Música & Cultura 20 AGO 2026

Onkyo: a marca japonesa que faliu em 2022 — e chegou aos 80 anos viva, americana e com os mesmos engenheiros de Osaka

Em maio de 2022, a Onkyo Home Entertainment declarou falência em Osaka com dívidas de US$ 24 milhões. Três anos depois, a marca fatura mais do que nunca. Entender como isso aconteceu é entender o fim da era dourada do áudio japonês.

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Existe uma frase que resume a história da Onkyo melhor do que qualquer linha do tempo: a empresa morreu, mas a marca não estava mais lá quando aconteceu. Em 13 de maio de 2022, a Onkyo Home Entertainment Corporation entrou com pedido de falência no Tribunal Distrital de Osaka, com passivo de cerca de 3,1 bilhões de ienes — algo como US$ 24 milhões. Naquele mesmo ano, os produtos com o nome Onkyo faturaram mais do que no ano anterior, do outro lado do Pacífico. Como se chega a isso?

Osaka, 1946: uma cartela de fonocaptor

A empresa nasceu em 17 de setembro de 1946, em Osaka, com o nome Osaka Denki Onkyo K.K. O fundador foi Takeshi Goda (五代武, grafado “Godai” nos materiais atuais da marca), um engenheiro que trabalhava com som na Matsushita Electric e que tinha uma insatisfação específica: não existia, no Japão daquele momento, um alto-falante dinâmico nacional que o satisfizesse.

O nome carrega a missão. 音響 (onkyō) é a junção de 音 (on, som) e 響 (kyō, ressoar) — literalmente “ressonância do som”. A própria empresa traduz isso comercialmente como “harmonia sonora”.

A ironia é que o primeiro produto da fabricante de alto-falantes não foi um alto-falante. Foi a cápsula fonográfica de cristal CP1000, vendida por cerca de 300 ienes num país onde o salário médio mensal girava em torno de 500. Era um objeto de luxo antes de existir a expressão “alto-fidelidade” no Japão. O lucro dessa cápsula financiou a pesquisa dos alto-falantes que Goda realmente queria fazer. O primeiro deles, o ED-100, saiu em abril de 1948, com driver de 25 cm, custando 50% mais que o rival mais próximo — e vendeu.

Integra, THX e a era dourada

Em 1969, a Onkyo criou a linha Integra, sua submarca premium, com nome derivado da ideia de integração. Em 1971, a empresa passou a se chamar simplesmente Onkyo Corporation. Nos anos seguintes veio a expansão internacional: Alemanha em 1972, Estados Unidos em 1975.

O ponto alto da engenharia chegou em 1984, com o Grand Integra M-510. Era um amplificador de potência de 300 W por canal em 8 Ω, ultrapassando 500 W em impedâncias menores, vendido por US$ 3.800 — cerca de 850 mil ienes no Japão. Ele ficou em linha até por volta de 1992 e ainda é citado ao lado de Krell, Mark Levinson e Accuphase. Uma marca de mercado de massa construindo um amplificador de declaração de princípios: isso era o Japão dos anos 80.

Mas o legado mais duradouro veio do cinema em casa. Em 1993, a Onkyo lançou o TX-SV919THX, o primeiro receiver de home theater do mundo certificado THX — e a Onkyo foi a primeira marca de eletrônicos de consumo a conquistar a certificação da Lucasfilm. Por duas décadas, “Onkyo” e “receiver de home theater” foram praticamente sinônimos para quem montava sala de cinema em casa.

A queda, em capítulos

O desmonte foi lento e teve vários autores.

2012: a Gibson Brands — sim, a fabricante de guitarras — firma aliança com a Onkyo e vira sua segunda maior acionista, com 21,5%. A Gibson também comprou participação de controle na TEAC e a divisão WOOX da Philips. Era uma tentativa de construir um conglomerado de áudio.

2014-2015: Onkyo e Pioneer integram seus negócios de áudio doméstico. A Pioneer Home Electronics vira subsidiária da Onkyo, e a Pioneer fica com 14,95% da Onkyo. Duas gigantes japonesas se abraçando para não afundar.

2018: a Gibson vai à falência. Sua participação na Onkyo é liquidada, e a Onkyo desfaz toda a sua operação europeia.

2021: o desenlace. Em junho, a americana Voxx International, através da Premium Audio Company, e a japonesa Sharp compram o negócio de áudio e vídeo da Onkyo por US$ 30,8 milhões mais assunção de dívidas, numa divisão de 75% para a Premium Audio e 25% para a Sharp. Em agosto, a Onkyo é deslistada da Bolsa de Tóquio depois de uma tentativa fracassada de capitalização. Em setembro, a aquisição se conclui e o negócio de fones é vendido separadamente para um fundo.

2022: a casca vazia quebra. Quando a Onkyo Home Entertainment pede falência em maio, as marcas já não pertenciam mais a ela.

Essa marca japonesa não faz mais parte do portfólio da distribuidora.

Eduardo Medeiros, da Disac, anunciando o fim da distribuição oficial da Onkyo no Brasil, em agosto de 2020

O Brasil ficou de fora

Para o mercado brasileiro, o fim veio antes. A Disac era a distribuidora oficial da Onkyo no país e encerrou a representação em agosto de 2020. A partir de maio de 2021, a distribuição para as Américas passou à Eleven Trading, o veículo da Voxx que também cuida de Klipsch, Jamo e Integra — mas o Brasil não entrou no arranjo. A Integra seguiu por aqui via Som Maior; a Onkyo, não.

Hoje a marca não tem distribuidor oficial no Brasil. Sobrevive por revendedores independentes, importadores e assistências técnicas especializadas em São Paulo. Para o consumidor brasileiro que montou home theater nos anos 2000 e 2010 em cima de um receiver Onkyo, isso significou anos de dificuldade para conseguir peça e reparo.

O detalhe que muda a história

Aqui está a parte que quase ninguém conta. Quando a Premium Audio Company relançou a Onkyo em dezembro de 2024, ela estabeleceu o Premium Audio Company Technology Centerem Osaka. E o povoou com 59 engenheiros cuja média de tempo de casa é de 22 anos.

Ou seja: os mesmos engenheiros que projetaram os receivers Onkyo antes da falência são os que projetam os Onkyo de agora. A propriedade virou americana, a manufatura é feita pela Sharp na Malásia, mas a engenharia continua japonesa, na mesma cidade onde Takeshi Goda abriu a empresa em 1946.

Os números confirmam que funcionou: o veículo comercial das marcas saiu de US$ 13,7 milhões de receita no ano fiscal de 2021 para US$ 59,4 milhões em 2022, com produtos Onkyo em primeiro lugar em volume. Em abril de 2025, a Gentex Corporation comprou a Voxx International por cerca de US$ 196 milhões — e Klipsch, Onkyo, Pioneer e Integra passaram todas para a nova dona.

Oitenta anos, e um catálogo novo

Em 2026, a Onkyo celebra oito décadas com produtos que reencenam o próprio passado. Na CES de janeiro veio a série Muse, de amplificadores integrados com streaming. E em junho, as edições de aniversário: o Muse Y-50(G), por US$ 1.699, com chassi de alumínio champanhe-dourado e laterais de nogueira, estilizado a partir do Integra M-588 dos anos 1990; e os monitores ativos Creator GX-30ARC (US$ 399 o par) e GX-10DB (US$ 299), desenhados a partir do D-200 “Liverpool” de 1987.

O 80º aniversário da Onkyo não é apenas um marco — é uma declaração sobre o nosso futuro. Celebramos o cuidado artesanal e a paixão que moldaram nossas primeiras oito décadas enquanto lançamos uma base ousada para a próxima geração de ouvintes.

Vinny Bonacorsi, COO da Onkyo, em janeiro de 2026

Para 2027, a marca prometeu processadores TX e receivers RZ com até 15 canais de processamento, 11 canais amplificados, certificação THX Dominus, Dirac Live com Dirac ART e Auracast.

Um monumento em Osaka

Há um detalhe melancólico e perfeito nessa história. Em Osaka existe hoje um monumento marcando o local da antiga sede da Onkyo Corporation. O prédio se foi. A empresa se foi. O nome continua, agora sob bandeira americana, projetado por japoneses, fabricado na Malásia.

É uma história menos romântica do que a de marcas que atravessaram o século sob a mesma família. Mas é, provavelmente, a história mais representativa do que aconteceu com o áudio japonês nas últimas duas décadas — e uma das poucas em que o desfecho não foi o desaparecimento total. A Onkyo sobreviveu à própria morte. Nem toda marca dessa geração pode dizer o mesmo.

⌬ FIM · 7 min de leitura

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