Música & Cultura 17 AGO 2026

Bowers & Wilkins: do balcão de rádio em Worthing ao som que equipa Abbey Road — e à surpreendente ida para o guarda-chuva da Samsung

Como um vendedor de rádios numa cidade litorânea da Inglaterra usou a herança de uma cantora de ópera para criar a marca de caixas acústicas mais reverenciada do mundo — e por que ela agora pertence à Samsung.

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Existe algo de poético no fato de que a marca mais venerada do hi-fi britânico nasceu graças a uma cantora de ópera. Em 1966, Miss Knight — uma cliente rica e ex-soprano — deixou 10 mil libras em testamento para John Bowers, o sujeito que consertava seus aparelhos de rádio numa lojinha em Worthing, no litoral sul da Inglaterra. A condição: que ele usasse o dinheiro para construir alto-falantes. Bowers aceitou. E o mundo do áudio nunca mais foi o mesmo.

Do rádio à revolução acústica

John Bowers e Roy Wilkins haviam se conhecido no Royal Corps of Signals durante a Segunda Guerra Mundial, unidos pelo fascínio por eletrônica. Depois da guerra, abriram uma loja de rádios, TVs e equipamentos eletrônicos em Worthing, West Sussex. Mas Bowers sonhava mais alto — literalmente. Com a herança de Miss Knight, fundou a B&W Loudspeakers Ltd. em 1966.

O primeiro produto comercial, o P1 (1967), usava drivers da EMI/Celestion com gabinetes e crossovers feitos em casa. Já mostrava a filosofia que definiria a marca: engenharia própria onde importa, sem compromisso com o convencional. Em 1970, o DM70 — uma combinação improvável de woofer de 30 cm com painel eletrostático curvo de 11 elementos — ganhou o British Industrial Design Award e foi exportado para 28 países. A mensagem era clara: B&W não fazia caixas; fazia declarações.

O cone de Kevlar e a conquista dos estúdios

Em 1974, a B&W foi uma das primeiras a usar cones de Kevlar no modelo DM6 — o material dos coletes à prova de bala, rígido o suficiente para reproduzir médios com precisão cirúrgica. Cinco anos depois, a 801 chegou ao mercado após três anos de desenvolvimento obsessivo. Engenheiros de gravação clássica da Decca adotaram-na quase imediatamente.

Em 1980, Bowers levou pessoalmente um par de 801 aos Abbey Road Studios. O estúdio — sim, aquele dos Beatles — tornou-se o primeiro a adotá-la em tempo integral. A parceria dura até hoje, com mais de 45 anos: praticamente toda trilha sonora gravada no Studio One de Abbey Road — de Star Wars a James Bond, de Harry Potter ao Senhor dos Anéis — foi mixada em monitores B&W da série 800.

Steyning e o Nautilus: a caixa que não soa como caixa

Em 1982, B&W abriu o Steyning Research Establishment nas antigas instalações da SME (fabricante de braços de toca-discos), perto de Worthing. Ali, o engenheiro Laurence Dickie recebeu um briefing que soa como roteiro de ficção científica: “projete uma caixa que não soe como uma caixa.”

O resultado, lançado em 1993, foi o Nautilus — quatro gabinetes em formato de tubo exponencial que eliminam reflexões internas, fazendo o som desaparecer dentro da estrutura em vez de ricochetear de volta pelo driver. Ganhou o Queen’s Award for Innovation e permanece como um dos objetos mais icônicos do áudio mundial. A tecnologia filtrou para a série comercial Nautilus 800 em 1998, tornando-a acessível (em termos relativos) ao público.

Diamante, Continuum e a engenharia sem fim

A obsessão da B&W por materiais de driver é lendária. Em 2005, chegou o tweeter de diamante — um domo de diamante sintético depositado por vapor químico, com frequência de breakup acima de 70 kHz, tão além da audição humana que distorções na faixa audível simplesmente desaparecem. Em 2015, após oito anos e mais de 70 iterações, o cone Continuum aposentou o Kevlar nos médios da série 800 D3, oferecendo resposta mais suave sem sacrificar detalhe.

Outras tecnologias proprietárias completam o arsenal: o Aerofoil (cone de graves com núcleo de espuma de densidade variável e pele de fibra de carbono), o Flowport (duto bass-reflex com textura interna que reduz turbulência) e o Tweeter-on-Top — o tweeter montado em gabinete separado de alumínio usinado, desacoplado das vibrações do gabinete principal.

Turbulência corporativa — e um novo lar

John Bowers morreu em 1987, deixando o suíço Robert Trunz — que construíra participação na empresa via a distribuidora norte-americana — no comando. A marca atravessou décadas de independência até 2016, quando foi adquirida pela EVA Automation, uma startup do Vale do Silício liderada por Gideon Yu (ex-Facebook e YouTube). Em 2020, a Sound United comprou a B&W; em 2022, a Masimo Corporation adquiriu a Sound United por cerca de US$ 1 bilhão, juntando B&W a Denon, Marantz, Polk Audio e Definitive Technology.

O capítulo mais recente veio em 2025: a Masimo vendeu toda a divisão de áudio para a Harman International — subsidiária da Samsung — por US$ 350 milhões. B&W agora divide teto corporativo com JBL, Mark Levinson, Revel e Harman Kardon. A sede, no entanto, continua em Worthing, e a engenharia continua britânica.

O legado

Poucas marcas de áudio sobrevivem seis décadas sem perder a alma. B&W conseguiu porque tratou cada caixa como um problema de engenharia a ser resolvido, não como um produto a ser cortado até caber no orçamento. De uma herança de 10 mil libras a monitores de estúdio que definem o som de Hollywood, a trajetória de John Bowers prova que obsessão por qualidade — quando alimentada por talento real — não é luxo. É estratégia.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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