Poucas marcas podem dizer que mudaram a forma como a humanidade ouve música. A Sony é uma delas — e fez isso não uma, mas pelo menos quatro vezes: com o rádio transistor, com o Walkman, com o CD player e com o cancelamento ativo de ruído que se tornou referência global. Fundada em 1946 por dois amigos num Japão devastado pela guerra, a empresa partiu de um laboratório improvisado em Tóquio para se tornar um dos conglomerados de entretenimento e tecnologia mais poderosos do planeta.
O laboratório de Tóquio (1946–1955)
Masaru Ibuka e Akio Morita se conheceram durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhando em projetos militares para o exército imperial japonês. Quando a guerra terminou, Ibuka — engenheiro obcecado por inventar — abriu uma pequena oficina de reparos eletrônicos num prédio destruído por bombardeios no bairro de Nihonbashi, em Tóquio. Morita, filho de uma família que fabricava saquê há 15 gerações, largou a tradição para se juntar ao amigo.
Em maio de 1946, fundaram a Tokyo Tsushin Kogyo (Tokyo Telecommunications Engineering Corporation) com um capital de 190 mil ienes — equivalente a cerca de US$ 1.200 hoje. O primeiro produto de sucesso veio em 1950: o primeiro gravador de fita magnética fabricado no Japão.
O rádio que cabia no bolso (1955)
Em 1952, Ibuka viajou aos Estados Unidos e descobriu que a Bell Labs havia desenvolvido o transistor. Morita negociou a licença da tecnologia com a Western Electric por US$ 25 mil — uma aposta arriscada para uma empresa pequena. A Bell sugeriu que o transistor serviria para aparelhos auditivos. Ibuka tinha outra ideia.
Em 1955, nasceu o TR-55, o primeiro rádio transistor produzido comercialmente no Japão. Pequeno o suficiente para caber no bolso de uma camisa (Morita mandou fazer camisas com bolsos maiores para os vendedores demonstrarem), o TR-55 inaugurou uma revolução: pela primeira vez, música e notícias podiam acompanhar as pessoas para qualquer lugar.
Para exportar o produto, Ibuka e Morita precisavam de um nome que os americanos conseguissem pronunciar. Combinaram o latim sonus (som) com sonny (garoto, expressão coloquial americana). Nascia a marca Sony, oficialmente adotada pela empresa em 1958.
O gravador que foi ao espaço (1968)
O TC-50, lançado em 1968, era o menor gravador de fitas cassete do mundo na época. A NASA forneceu um para cada astronauta a partir da missão Apollo 7, usado para registros de bordo e — sim — para ouvir música no espaço. O TC-50 provou que a Sony sabia miniaturizar tecnologia de áudio como ninguém. E plantou uma semente que germinaria 11 anos depois.
Walkman: o produto que mudou tudo (1979)
A história do Walkman começa com um pedido pessoal. Em fevereiro de 1979, o cofundador Ibuka reclamou para Norio Ohga, presidente da divisão de áudio, que queria um aparelho portátil para ouvir música em voos longos. Os engenheiros pegaram o gravador Pressman, removeram a função de gravação, adicionaram um circuito estéreo e, em três dias, tinham um protótipo funcional.
Quase todo mundo dentro da Sony era contra. Um aparelho que não grava? Quem vai comprar? Morita insistiu. Em 1º de julho de 1979, o Walkman TPS-L2 chegou às lojas no Japão por 33 mil ienes. Vendeu 50 mil unidades no primeiro mês. No total, a Sony vendeu mais de 400 milhões de Walkman em todas as versões ao longo das décadas seguintes.
O Walkman não vendeu apenas um produto — vendeu um comportamento. Antes dele, música era algo que se ouvia em casa ou em shows. Depois dele, música era trilha sonora da vida. Correr no parque, andar de metrô, viajar de avião — tudo ganhou uma camada sonora que hoje parece natural, mas que simplesmente não existia antes de 1979.
O primeiro CD player do mundo (1982)
A Sony, em parceria com a Philips, desenvolveu o formato Compact Disc. Em 1º de outubro de 1982, lançou o CDP-101 — o primeiro CD player comercial do mundo — por 168 mil ienes no Japão. O CDP-101 introduziu a bandeja motorizada horizontal que se tornou padrão na indústria. Em março de 1983, o formato chegou ao mundo inteiro. O CD mataria o vinil (temporariamente), a fita cassete (definitivamente) e inauguraria a era do áudio digital doméstico.
MDR: fones que definiram estúdios (1985–hoje)
A sigla MDR — Micro Dynamic Receiver — acompanhou os fones profissionais da Sony por décadas. O MDR-V6, lançado em 1985, se tornou padrão em estúdios de gravação, emissoras de TV e cabines de DJ no mundo inteiro. Sua assinatura sonora neutra e construção indestrutível fizeram dele um dos fones mais longevos da história — fabricado por mais de 30 anos com mínimas alterações.
A linhagem evoluiu para os modelos de consumo premium com o MDR-1000X em 2016, o primeiro fone da Sony com cancelamento ativo de ruído de elite. A série se renomeou para WH-1000XM e, versão após versão (XM2, XM3, XM4, XM5, XM6), consolidou a Sony como líder em ANC, disputando palmo a palmo com a Bose pelo título de melhor cancelamento de ruído do mercado.
LDAC: som hi-res sem fio (2015–hoje)
Enquanto o Bluetooth convencional comprime o áudio de forma brutal via codec SBC, a Sony desenvolveu o LDAC, um codec proprietário capaz de transmitir até 990 kbps — cerca de três vezes mais dados que o SBC padrão. Adotado pelo Android como parte do código-fonte aberto (AOSP), o LDAC se tornou o codec de referência para quem quer ouvir música em alta resolução via Bluetooth. Hoje, ele equipa não apenas produtos Sony, mas caixas e fones de dezenas de fabricantes.
SRS: do estúdio para a festa (2012–hoje)
A linha SRS começou tímida em 2012 com caixas Bluetooth NFC e evoluiu para um dos portfólios de caixas portáteis mais completos do mercado. A família atual inclui modelos ultracompactos (SRS-XB100), portáteis de referência (SRS-XE300), party speakers massivas (SRS-XV800) e a série ULT, lançada em 2024, com botão dedicado de graves que intensifica os baixos em dois níveis — do sutil ao visceral.
360 Reality Audio e o futuro
Em 2019, a Sony lançou o 360 Reality Audio, formato de áudio espacial baseado em objetos que posiciona instrumentos e vozes individualmente em uma esfera sonora ao redor do ouvinte. Diferente do Dolby Atmos Music, que adapta mixagens existentes, o 360RA exige mixagem dedicada — o que limita o catálogo mas garante resultados impressionantes nas faixas disponíveis.
O legado de dois amigos
Akio Morita morreu em 1999. Masaru Ibuka, em 1997. Nenhum dos dois viveu para ver o streaming dominar a música, mas ambos construíram a empresa que pavimentou o caminho: do rádio transistor que levou música ao bolso, passando pelo Walkman que tornou o áudio pessoal um hábito universal, até o CD que digitalizou o som para sempre. A Sony de hoje é um conglomerado de games, filmes, música e eletrônicos, mas seu DNA permanece o mesmo que Ibuka definiu naquele laboratório destruído em Tóquio: fazer coisas que nunca foram feitas antes.
Oitenta anos depois, toda vez que você coloca um fone WH-1000XM no ouvido, pressiona o botão ULT de uma caixa Bluetooth ou dá play num álbum em LDAC, está usando tecnologia que começou com dois amigos japoneses, um licenciamento arriscado de US$ 25 mil e a teimosia de acreditar que o mundo queria ouvir música de um jeito novo.