Música & Cultura 03 SET 2026

Monitor Audio: do tweeter de metal que ninguém acreditava à caixa de R$ 500 mil que os puristas não conseguem criticar

Fundada em 1972 por um 'gênio da eletrônica' num armazém de Cambridge, a Monitor Audio inventou o tweeter de metal que soava bem, conquistou prêmios por décadas — e em 2023 lançou uma caixa de £ 70.000 que foi aprovada em 20 minutos.

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Em 1972, John Bartlett — dono da rede britânica de lojas Audio T — apresentou três pessoas que, sozinhas, provavelmente nunca teriam se encontrado: Mo Iqbal, descrito como “um gênio local da eletrônica”; Martin Colloms, jornalista e engenheiro de áudio; e Mike Beeny, gerente de uma loja Audio T perto de Cambridge. Beeny sugeriu que fundassem uma empresa de caixas de som. Alugaram um andar de armazém perto da casa de Iqbal, com espaço extra na garagem dupla dele, e registraram a Monitor Audio Ltd.

O primeiro produto e a era BBC

A MA1, primeira caixa da marca, combinava um driver de graves KEF B139 com um tweeter Isophon. Era artesanal, montada à mão por Iqbal e uma equipe mínima. Nos anos seguintes vieram a MA3, MA5 e MA6, estabelecendo a Monitor Audio no nicho de “som refinado, sutil e detalhado no estilo BBC” — competindo com KEF, Celestion, Rogers e Mordaunt Short.

Em 1976, a produção foi internalizada e a empresa se mudou para Essex. Em 1979, num desvio curioso, lançaram até um toca-discos direct-drive, o ET500 — produto rapidamente esquecido.

1985: o tweeter que mudou tudo

O momento decisivo veio em 1985 com a R852MD — a primeira caixa da Monitor Audio com tweeter de domo metálico. Na época, praticamente todos os tweeters de metal soavam “pouco convincentes”, nas palavras da própria empresa. A solução foi o C-CAM: uma liga de alumínio e magnésio revestida com uma camada de 50 mícrons de alumina cerâmica pura, depositada por anodização a alta temperatura.

A tecnologia veio da indústria aeroespacial — o C-CAM era usado em pás de turbinas de aviões a jato. Aplicado a cones de alto-falantes, o resultado era rigidez extrema com peso mínimo. A R852MD “causou alvoroço” na comunidade audiófila e estabeleceu o C-CAM como tecnologia central da marca para as próximas quatro décadas.

As séries que definiram a marca

A Bronze (1999) democratizou o som Monitor Audio com preços acessíveis e tweeters Gold Dome em C-CAM. Hoje na 7ª geração, é a porta de entrada — e ganhou o EISA Award de Melhor Bookshelf Custo-Benefício.

A Silver ocupa o sweet spot audiófilo com drivers RST (Rigid Surface Technology) — cones com padrões hexagonais inspirados em origami que aumentam a rigidez sem adicionar peso. Na 7ª geração, oferece acabamentos em madeira genuína e som que compete com rivais bem mais caros.

A Gold introduz o tweeter MPD (Micro Pleated Diaphragm) — um transdutor de fita dobrada cuja superfície é 8 vezes maior que um domo convencional, com resposta uniforme acima de 100 kHz. É o ponto onde a Monitor Audio entra em território verdadeiramente high-end.

A Platinum, agora na 3ª geração (2022), usa MPD III, drivers RDT III (sanduíche de C-CAM com núcleo Nomex honeycomb e fibra de carbono traseira) e gabinetes com baffle curvado. Reduz a distorção em 8 dB acima de 300 Hz comparada às gerações anteriores.

Hyphn: a declaração de intenções

Em 2023, a Monitor Audio lançou a Hyphn — derivada do protótipo Concept 50 apresentado no 50º aniversário. O nome vem de “hyphen” (hífen), referência ao design de dois pilares conectados por uma ponte central.

A ponte abriga o M-Array: um cluster com tweeter MPD III cercado por seis drivers de médio de 2 polegadas. Cada torre tem quatro woofers de 8 polegadas com cancelamento de força. O gabinete é feito de composto mineral/acrílico termoformado. O preço? Cerca de £ 70.000 o par — aproximadamente R$ 500.000.

O CEO Robert Barford revelou que a Hyphn foi aprovada em 20 minutos de reunião: “Numa organização grande, isso levaria de seis a doze meses.” Vantagem de ser empresa privada.

Transição e propriedade

Em 1997, Mo Iqbal vendeu a empresa para um grupo de audiófilos liderado por Andrew Flatt, que continua como proprietário único e chairman. Em 2004, a manufatura migrou para a China, enquanto design e engenharia permaneceram em Rayleigh, Essex — onde a sede está desde 2000.

A equipe de P&D cresceu de 14 para 34 engenheiros, recrutados não apenas da indústria de áudio (Naim, Arcam, KEF), mas também da automotiva (Jaguar Land Rover) e de outros setores. O grupo Monitor Audio também inclui a Roksan (adquirida em 2016, fabricante de eletrônicos hi-fi) e a Blok (2019, mobiliário para áudio).

A filosofia trickle-down

A Monitor Audio opera com um princípio claro: inovações do topo descem para as linhas mais acessíveis. O C-CAM nasceu na Platinum e hoje está na Bronze. O MPD nasceu na Gold e agora equipa a Platinum. Cada geração transfere tecnologia de flagship para produtos de entrada — é o oposto de marcas que reservam o melhor para quem paga mais.

Custom install (caixas embutidas, arquiteturais e outdoor) já representa mais de um terço do faturamento e é o segmento que mais cresce. A marca vende em mais de 100 mercados.

A Monitor Audio prova que obsessão por materiais e engenharia silenciosa — sem marketing bombástico — pode construir uma marca que dura 54 anos e ainda surpreende.

Redação Guia do Áudio

⌬ FIM · 4 min de leitura

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