Música & Cultura 18 JUN 2026

Sony: A Empresa que Reinventou a Forma Como o Mundo Ouve Música

Do Walkman que libertou a música das salas de estar aos fones que silenciam o mundo, a Sony moldou a cultura do áudio pessoal como nenhuma outra empresa na história.

MÚSICA & CULTURA

Existe um antes e um depois do Walkman. Antes dele, música era algo que acontecia em lugares fixos — na sala de estar, no carro, na sala de concerto. Depois dele, música passou a ser algo que nos acompanha para onde quer que vamos. Essa revolução silenciosa, que transformou profundamente a relação da humanidade com o som, nasceu de uma empresa japonesa fundada nos escombros de Tóquio após a Segunda Guerra Mundial. Esta é a história da Sony — e de como ela reinventou, repetidas vezes, a forma como o mundo ouve.

Dois Visionários nos Escombros de Tóquio

Em maio de 1946, o engenheiro Masaru Ibuka e o físico Akio Morita fundaram a Tokyo Tsushin Kogyo — Companhia de Telecomunicações de Tóquio — em um prédio de departamentos bombardeado no bairro de Nihonbashi. Ibuka era o gênio técnico, obcecado por inovação; Morita era o estrategista com visão global, fascinado pela ideia de construir uma marca japonesa respeitada internacionalmente.

A combinação era explosiva. Na década de 1950, a dupla obteve a licença para fabricar transistores — componentes semicondutores recém-inventados nos laboratórios Bell, nos Estados Unidos — e com eles construiu rádios portáteis que cabiam no bolso de uma camisa. Enquanto a indústria americana ainda tratava o transistor como curiosidade de laboratório, Ibuka e Morita viram nele o futuro da eletrônica pessoal.

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“Nosso plano é liderar o público com novos produtos, em vez de perguntar que tipo de produto ele quer. O público não sabe o que é possível, mas nós sabemos.”

— Akio Morita, cofundador da Sony

Em 1958, a empresa adotou o nome Sony Corporation — uma fusão do latim sonus (som) com o inglês coloquial sonny (rapaz), escolhido por ser pronunciável em qualquer idioma do mundo. A ambição global estava inscrita no próprio nome.

1979: O Walkman Muda Tudo

A lenda conta que Akio Morita queria ouvir música durante seus voos transatlânticos sem incomodar os passageiros ao lado. Ibuka, por sua vez, lamentava que os gravadores portáteis da Sony fossem grandes demais para carregar com conforto. Dessas fruações pessoais nasceu uma das mais importantes invenções culturais do século XX.

Em 1 de julho de 1979, a Sony lançou o Walkman TPS-L2 — um reprodutor de fitas cassete portátil, compacto, alimentado por pilhas, acompanhado de fones de ouvido leves. O departamento de marketing da Sony estava cético: quem compraria um gravador que não gravava? A resposta veio em forma de avalanche. O primeiro lote se esgotou em dias. Nos meses seguintes, filas se formaram nas lojas de Tóquio, Nova York, Londres e São Paulo.

Mas o Walkman não foi apenas um sucesso comercial — ele foi uma revolução antropológica. Pela primeira vez, cada pessoa podia criar sua própria trilha sonora privada enquanto caminhava pela cidade, corria no parque ou pegava o metrô. A experiência da música tornou-se íntima, pessoal, portátil. Mais de 250 milhões de unidades do Walkman foram vendidas ao longo de suas diversas gerações, e o nome se tornou sinônimo universal de música portátil.

O Fone que Precisou Ser Inventado

Um detalhe frequentemente esquecido: quando a Sony concebeu o Walkman, não existiam fones de ouvido leves o suficiente para acompanhá-lo. Os modelos disponíveis no mercado pesavam centenas de gramas e eram projetados para uso estacionário. A equipe de engenharia da Sony precisou criar, do zero, fones que pesassem apenas 45 gramas — confortáveis o bastante para serem usados por horas a fio durante caminhadas e exercícios. Assim, a Sony não inventou apenas o tocador portátil: inventou também a categoria dos fones de ouvido portáteis.

Formatos que Definiram Eras

A influência da Sony no áudio vai muito além do hardware. A empresa foi co-criadora de alguns dos formatos de mídia mais importantes da história. Em 1982, em parceria com a Philips, a Sony lançou o Compact Disc — o CD — que substituiu o vinil como padrão da indústria fonográfica e inaugurou a era do áudio digital para o consumidor.

Em 1992, veio o MiniDisc, um formato que nunca conquistou o mainstream fora do Japão, mas que desenvolveu um culto fervoroso entre audiófilos e profissionais pela sua combinação de portabilidade, qualidade e capacidade de gravação. Em 1999, o Super Audio CD (SACD) tentou elevar o padrão do áudio digital com resolução muito superior ao CD convencional.

“A Sony nunca teve medo de matar seus próprios formatos para criar algo melhor. Essa coragem autodestrutiva é rara na indústria de tecnologia.”

— Observação recorrente entre analistas do mercado de áudio

Do Estúdio ao Mundo: O MDR-CD900ST

Em 1989, a Sony lançou o MDR-CD900ST, um fone de ouvido de monitoramento que se tornou o padrão absoluto dos estúdios de gravação japoneses. Praticamente todo estúdio profissional no Japão possui pelo menos um par desses fones. Sua reprodução transparente e implacavelmente honesta o transformou em ferramenta indispensável para engenheiros de som, músicos e produtores. Ainda em produção após mais de três décadas, o CD900ST é um testamento da filosofia Sony de projetar para a excelência, não para a obsolescência.

A Era do Silêncio: Cancelamento de Ruído

Se o Walkman libertou a música das salas de estar, os fones com cancelamento ativo de ruído da Sony libertaram o ouvinte do ruído do mundo. Lançado em 2016, o MDR-1000X inaugurou uma linhagem que se tornaria a mais bem-sucedida da história nessa categoria. A série WH-1000X, com seus processadores dedicados e algoritmos de cancelamento que aprendem com o ambiente, conquistou o título de fone ANC mais vendido do mundo — uma posição que mantém geração após geração.

Em 2019, a Sony lançou o 360 Reality Audio, um formato de áudio espacial que posiciona instrumentos e vozes em uma esfera tridimensional ao redor do ouvinte. Mais uma vez, a empresa não se contentou em fabricar o hardware — quis definir o formato.

De Vinil a Streaming: Oito Décadas de Reinvenção

Hoje, a Sony continua lançando Walkmans — sim, o nome sobrevive — agora como players de áudio de alta resolução para audiófilos exigentes. Os fones WH-1000XM6 e os earbuds WF-1000XM6 representam o estado da arte em áudio pessoal. A empresa que nasceu nos escombros de Tóquio em 1946 segue fiel à visão de Ibuka e Morita: não perguntar ao público o que ele quer, mas mostrar-lhe o que é possível. Da fita cassete ao streaming em alta resolução, a Sony não apenas acompanhou cada transformação do áudio — ela as provocou.

⌬ FIM · 6 min de leitura

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