Em 2011, um engenheiro de algoritmos de busca do Google chamado Steven Yang pediu demissão, voltou da Califórnia para a China e investiu US$ 200 mil das próprias economias numa empresa de baterias de reposição para laptops. Quinze anos depois, a Anker Innovations fatura mais de 30 bilhões de yuans por ano, está listada na bolsa de Shenzhen, planeja IPO em Hong Kong e domina o mercado global de áudio portátil acessível. Essa é a história da marca que provou que tecnologia chinesa pode competir — e vencer — pelo mérito.
Do Google para a garagem (com escala)
Yang nasceu na China, fez graduação em ciência da computação na Universidade de Pequim, mestrado na Universidade do Texas em Austin e entrou no Google em 2006 como engenheiro sênior de algoritmos de busca. O salário era bom, a vida era confortável — mas Yang queria empreender.
Com US$ 200 mil e um grupo de ex-colegas do Google (incluindo o líder técnico Dongyang Peng), ele fundou a empresa em setembro de 2011 em Shenzhen. O nome — Anker, do alemão para “âncora” — foi escolhido para transmitir estabilidade e confiança. Os primeiros produtos eram mundanos: baterias de reposição e carregadores de smartphone vendidos exclusivamente pela Amazon.
O chip que mudou tudo
Em 2013, a Anker desenvolveu o PowerIQ, um chip de carregamento inteligente que identificava automaticamente o dispositivo conectado e entregava a amperagem ideal. Parece trivial hoje, mas em 2013 era revolução — e fez da Anker a marca número 1 em carregadores portáteis na Amazon em 2014.
O insight de Yang era simples: o consumidor médio não se importa com a marca do carregador, desde que funcione bem e custe menos. A Anker entregava exatamente isso — qualidade de marca premium por preço de genérico. Era a mesma lógica que, anos depois, aplicaria ao áudio.
A entrada no áudio e o nascimento da Soundcore
Em 2014, a Anker começou a vender alto-falantes Bluetooth baratos na Amazon. Em 2016, iniciou o desenvolvimento de fones de ouvido. Em 2017, lançou seus primeiros true wireless via Kickstarter. E em 25 de abril de 2018, em eventos simultâneos em Nova York e Tóquio, a Anker apresentou oficialmente a Soundcore como submarca independente de áudio.
A estratégia era separar a imagem de “marca de carregador” da ambição de competir em áudio. Os primeiros produtos Soundcore — os fones Space NC e a caixa Flare — já mostravam a filosofia: 80% da qualidade por 40% do preço das marcas estabelecidas.
Os produtos que fizeram a diferença
A Soundcore acertou em cheio nos true wireless. A linha Liberty — especialmente os Liberty Air 2 Pro (2021) com ANC customizável e HearID — vendeu milhões de unidades e ganhou prêmios da iF Design e da CES. Os Liberty 3 Pro foram reconhecidos como os melhores true wireless abaixo de US$ 100.
Nas caixas Bluetooth, a linha Motion repetiu a fórmula: a Motion Boom trouxe graves de caixa grande por preço de caixa pequena; a Motion 300 com LDAC e IPX7 desbancou concorrentes que cobravam o dobro; e a Motion X600 com áudio espacial mostrou que a Soundcore não tinha medo de inovar.
Em 2026, a Anker lançou o chip Anker Thus, um processador de IA dedicado para áudio que processa som diretamente no dispositivo — sem precisar de conexão com a nuvem. É o tipo de investimento em P&D que marcas de áudio chinesas de segunda linha não fazem.
O fim da Soundcore
Em agosto de 2025, a Anker fundiu a Soundcore com a Nebula (sua marca de projetores). Em 2026, a decisão ficou mais radical: a marca Soundcore está sendo descontinuada. Na China, já se chama “Anker Sound & Video”. No Japão, Soundcore e eufy foram absorvidas pela marca principal. A expectativa é que o resto do mundo siga.
A lógica é comercial: a Anker tem mais reconhecimento global que a Soundcore. Unificar tudo sob um nome fortalece a marca-mãe. Mas para consumidores que associavam Soundcore a áudio, a transição pode confundir — pelo menos no curto prazo.
Os números
A Anker Innovations faturou 30,5 bilhões de yuans em 2025 (cerca de US$ 4,2 bilhões), com lucro líquido de 2,62 bilhões de yuans. Steven Yang mantém aproximadamente 74% das ações. O portfólio inclui cinco submarcas: Anker (carregamento), Soundcore/Anker Audio-Visual (áudio), eufy (smart home), Anker SOLIX (energia solar) e Nebula (projetores).
Controvérsias
Nem tudo é perfeito. A eufy (submarca de segurança) enfrentou escândalos de privacidade por armazenar dados na nuvem sem informar os usuários. E desde 2023, múltiplos recalls de power banks por risco de incêndio mancharam a reputação de qualidade. Em dezembro de 2024, o CPSC americano fez recall de cerca de 69.000 unidades de caixas Soundcore por superaquecimento de bateria.
O legado (até agora)
A Anker/Soundcore não inventou nada — não criou um driver revolucionário, não patenteou um codec, não redesenhou a acústica de caixas portáteis. O que ela fez foi democratizar o acesso a áudio decente. Fones com ANC por R$ 250. Caixas com LDAC por R$ 400. True wireless que competem com os AirPods por metade do preço.
Para o mercado brasileiro, onde um JBL Flip 7 custa R$ 800 e um Sony custa R$ 1.200, ter uma alternativa competente por R$ 300-500 não é detalhe — é o que permite que mais gente ouça música com qualidade. E isso, independente do que achemos da marca, importa.