Música & Cultura 18 AGO 2026

Sony: do rádio de transistores ao Walkman, ao CD e ao cancelamento de ruído que destronou a Bose — oito décadas reinventando como o mundo ouve música

A saga de áudio da Sony começa num Japão em ruínas, passa pela invenção do Walkman, pela co-criação do CD com a Philips e chega ao trono do cancelamento de ruído — com desvios por MiniDisc e formatos que ninguém pediu.

MÚSICA & CULTURA

Contar a história de áudio da Sony é contar a história da música portátil moderna. Nenhuma empresa mudou mais vezes a forma como a humanidade ouve música — e nenhuma errou tantas vezes tentando repetir o feito. Do rádio de bolso ao Walkman, do CD ao MiniDisc, do MP3 ao streaming e ao cancelamento de ruído, a Sony é a marca que inventou o futuro, perdeu o presente e inventou o futuro de novo.

Tokyo Tsushin Kogyo: a empresa que nasceu nos escombros (1946)

Em maio de 1946, o Japão estava em ruínas. Masaru Ibuka, um engenheiro de 38 anos, e Akio Morita, um físico de 25, fundaram a Tokyo Tsushin Kogyo (Tokyo Telecommunications Engineering Corporation) num prédio bombardeado em Nihonbashi, Tóquio. O capital inicial era de 190 mil ienes — pouco mais que o suficiente para pagar o aluguel.

Ibuka era o inventor; Morita, o vendedor. Juntos, tinham a convicção de que o Japão podia competir com o Ocidente em tecnologia, não apenas em mão de obra barata. O primeiro produto de sucesso foi um gravador de fita magnética (o G-Type, 1950) — volumoso, caro, mas funcional.

O rádio que coube no bolso (1955)

Em 1955, a empresa lançou o TR-55, o primeiro rádio de transistores fabricado no Japão. Não era o primeiro do mundo — a Regency americana chegou antes — mas era melhor, mais confiável e, crucialmente, pequeno o suficiente para caber no bolso de uma camisa.

Foi também em 1955 que Morita decidiu trocar o nome. Tokyo Tsushin Kogyo era impronunciável em inglês. Depois de meses testando combinações, Morita escolheu Sony — derivado do latim sonus (som) e do inglês sonny (rapazinho). O nome era curto, universal e sem significado prévio em nenhum idioma. Genial.

O Walkman: a invenção que mudou tudo (1979)

A história é lendária: Ibuka queria ouvir ópera durante voos transpacíficos sem incomodar os vizinhos de poltrona. Pediu que seus engenheiros adaptassem um gravador portátil Pressman para funcionar apenas como reprodutor, com saída para fones de ouvido. O departamento de marketing resistiu — quem compraria um gravador que não grava?

Morita bancou a aposta. Em 1º de julho de 1979, o Walkman TPS-L2 chegou às lojas japonesas por 33.000 ienes. Esgotou em semanas. Em três anos, a Sony vendeu mais de 50 milhões de unidades no mundo. O Walkman não era um produto — era uma mudança cultural. Pela primeira vez na história, música era portátil, pessoal e privada.

Ao longo das décadas seguintes, a Sony venderia mais de 400 milhões de Walkmans em todas as mídias: cassete, CD (Discman), MiniDisc e, eventualmente, digital.

O CD: a parceria com a Philips (1982)

No final dos anos 1970, Sony e Philips se uniram para criar o formato de Compact Disc. A lenda diz que o diâmetro de 12 cm foi definido para caber a Nona Sinfonia de Beethoven inteira (74 minutos). A verdade é mais prosaica — era um compromisso entre tamanho e capacidade de fabricação — mas a história é boa demais para desmistificar.

Em 1982, a Sony lançou o CDP-101, o primeiro CD player comercial do mundo. O áudio digital matou o cassete em uma década e quase matou o vinil — que só ressuscitaria nos anos 2010.

MiniDisc e ATRAC: o erro que custou o MP3 (1992)

O MiniDisc (1992) era tecnicamente brilhante: um disco óptico regravável de 6,4 cm com compressão ATRAC proprietária. O som era bom, a mídia era durável, e o formato permitia gravação em campo — algo que o CD não fazia. Mas a Sony cometeu dois erros fatais: cobrou caro demais pelas mídias e, pior, fechou o ecossistema com DRM agressivo.

Enquanto a Sony protegia o MiniDisc, o MP3 crescia na internet. Quando a Sony finalmente lançou players MP3 (em 2004, com o NW-HD1), o iPod já dominava o mundo. A Sony perdeu a revolução digital que ela mesma ajudou a criar com o CD.

Fones de ouvido: do MDR-7506 ao WH-1000XM (1991–hoje)

A Sony sempre foi forte em fones. O MDR-7506 (1991) se tornou o fone de referência em estúdios de rádio, TV e gravação no mundo inteiro — e continua em produção mais de 30 anos depois. Mas o salto veio em 2016, com o MDR-1000X, o primeiro fone da Sony com cancelamento de ruído ativo competitivo.

A linha evoluiu para o WH-1000XM2, XM3, XM4, XM5 e agora o XM6 — e a partir do XM3, a Sony destronou a Bose como referência em cancelamento de ruído. Processamento de som adaptativo, LDAC para áudio de alta resolução, conforto para uso prolongado e preço competitivo fizeram dos XM a escolha padrão de viajantes e profissionais.

LDAC e 360 Reality Audio: o codec e o formato espacial

A Sony desenvolveu o LDAC, um codec Bluetooth proprietário que transmite até 990 kbps — três vezes mais que o SBC padrão. O LDAC foi incorporado ao Android como codec nativo, democratizando o áudio de alta resolução via Bluetooth.

Em 2019, a Sony lançou o 360 Reality Audio, um formato de áudio espacial baseado no padrão MPEG-H que posiciona instrumentos ao redor do ouvinte numa esfera virtual. Amazon Music, Tidal e Deezer oferecem conteúdo em 360RA, embora o catálogo ainda seja limitado comparado ao Dolby Atmos.

A Sony de áudio em 2026

Hoje a Sony compete em todas as frentes: caixas Bluetooth (SRS-XB, ULT, XV), soundbars (BRAVIA Theater), fones (WH-1000XM, WF-1000XM, ULT Wear), receivers (STR-AN1000) e formatos (LDAC, 360RA). É a única empresa que fabrica os alto-falantes, os fones, os codecs, as TVs e o conteúdo (Sony Music, Sony Pictures). Ninguém mais tem essa verticalização.

A Sony errou muitas vezes — MiniDisc, ATRAC, Memory Stick, formatos proprietários demais. Mas quando acertou, mudou a cultura. Walkman. CD. WH-1000XM. Três produtos que, sozinhos, justificam oito décadas de existência.

Redação Guia do Áudio

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