Música & Cultura 22 AGO 2026

ELAC: do sonar submarino ao som que revolucionou a alta fidelidade acessível

Nascida em 1926 para pesquisar o comportamento do som debaixo d'água, a ELAC construiu sonares, inventou toca-discos lendários, patenteou o cartucho de imã móvel e, quase um século depois, democratizou o hi-fi com caixas que custam uma fração da concorrência.

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A história da ELAC começa onde poucos imaginariam: debaixo d’água. Em 1 de setembro de 1926, na cidade portuária de Kiel, no norte da Alemanha, foi fundada a Electroacustic GmbH — uma empresa dedicada a pesquisar o comportamento do som na água e no ar. O objetivo inicial não era entreter ninguém: era entender como ondas sonoras se propagam em ambientes subaquáticos. Em outras palavras, a ELAC nasceu fazendo sonar.

Quase um século depois, a mesma empresa que ajudou a mapear o fundo do oceano fabrica algumas das caixas acústicas mais respeitadas do mundo — e provou que alta fidelidade não precisa ser sinônimo de preço inacessível.

Guerra, sonar e 5.000 funcionários

Durante as décadas de 1930 e 1940, a ELAC se tornou fornecedora da marinha alemã (Kriegsmarine), produzindo equipamentos eletroacústicos para aplicações navais. No auge da Segunda Guerra Mundial, a empresa chegou a empregar 5.000 funcionários — todos focados em tecnologia de detecção submarina.

Com o fim da guerra, veio a necessidade de reinvenção. A Alemanha devastada precisava reconstruir sua economia, e empresas de tecnologia militar precisavam encontrar mercados civis. A ELAC, com seu profundo conhecimento de acústica e engenharia de precisão, encontrou um caminho surpreendente: a música.

Do sonar ao toca-discos: o PW1 de 1948

Em 1948, a ELAC lançou seu primeiro produto de consumo: o toca-discos PW1. A transição de equipamento militar para eletrônica de consumo pode parecer abrupta, mas fazia sentido perfeito: a expertise em acústica, transdutores e engenharia de precisão era diretamente aplicável à reprodução musical.

O PW1 foi apenas o começo. Nos anos seguintes, a ELAC lançou a lendária linha Miracord de toca-discos, começando com o modelo 10H no início dos anos 1950. Os Miracord se tornaram referência mundial em reprodução de vinil. Junto com as alemãs Dual e Perpetuum-Ebner, a produção germânica chegou a representar até 90% da produção global de toca-discos.

E não era só volume: a ELAC patenteou o primeiro cartucho de imã móvel (moving magnet) — uma inovação que se tornou o padrão global para captação de vinil e permanece dominante até hoje.

A mesma empresa que mapeou o fundo do mar patenteou a tecnologia que define como o mundo inteiro ouve discos de vinil há mais de seis décadas.

Sobre a patente do cartucho de imã móvel da ELAC

A transição para caixas acústicas e o JET tweeter

Em 1984, a ELAC deu mais um passo transformador ao iniciar o desenvolvimento de caixas acústicas com o projeto AXIOM. A expertise em transdutores e acústica adquirida ao longo de décadas se mostrou uma base ideal para projetar alto-falantes.

O salto definitivo veio em 1993, quando a ELAC adquiriu os direitos do tweeter JET da empresa berlinense ARES, então falida. O JET é baseado no Air Motion Transformer (AMT), um tipo de driver inventado pelo físico alemão Oskar Heil nos anos 1970. Em vez de empurrar o ar como um tweeter convencional de domo, o AMT o comprime e expulsa através de dobras de uma membrana plissada — resultando em resposta ultrarrápida, distorção mínima e agudos de uma clareza e suavidade excepcionais.

A ELAC não apenas adotou o JET: aperfeiçoou-o ao longo de décadas, transformando-o na assinatura sonora da marca. Hoje, o tweeter JET é encontrado em praticamente todas as linhas de caixas acústicas da ELAC acima do nível de entrada.

Andrew Jones e a democratização do hi-fi

Em maio de 2015, a ELAC anunciou a contratação de Andrew Jones como Vice-Presidente de Engenharia. Jones não era qualquer engenheiro: era um designer de caixas acústicas britânico com passagens lendárias pela KEF, TAD e Pioneer, conhecido por sua capacidade quase mágica de extrair desempenho excepcional de produtos acessíveis.

O resultado de sua chegada foi a série Debut, lançada em 2016. Caixas acústicas que custavam entre US$ 180 e US$ 280 o par e soavam como produtos de faixas de preço muito superiores. A Debut B6, em particular, se tornou um fenômeno: reviews entusiasmados em todas as publicações de áudio do planeta, prêmios empilhados e uma base de fãs que transformou a ELAC de uma marca de nicho europeu em um nome global.

Jones também desenvolveu a série Uni-Fi, com drivers coaxiais, e a Carina, que trouxe o icônico tweeter JET para faixas de preço mais acessíveis — combinando a assinatura sonora da ELAC premium com a filosofia de custo-benefício que Jones dominava.

Após seis anos extraordinariamente produtivos, Andrew Jones deixou a ELAC, mas seu legado permanece em cada caixa Debut e Uni-Fi que continua sendo vendida.

Duas sedes, um século de som

Hoje, a ELAC mantém operações de pesquisa e desenvolvimento em dois continentes: a sede histórica em Kiel, Alemanha, e um centro em Cypress, Califórnia. A engenharia alemã e a sensibilidade de mercado americana se complementam.

Das profundezas do Mar do Norte aos palcos dos maiores festivais de áudio do mundo, a ELAC completou quase um século fazendo o que sempre fez: entender o som. A diferença é que, em 1926, o som revelava submarinos. Em 2026, revela a textura de um violoncelo, o respiro de um saxofone, o impacto de um bumbo. A ciência é a mesma. A emoção, completamente diferente.

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