Música & Cultura 31 AGO 2026

Marantz: o músico de Queens que montou amplificadores na mesa da cozinha e criou a marca que define como o hi-fi deve soar

De um pré-amplificador feito à mão na cozinha de Nova York em 1953 à série CINEMA sob o guarda-chuva da Samsung/Harman — a história de uma marca que sempre priorizou musicalidade sobre especificações.

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Saul Bernard Marantz tinha um problema que nenhuma loja de áudio conseguia resolver: nenhum pré-amplificador disponível no mercado americano do pós-guerra soava bem o suficiente para um músico exigente. A solução foi típica de engenheiro obstinado — ele projetou o seu próprio. E o construiu na mesa da cozinha do apartamento em Kew Gardens, Queens, Nova York. Nascia, em 1953, a Marantz Audio Company — e com ela, uma filosofia que sobrevive há mais de 70 anos: o som deve servir à música, não ao ego do equipamento.

O Audio Consolette e os primeiros anos

O primeiro produto da Marantz foi o Audio Consolette, um pré-amplificador valvulado que Saul construiu inicialmente para uso próprio. Ele montou as primeiras 100 unidades à mão, e a demanda explodiu por boca a boca entre audiófilos da costa leste americana. Saul insistia que design industrial importava tanto quanto desempenho — uma convicção rara nos anos 50, quando equipamentos de áudio pareciam instrumentos de laboratório. Ele queria que o hi-fi saísse da garagem e entrasse na sala de estar.

O lendário Model 7

Em 1958, a Marantz lançou o Model 7, um pré-amplificador estéreo valvulado com seis válvulas 12AX7 que se tornaria um dos componentes eletrônicos mais reverenciados da história do áudio. Ficou em produção por mais de 12 anos e vendeu mais de 130.000 unidades — números extraordinários para equipamento audiófilo. Até hoje, unidades originais do Model 7 em bom estado são negociadas por milhares de dólares entre colecionadores.

Em 1960, o Model 9 — um amplificador de potência monoaural de 70 W contínuos e 140 W de pico, pesando 30 kg — completou o sistema. Sua arquitetura foi supostamente adaptada pela NASA para uso no programa Apollo, embora a Marantz nunca tenha confirmado oficialmente os detalhes.

Troca de mãos e crescimento

Em 1964, Saul Marantz vendeu a empresa para a Superscope Inc., que impulsionou o crescimento comercial da marca ao longo dos anos 70 — a década de ouro dos receivers estéreo. Sob a Superscope, a Marantz produziu receivers icônicos como o 2270 e o 2325, que combinavam o som musical da marca com potência e recursos para o mercado de massa.

Nos anos 80, a marca passou para as mãos da Philips, e a parceria gerou frutos inesperados: a Marantz se tornou pioneira em reprodução de CD, contribuindo para o desenvolvimento do formato junto com a Philips e a Sony. Os CD players da Marantz dessa era — como o CD-63 — são considerados referências de musicalidade digital até hoje.

HDAM e a era moderna

Em 1992, a Marantz introduziu o HDAM (Hyper Dynamic Amplifier Module) — um módulo de amplificação com componentes discretos que encurta o caminho do sinal e elimina circuitos integrados do percurso de áudio. O HDAM se tornou a assinatura técnica da marca e está presente em todos os produtos premium até hoje.

Ken Ishiwata, que se juntou à Marantz nos anos 70, tornou-se o engenheiro-chefe e evangelista da marca por quatro décadas. Ele foi o grande defensor do SACD e do DSD (Direct Stream Digital), desenvolvendo a tecnologia Marantz Musical Mastering (MMM) — uma conversão D/A proprietária que priorizava naturalidade musical sobre precisão laboratorial.

Fusões e o presente

Em 2002, a Marantz se fundiu com a rival Denon para formar a D&M Holdings. O grupo cresceu e eventualmente foi adquirido pela Sound United (que também detém Polk Audio, Definitive Technology, Classé e B&W). Em setembro de 2025, a HARMAN International — subsidiária da Samsung Electronics — comprou a Sound United por US$ 350 milhões, colocando a Marantz sob o mesmo teto corporativo de JBL, Harman Kardon, AKG e Mark Levinson.

O desafio agora é preservar a identidade sonora de 70+ anos sob um conglomerado de eletrônicos. Os primeiros sinais são encorajadores: a série CINEMA Series 2, lançada em agosto de 2026, trouxe um novo DAC de 32 bits e 8 canais, Dirac Live expandido e streaming HEOS aprimorado — mantendo o HDAM como coração do circuito.

Saul Marantz morreu em 1997, aos 85 anos. A empresa que ele criou na mesa da cozinha de Queens hoje está dentro da maior empresa de eletrônicos do mundo. Mas o princípio que ele estabeleceu — de que o equipamento deve servir à música — continua sendo o DNA que separa um receiver Marantz de qualquer concorrente.

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