audiófilos, que temiam que a marca fosse diluída sob o guarda-chuva da Behringer. Até agora, a Tannoy mantém as linhas Prestige e Gold em produção, além de monitores de estúdio Reveal e sistemas de som comercial/instalado — o negócio original de PA que deu à marca seu nome e sua entrada no dicionário.
Por que a Tannoy ainda importa
Num mundo de caixas Bluetooth descartáveis e soundbars de plástico, a Tannoy representa algo cada vez mais raro: uma filosofia acústica intransigente mantida por quase um século. O Dual Concentric não é um truque de marketing — é uma solução de engenharia que resolve problemas reais de coerência temporal e imagem estéreo, e que fabricantes modernos como KEF (com o Uni-Q) reconhecidamente se inspiraram para criar seus próprios drivers coaxiais.
Guy Fountain morreu em 1977, sem ver a série Prestige levar seu legado ao extremo. Mas o som que ele ajudou a criar — quente, dinâmico, espacialmente honesto, com uma riqueza tímbrica que faz vozes soarem vivas — continua ecoando em salas de escuta pelo mundo. E toda vez que alguém na Inglaterra diz “atenção, anúncio pelo tannoy”, está prestando homenagem involuntária ao engenheiro de Yorkshire que começou fazendo retificadores numa garagem em Dulwich.