Na fábrica da Focal em La Talaudière, nos arredores de Saint-Étienne, existe uma sala que ninguém pode fotografar. Dentro dela, técnicos vestidos com macacões de proteção completa — como numa usina nuclear — manipulam berílio puro para fabricar tweeters. O berílio é sete vezes mais rígido que o aço e três vezes mais leve que o alumínio, mas seus vapores são tóxicos. A Focal é apenas a segunda empresa na história a dominar essa tecnologia (depois da Yamaha, em 1974). É esse tipo de obsessão que transformou um pequeno ateliê francês numa das marcas de áudio mais respeitadas do planeta.
O jornalista que não encontrava um driver bom o suficiente
Jacques Mahul era jornalista técnico e engenheiro na Audax, fabricante francesa de alto-falantes, onde participou da criação do primeiro tweeter dome de tecido da Europa. Apaixonado por hi-fi e insatisfeito com os drivers disponíveis, decidiu fazer os seus próprios.
Em 1979, fundou a Focal-JMlab — o “JMlab” significa “Jacques Mahul Laboratory” — dentro do ateliê de mecânica de precisão do pai, a France Filières. O primeiro produto foi a DB13, uma bookshelf compacta que produzia graves desproporcionais ao tamanho. Mahul vendeu as primeiras unidades para conhecidos; dali, o negócio cresceu.
Treze patentes e o cone que ninguém copiou
O que separa a Focal de quase todos os concorrentes é que ela projeta e fabrica cada driver internamente. Nenhum componente comprado de prateleira. Isso gerou 13 patentes de membrana ao longo de 45 anos:
- 1981: Tweeter dome invertido — a assinatura sonora que define a marca até hoje
- 1988: Cone Polyglass — microesferas de vidro sobre celulose
- 1995: Cone “W” sandwich — fibra de vidro/espuma/fibra de vidro
- 2002: Tweeter de berílio puro
- 2013: Membrana Flax — fibras naturais de linho em matriz de vidro
- 2019: Slatefiber — fibras de carbono recicladas com polímero termoplástico
Cada membrana tem personalidade sonora própria, e a Focal as distribui estrategicamente pela linha: Slatefiber para a acessível Chora, Flax para a Aria, “W” para a Sopra, e berílio para a Utopia.
Grande Utopia: 265 kg de som absoluto
Em 1995, a Focal apresentou a Grande Utopia — e redefiniu o que uma caixa de som poderia ser. A versão atual, Grande Utopia EM Evo, é um monumento de engenharia: 2 metros de altura, 265 kg por caixa (o peso de três adultos), resposta de frequência de 18 Hz a 40 kHz, e um preço de US$ 280.000 o par.
Cada caixa tem ângulos de inclinação ajustáveis por manivela destacável. A instalação exige rigging profissional. É, provavelmente, o alto-falante doméstico mais ambicioso já produzido.
A Grande Utopia não é um produto. É uma declaração de que os limites da reprodução sonora ainda não foram alcançados.
High End Munich, sobre a Grande Utopia EM Evo
Do ateliê ao Comitê Colbert
O crescimento foi impressionante: de 9 milhões de euros em 1992 para 156 milhões em 2022 (grupo Vervent). A chegada de Gérard Chrétien como diretor em 1990 transformou a gestão. Em 2007, a Focal adquiriu a Guy HF, especialista em marcenaria, consolidando a produção de gabinetes internamente em Bourbon-Lancy.
Em 2011, veio a fusão com a Naim Audio — a icônica fabricante britânica de eletrônicos de Salisbury — criando o grupo Vervent Audio. A parceria uniu a excelência em transdutores da Focal com a engenharia de amplificação da Naim, resultando na rede de lojas “Focal Powered by Naim” com mais de 50 unidades no mundo.
Em 2024, a Focal foi admitida no Comitê Colbert — a associação das marcas de luxo francesas que inclui Chanel, Hermès, Dior, Cartier e Baccarat. É a única marca de alto-falantes nesse clube.
Fones de US$ 100 mil e carros Peugeot
Em 2016, a Focal lançou os fones Utopia — abertos, com drivers de berílio, considerados entre os melhores do mundo. A colaboração com a joalheria Tournaire levou o conceito ao extremo: fones Utopia em ouro 18 quilates com 6,5 quilates de diamantes, limitados a 8 unidades, por 100.000 euros cada.
No mercado automotivo, a Focal equipa veículos da Peugeot (3008, 5008, 508), DS Automobiles, Alpine A110 e Opel — sistemas desenvolvidos sob medida para cada modelo.
Novo capítulo: a era Barco
Em maio de 2026, a belga Barco — especialista em visualização e projeção — completou a aquisição da Vervent Audio por aproximadamente 135 milhões de euros. Focal e Naim agora operam como unidade de negócios dentro da divisão de entretenimento da Barco.
A fábrica em La Talaudière continua a mesma: 17.400 metros quadrados, 300 funcionários, cada driver fabricado à mão. Em algum lugar dessa fábrica, alguém está vestindo um macacão de proteção para montar mais um tweeter de berílio. Jacques Mahul começou sozinho, no ateliê do pai. Quarenta e cinco anos depois, a Focal faz parte do mesmo clube que a Chanel — e o som continua sendo feito à mão, em Saint-Étienne.