Música & Cultura 03 AGO 2026

Bowers & Wilkins: da loja de rádios em Worthing ao Nautilus que transformou caixas de som em escultura — e ao som de referência de Abbey Road

Como dois veteranos de guerra britânicos, uma herança inesperada e a obsessão pela reprodução perfeita de música clássica criaram uma das marcas de áudio mais reverenciadas do mundo — e colocaram seus alto-falantes nos estúdios de Abbey Road.

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Se existe uma marca de áudio que pode reivindicar ter transformado caixas acústicas em objetos de desejo — e em instrumentos científicos ao mesmo tempo —, essa marca é a Bowers & Wilkins. A trajetória que vai de uma modesta loja de rádios numa cidade litorânea do sul da Inglaterra até os estúdios lendários de Abbey Road é, antes de tudo, uma história de obsessão, engenharia e generosidade inesperada.

Da guerra ao rádio

John Bowers e Roy Wilkins se conheceram durante a Segunda Guerra Mundial, servindo no Royal Corps of Signals — a unidade responsável pelas comunicações do exército britânico. Bowers estava estacionado em Whaddon Hall, uma extensão secreta de Bletchley Park, onde mantinha contato de rádio clandestino com agentes e membros da resistência na Europa ocupada. Foi ali, entre válvulas e frequências, que ele e Wilkins descobriram a paixão compartilhada pelo som.

Com o fim da guerra, em agosto de 1946, os dois abriram uma pequena loja de rádios e eletrônicos em Worthing, West Sussex — a cidade natal de Bowers. O negócio atendia a crescente legião de radioamadores do pós-guerra e, aos poucos, expandiu para televisores, serviços de manutenção e aluguel de equipamentos. Peter Hayward, amigo de infância de Bowers, assumiu o departamento técnico. Mas John Bowers queria mais: ouvia música clássica e achava que nenhum alto-falante disponível reproduzia a experiência de uma orquestra ao vivo de maneira satisfatória.

A herança de Miss Knight

Por quase vinte anos, a loja de Worthing funcionou como negócio principal, enquanto Bowers experimentava projetos de caixas acústicas nas horas vagas. A virada aconteceu em 1966, quando uma cliente fiel, conhecida como Miss Knight, faleceu e deixou para Bowers uma quantia significativa em seu testamento. Essa herança inesperada deu a ele o capital necessário para fundar a B&W Electronics como uma empresa independente de alto-falantes. O nome, claro, vinha das iniciais de Bowers e Wilkins.

Livre para seguir sua obsessão, John Bowers partiu para inovar. O primeiro produto comercial da empresa, o P1, chegou em 1967. Mas foi a DM70, lançada em 1970, que colocou a B&W no radar do mundo hi-fi. A DM70 era uma caixa híbrida eletrostática — combinava um woofer de 30 cm com um painel eletrostático curvo de onze elementos para médios e agudos. Para a época, era um design audacioso, produzido artesanalmente em pequenos lotes. Steve Roe, que entrou na empresa no início dos anos 1970, contava que ele e mais dois colegas montavam cada unidade eletrostática à mão.

Kevlar, 801 e Abbey Road

A busca pela reprodução perfeita levou a B&W a explorar novos materiais. Em 1976, a DM6 introduziu cones de Kevlar — o mesmo material usado em coletes à prova de balas — para médios, uma inovação que se tornaria marca registrada da empresa por décadas. Mas o produto que realmente consagrou a B&W como referência de estúdio foi a 801, lançada em 1979 após três anos de desenvolvimento.

A 801 foi concebida sem restrições práticas: o objetivo era atingir o mais alto padrão de reprodução de som, com distorção ultrabaixa. O resultado impressionou tanto que os Abbey Road Studios — onde os Beatles gravaram a maior parte de sua discografia — adotaram a 801 como monitor de referência para gravações clássicas. Foi o início de uma parceria que duraria décadas e se tornaria um dos pilares de marketing e credibilidade da marca.

Matrix, Nautilus e a caixa que virou escultura

Em 1986, a B&W introduziu a tecnologia Matrix: uma estrutura interna tridimensional de reforços em compensado que transformava o gabinete numa espécie de monólito rígido, eliminando vibrações indesejadas. A Matrix 801 chegou em 1987 e, no ano seguinte, Abbey Road fez o upgrade — os estúdios passaram a usar exclusivamente os novos monitores.

Mas o salto mais espetacular veio em 1993, com o Nautilus. Após cinco anos de pesquisa, a B&W apresentou uma caixa acústica que parecia saída de um filme de ficção científica — ou de um museu de arte moderna. Seu formato de concha espiral não era capricho: os tubos curvos funcionavam como guias de onda que absorviam o som emitido pela parte traseira dos drivers, eliminando reflexões internas. Cada par era fabricado à mão em Worthing. O Nautilus se tornou um ícone do design industrial e está na coleção permanente do Museu de Design de Londres.

Em 1998, a tecnologia do Nautilus foi adaptada para a linha Nautilus 800 Series, e em 2005 veio a 800 Series Diamond, com tweeters de domo de diamante sintético — um material que vibra de forma excepcionalmente linear em altas frequências.

Continuum, wireless e novos donos

A B&W nunca parou de pesquisar materiais. O cone Continuum, fruto de oito anos de desenvolvimento, substituiu o Kevlar nos médios, oferecendo resposta ainda mais transparente e neutra. A tecnologia estreou na 800 Series e se tornou padrão em toda a linha. Mais recentemente, a Biomimetic Suspension — que substitui a aranha de tecido tradicional por um sistema minimalista de suspensão composta — representou outro avanço significativo na pureza dos médios.

No universo wireless, a marca lançou a suíte Formation em 2019 e continuou investindo em fones de ouvido premium como o Px8 e no icônico alto-falante Zeppelin, originalmente criado em 2007 como dock para iPod e reinventado como peça de streaming de alta resolução.

Quanto à propriedade, a história recente foi movimentada. Em 2016, a B&W foi adquirida pela Eva Automation; em 2020, passou para a Sound United; em 2022, a Masimo Corporation comprou todo o grupo. Finalmente, em 2025, a Harman International — subsidiária da Samsung — adquiriu a divisão de áudio por 350 milhões de dólares, incorporando B&W, Denon, Marantz e outras marcas ao seu portfólio.

O legado de Worthing

O que permanece, apesar das mudanças de dono, é a sede em Worthing e a filosofia de John Bowers: não aceitar nenhum compromisso entre o que um alto-falante reproduz e o que o artista quis expressar. Da herança de Miss Knight ao diamante sintético no tweeter, do rádio clandestino na guerra ao monitor de Abbey Road, a Bowers & Wilkins é um lembrete de que grandes empresas de áudio nascem de grandes obsessões — e, às vezes, de uma dose de sorte.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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