Música & Cultura 03 AGO 2026

Bang & Olufsen: 100 anos da marca dinamarquesa que transformou áudio em arte — do rádio no sótão ao design que virou peça de museu

Fundada em 1925 por dois engenheiros num sótão na Dinamarca, a Bang & Olufsen passou um século desafiando a indústria ao provar que som e beleza podem — e devem — caminhar juntos.

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Existe uma cidade na Dinamarca onde o vento do Mar do Norte sopra forte, as casas são discretas e o silêncio domina as ruas. Struer, na península da Jutlândia, não parece o berço de uma revolução estética. Mas foi ali — mais precisamente no sótão da propriedade da família Olufsen, chamada Quistrup — que dois jovens engenheiros decidiram, em 17 de novembro de 1925, construir rádios que fossem mais do que simples caixas de madeira com válvulas. Peter Bang e Svend Olufsen tinham um sonho em comum: transformar o áudio doméstico em algo que merecesse ocupar o centro da sala.

Do sótão à fábrica: o Eliminator e os primeiros passos

Peter Bang havia passado seis meses nos Estados Unidos, trabalhando numa fábrica de rádios, e voltou à Dinamarca com a cabeça cheia de ideias. Svend Olufsen cuidava do lado comercial, enquanto Bang mergulhava na engenharia. A divisão funcionou: em 1927, a dupla lançou o B&O Eliminator, um dispositivo que permitia aos rádios funcionarem conectados diretamente à rede elétrica, dispensando as incômodas baterias que até então eram padrão. A inovação foi um sucesso comercial imediato e financiou a construção da primeira fábrica da empresa nos arredores de Struer, ainda naquele mesmo ano.

Nos anos seguintes, a Bang & Olufsen consolidou-se como fabricante de rádios e amplificadores de alta qualidade, investindo em acabamento e materiais nobres numa época em que a maioria dos concorrentes tratava aparelhos de som como utilitários.

A guerra que destruiu — e fortaleceu

A Segunda Guerra Mundial trouxe um capítulo dramático para a empresa. A Dinamarca foi ocupada pelas forças nazistas, e a Bang & Olufsen recusou-se a colaborar com o regime. Muitos funcionários participaram ativamente da Resistência Dinamarquesa, e o próprio Svend Olufsen desempenhou papel crucial ajudando judeus e membros da Resistência a fugir para a Suécia.

O preço da coragem foi alto: em 14 de janeiro de 1945, as forças de ocupação destruíram completamente as fábricas da Bang & Olufsen. Mas uma dica do movimento clandestino permitiu que funcionários retirassem documentos técnicos e projetos essenciais antes da destruição. Em apenas um ano, a empresa reconstruiu suas instalações com tecnologia ainda mais moderna e retomou a produção em 1946. A fênix de Struer estava de pé novamente.

Jacob Jensen e a revolução do design

Se os fundadores deram à B&O sua alma sonora, foi o designer Jacob Jensen quem lhe deu o rosto. A partir dos anos 1960, Jensen estabeleceu uma linguagem visual minimalista que se tornaria sinônimo da marca: linhas retas, alumínio escovado, vidro fumê e uma obsessão por esconder a complexidade técnica sob superfícies serenas.

O Beogram 4000 (1972) foi uma obra-prima de engenharia e forma. Seu braço tangencial — que se movia em linha reta sobre o disco, reproduzindo o som exatamente como havia sido gravado — era uma proeza técnica inédita. A suspensão exclusiva tornava o toca-discos praticamente imune a vibrações externas, o que a B&O promovia com humor: era o primeiro vinil “à prova de dança”.

Já o Beomaster 1900 (1976) dispensou botões físicos em favor de painéis sensíveis ao toque, uma interface que parecia ficção científica quando Nixon ainda governava os Estados Unidos. Esses produtos e dezenas de outros renderam a Jensen uma exposição individual no MoMA de Nova York em 1978, intitulada Design for Sound, com 28 aparelhos de áudio — muitos dos quais permanecem na coleção permanente do museu até hoje.

De caixas de som a esculturas sonoras

Ao longo das décadas de 1980 e 1990, a Bang & Olufsen continuou a expandir seu universo. O Beocenter 9000, com seu painel de vidro espelhado e comandos ocultos que só apareciam quando necessário, virou ícone do design industrial. Em 1977, a empresa abriu capital na Bolsa de Valores de Copenhague, deixando de ser um negócio estritamente familiar para se tornar referência no mercado premium global.

No século XXI, a marca abraçou as novas tecnologias sem abandonar sua essência. Os alto-falantes BeoLab — como o monumental BeoLab 90, com suas 18 unidades de amplificação e design esculpido por computador — redefiniram o que um alto-falante doméstico poderia ser. O Beosound A9, com seu formato circular apoiado em três pés de madeira, tornou-se presença constante em revistas de arquitetura e decoração. O Beosound Theatre, uma soundbar que mais parece uma peça de mobiliário, mostrou que a marca entende o streaming tão bem quanto entendia o vinil.

No universo dos fones de ouvido, o Beoplay H95 e o mais recente Beoplay H100 posicionaram a B&O no topo do segmento premium, competindo com marcas como Sony e Apple não apenas em qualidade sonora, mas em materiais e acabamento artesanal — couro legítimo, alumínio anodizado, titânio.

Cem anos: a coleção centenária e o legado

Em 2025, a Bang & Olufsen celebrou seu centenário com a Centennial Collection, lançada globalmente em outubro. A coleção reimaginou três produtos icônicos — Beoplay H100, Beosound A5 e Beosound A9 5ª geração — em acabamentos que homenageiam diferentes décadas da marca, das grades geométricas dos rádios dos anos 1950 ao alumínio escovado dos anos 1980. O evento de comemoração aconteceu na Ópera Real Dinamarquesa, em Copenhague — um cenário à altura da ambição artística da empresa.

Parcerias com Four Seasons Yachts, LG e HP mostram que a B&O continua a expandir seu alcance para além dos alto-falantes e fones. Mas a alma permanece a mesma: a convicção, nascida naquele sótão em Struer, de que o som merece ser bonito.

Em cem anos, a Bang & Olufsen transformou áudio em arte, resistiu a guerras, reinventou interfaces e colocou alto-falantes em museus. Poucas marcas no mundo podem dizer o mesmo. E se Peter Bang e Svend Olufsen pudessem ver o que nasceu daquele primeiro rádio no sótão de Quistrup, provavelmente diriam que o som ficou ainda melhor do que imaginaram.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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