Peter Bang e Svend Olufsen se conheceram recém-formados em engenharia e descobriram uma obsessão em comum: rádio. Bang tinha voltado dos Estados Unidos após estagiar numa fábrica da General Electric. Olufsen era filho de uma família abastada de Struer, uma pequena cidade no oeste da Dinamarca. Em 1925, os dois se trancaram no sótão da mansão da família Olufsen, em Quistrup, com ferramentas, componentes e uma ideia. A empresa que fundaram ali — formalmente registrada em 17 de novembro de 1925 — comemoraria 100 anos em 2025. E, ao contrário da maioria das centenárias, chegou mais relevante do que nunca.
O Eliminador e os primeiros anos
O primeiro produto da dupla, um receptor de rádio alimentado pela rede elétrica, não vendeu. O segundo, porém, mudou tudo: o Eliminator, um dispositivo que permitia que rádios a bateria funcionassem na tomada. Era, essencialmente, um dos primeiros adaptadores de energia do mundo — e se tornou a tábua de salvação financeira da empresa nascente.
Bang cuidava da engenharia; Olufsen, dos negócios. A divisão funcionou por décadas. A empresa cresceu, mudou-se para uma fábrica em Gimsing, perto de Struer, e passou a produzir rádios, radiogravadores e, depois da guerra, televisores e equipamentos de áudio.
A fábrica queimada pelos nazistas
Durante a Segunda Guerra Mundial, a B&O se recusou a colaborar com as autoridades nazistas de ocupação. A retaliação veio em forma de fogo: sabotadores pró-nazistas incendiaram a fábrica de Gimsing. A empresa reconstruiu — e a resistência se tornou parte do mito fundador que a marca carrega até hoje.
Design como identidade
No pós-guerra, a B&O tomou uma decisão que definiria seu destino: contratar designers industriais de primeiro escalão e dar-lhes poder real sobre os produtos. Enquanto concorrentes japoneses competiam por especificações, a B&O competia por desejo. Seus produtos começaram a entrar em acervos de museus — o MoMA em Nova York expõe peças da marca. O design escandinavo minimalista — com linhas limpas, materiais nobres e interfaces que parecem joias — se tornou sinônimo do nome B&O.
Marcos como o Beosound 9000 (1996) — um CD player horizontal com tampa de vidro motorizada e interface tátil — e o Beolab 5 (2003) — uma caixa acústica com lentes acústicas e calibração de ambiente — consolidaram a marca no topo do segmento de luxo.
ICEpower: a revolução silenciosa
Em 1999, uma tese de doutorado na Dinamarca sobre amplificação eficiente em Classe D resultou na criação da ICEpower — uma joint venture da B&O que desenvolve módulos amplificadores ultraeficientes. O que poucos sabem é que os módulos ICEpower são usados não apenas nos produtos da B&O, mas são licenciados para dezenas de fabricantes de áudio ao redor do mundo. A B&O lucra, silenciosamente, com a engenharia de amplificação que alimenta produtos de concorrentes.
O Beolab 90 e o topo absoluto
O Beolab 90, lançado em 2015, é a declaração técnica mais ambiciosa da B&O. Cada caixa contém 18 drivers e 18 amplificadores independentes com Beam Control — tecnologia que permite direcionar o som para o ouvinte e reduzir reflexões indesejadas. É, ao mesmo tempo, um produto de consumo e um experimento de física acústica.
Para marcar o centenário em 2025, a B&O lançou a Beolab 90 Titan Edition — com preço de aproximadamente US$ 211.000 por par. É áudio como arte colecionável, sem pretensão de acessibilidade.
O centenário e o futuro
O ano de 2025 foi celebrado com a Centennial Collection: edições especiais do Beoplay H100 (fone), Beosound A5 (portátil), Beosound A9 5ª geração (o speaker icônico de chão) e a Beosound Premiere — a primeira soundbar premium da marca, esculpida em alumínio, por US$ 5.800.
A B&O segue independente, listada na Nasdaq Copenhagen, sem controlador majoritário — um feito raro num mercado de áudio dominado por conglomerados. A empresa aposta em crescimento orgânico, sustentabilidade (foi pioneira com a certificação Cradle to Cradle no Beosound Level) e na premissa de que sempre haverá um público disposto a pagar por objetos que fazem som e design serem indistinguíveis.
A B&O existe há 100 anos porque resolveu um problema que ninguém sabia que tinha: como fazer eletrônicos que você quer exibir em vez de esconder. Esse problema continua sem outra solução à altura.
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