Existe um momento em que um produto deixa de ser equipamento de áudio e se torna objeto de arte. Franco Serblin dedicou a vida inteira a buscar esse momento — e a marca que ele criou, a Sonus Faber, é possivelmente a empresa de áudio que mais se aproximou de alcançá-lo.
Franco Serblin: o artesão com ouvido de músico
Gianfranco Serblin nasceu por volta de 1939 em Vicenza, no nordeste da Itália. Filho de Ivan Srblin, um imigrante croata da Ístria que italianizou o sobrenome ao se estabelecer em Trieste, Franco era o caçula de sete irmãos. Cresceu cercado pela tradição artesanal do Vêneto — uma região onde fabricar coisas bonitas com as mãos não é hobby, é identidade cultural.
Em 1980, Serblin construiu sua primeira caixa de som: o “Projeto Caracol”, produzido em apenas dez unidades com crossovers feitos à mão e gabinetes de madeira esculpidos com precisão de marceneiro. O projeto chamou atenção imediata da comunidade hi-fi europeia — não apenas pelo som, mas pela beleza dos gabinetes curvos, inspirados na tradição dos luthiers de Cremona, a cidade dos fabricantes de violinos.
A fundação: som do artesão
Em 14 de março de 1983, Serblin fundou oficialmente a Sonus Faber em um pequeno laboratório em Monteviale, nas colinas de Vicenza. O nome vem do latim: sonus (som) + faber (artesão) — “o som do artesão”.
A filosofia era clara desde o primeiro dia: tratar o gabinete de uma caixa de som como um luthier trata o corpo de um violino. Não apenas como um recipiente para os drivers, mas como um componente acústico ativo que contribui para o timbre final. As laterais eram montadas em seções de madeira maciça intercaladas com ébano — como o casco de um barco ou o corpo de um alaúde — resultando em gabinetes curvos, orgânicos e acusticamente otimizados.
Os materiais eram reais: madeira maciça (nogueira, ébano, maple), couro legítimo nos painéis frontais e acabamentos feitos à mão. Numa época em que a maioria das caixas de som era uma caixa retangular de MDF, a Sonus Faber parecia vir de outro universo.
A Coleção Homage: homenagem aos mestres de Cremona
O gesto mais ousado de Serblin foi batizar suas caixas mais nobres com os nomes dos maiores luthiers italianos — os fabricantes de violinos da era de ouro de Cremona. Não era marketing: era declaração de intenção.
Em 1993, a Sonus Faber lançou a Guarneri Homage, uma bookshelf stand-mount nomeada em homenagem a Giuseppe Guarneri del Gesù. Era uma caixa pequena que soava imenso — e custava como um carro. Inaugurou a coleção Homage, que se tornaria a linha de assinatura da marca.
Vieram depois a Amati Homage (1998), torre nomeada em homenagem a Andrea Amati, fundador da tradição cremonense; e a Stradivari Homage (2004), o ápice da coleção, homenageando Antonio Stradivari. Mais tarde, a Serafino completou o quarteto — batizada em homenagem a Santo Serafino, mestre veneziano treinado na oficina de Niccolò Amati.
A saída de Serblin e o legado pessoal
Em 2006, após 23 anos à frente da Sonus Faber, Franco Serblin deixou a empresa. As razões nunca foram totalmente públicas, mas a crescente profissionalização e os novos investidores mudaram a dinâmica criativa. Serblin fundou a Franco Serblin Loudspeakers e, cinco anos depois, lançou a Ktema — sua última criação, comercializada em 18 países.
Franco Serblin faleceu em 31 de março de 2013, em Vicenza, aos 73 anos. Deixou uma marca que transformou caixas de som em peças de museu — literalmente.
De mãos italianas para bolsos americanos
Após a saída de Serblin, a Sonus Faber passou por várias mudanças de propriedade. Em 2007, o fundo italiano Quadrivio SGR adquiriu a empresa, criando o Fine Sounds Group. Nos anos seguintes, o grupo incorporou Audio Research, Sumiko, Wadia e, em 2012, a lendária McIntosh Laboratory.
Em 2014, o grupo foi comprado por uma parceria entre o CEO Mauro Grange e a firma de private equity francesa LBO France. Renomeado McIntosh Group, passou para a texana Highlander Partners em 2022.
E então, em novembro de 2024, o capítulo mais surpreendente: a Bose Corporation adquiriu o McIntosh Group — incluindo Sonus Faber, McIntosh e Sumiko — por cerca de US$ 225 milhões. A marca de cancelamento de ruído e caixas Bluetooth agora é dona da fabricante artesanal de caixas de US$ 750.000.
Sonus Faber hoje
A sede continua em Arcugnano, Vêneto, e a produção segue artesanal. A linha atual vai da acessível Lumina (entrada, com madeira real e couro) até a absurda Suprema — um sistema de quatro colunas lançado em 2024 para o 40º aniversário, ao preço de US$ 750.000.
A parceria com a Maserati rendeu sistemas de som automotivos premiados pela EISA três anos consecutivos (MC20, Grecale, GranTurismo). E uma edição especial Lamborghini das caixas Il Cremonese mostrou que o luxo automotivo e o hi-fi artesanal falam a mesma língua.
O legado
A Sonus Faber não democratizou o hi-fi — nunca pretendeu. O que ela fez foi provar que caixas de som podem ser instrumentos musicais por direito próprio, não apenas caixas com drivers. Que madeira tratada com respeito soa diferente de MDF industrial. Que beleza e performance não são opostos — são complementos.
Franco Serblin provavelmente não aprovaria uma caixa Bluetooth de R$ 300. Mas cada vez que um engenheiro de áudio usa madeira real, curva um gabinete ou trata uma caixa como algo mais que um retângulo, está, de alguma forma, honrando o artesão de Vicenza.