John Bowers não planejou fundar uma das marcas de caixas acústicas mais respeitadas do mundo. Ele planejou construir a caixa de som perfeita — e quando não conseguiu comprá-la pronta, decidiu fabricá-la ele mesmo. Essa obsessão nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o jovem Bowers, alistado no Royal Corps of Signals, operava canais de rádio secretos entre as forças aliadas e a Europa ocupada. Foi ali, no silêncio entre transmissões cifradas, que ele se apaixonou pela fidelidade do som — e conheceu Roy Wilkins, o homem que seria seu sócio.
A loja de Worthing
Após a guerra, Bowers estudou engenharia de telecomunicações no Brighton Technical College e, junto com Wilkins, abriu uma loja de hi-fi em Worthing, West Sussex, na costa sul da Inglaterra. A loja fornecia equipamentos de PA para escolas e igrejas da região, e Bowers — cada vez mais insatisfeito com os alto-falantes disponíveis — começou a projetar e montar os seus próprios nos fundos do estabelecimento.
A empresa foi formalmente incorporada em 1966, mas o espírito já estava lá antes: um engenheiro perfeccionista que achava que nenhuma caixa de som do mercado reproduzia música como ela realmente soava ao vivo.
Kevlar: o material que mudou tudo
Em 1974, a B&W introduziu cones de Kevlar — fibra aramida tecida, o mesmo material usado em coletes à prova de bala. O Kevlar era significativamente mais rígido que o papel e menos propenso a breakup (distorção causada pela deformação do cone em frequências altas). O resultado foi uma reprodução de médios mais limpa, mais detalhada e mais controlada do que qualquer concorrente da época.
O cone de Kevlar se tornou a assinatura visual e técnica da B&W por décadas — aquela cor amarelada inconfundível que qualquer audiófilo reconhece. Só seria substituído, muitos anos depois, pelo Continuum — um material têxtil que manteve as vantagens do Kevlar eliminando uma coloração tonal sutil nos médios superiores.
A 801 e Abbey Road
Em 1979, após 14 anos de P&D, Bowers apresentou a 801 — uma caixa de três vias com gabinete em formato curvo e tweeter isolado no topo. Em 1980, ele levou a 801 para os Abbey Road Studios, em Londres. Os engenheiros do estúdio mais famoso do mundo — onde os Beatles gravaram a maior parte da sua obra — adotaram a 801 como monitor de referência imediatamente. Foi a primeira vez que um estúdio de gravação de ponta usava caixas B&W como referência.
A parceria com Abbey Road dura até hoje. Em agosto de 2025, para marcar 50 anos de colaboração, a B&W lançou a 801 Abbey Road Limited Edition — 144 pares, US$ 70.000 cada.
Nautilus: a caixa-escultura
Em 1993, a B&W revelou a Nautilus — uma das caixas acústicas mais icônicas jamais construídas. Inspirada na espiral logarítmica da concha de um nautilus, cada driver é montado num tubo cônico que se afina progressivamente, absorvendo a energia traseira e eliminando reflexões internas. Nenhuma superfície interna é paralela a outra. O resultado é uma caixa sem gabinete — onde cada driver opera como se estivesse no espaço livre.
A Nautilus era mais escultura do que produto de consumo. Mas a tecnologia do tubo Nautilus desceu para toda a linha 800 Series, onde o tweeter no topo do gabinete usa uma versão compacta do mesmo princípio.
O tweeter de diamante
Em 2005, a B&W deu o passo que nenhum concorrente conseguiu replicar: o Diamond Dome Tweeter. Um domo de tweeter feito de diamante sintético por deposição química de vapor — cerca de cinco vezes mais rígido que alumínio. A rigidez extrema permite que o tweeter opere linearmente muito além de 20 kHz, estendendo a resposta de frequência para acima de 70 kHz sem breakup.
O tweeter de diamante se tornou o coroamento da 800 Series Diamond — a linha de referência usada em estúdios de gravação e masterização ao redor do mundo.
De Worthing à Samsung
Em 2020, a B&W foi adquirida pela Sound United, que já detinha Denon e Marantz. Em setembro de 2025, a HARMAN International — subsidiária da Samsung — comprou a Sound United por US$ 350 milhões. A Bowers & Wilkins, nascida nos fundos de uma loja em Worthing, hoje pertence à maior empresa de eletrônicos do mundo.
Até agora, a transição tem sido suave. A B&W continua operando com autonomia de design e engenharia, e lançamentos recentes como o Px8 S2 — fone wireless over-ear com 30 horas de bateria e acabamento em couro Nappa — mostram que a marca mantém seu compromisso com materiais nobres e som sem concessão.
John Bowers morreu em 1987, antes de ver o tweeter de diamante, a Nautilus no MoMA ou seu nome nos créditos de estúdios de gravação ao redor do mundo. Mas a obsessão que ele trouxe de volta da guerra — reproduzir o som exatamente como ele é — continua sendo o único briefing que a engenharia da B&W segue.
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