Saul Bernard Marantz nasceu em 1911 em Brooklyn, Nova York, e era músico antes de ser engenheiro. Tocava violoncelo e frequentava concertos no Carnegie Hall e no Metropolitan Opera. Quando tentou reproduzir aquela experiência em casa nos anos 1940, descobriu que o equipamento de áudio disponível era, nas palavras dele, inaceitável. Em vez de reclamar, construiu o seu próprio.
O Audio Consolette e o nascimento da marca
No final dos anos 1940, Marantz projetou um pré-amplificador para uso pessoal que chamou de Audio Consolette. Amigos ouviram, ficaram impressionados e pediram cópias. A demanda cresceu a ponto de Marantz formalizar a empresa em 1953, abrindo uma pequena fábrica em Woodside, Queens, Nova York.
O primeiro produto comercial, o Model 1, era um pré-amplificador mono lançado em 1954 que impressionou críticos pela dinâmica e controle que nenhum concorrente oferecia. Mas foi apenas o começo.
A santíssima trindade: Model 7, Model 9, Model 10B
Entre 1958 e 1964, a Marantz lançou três produtos que se tornaram lendários no mundo audiófilo:
O Model 7 (1958), um pré-amplificador estéreo que redefiniu o padrão de transparência e separação de canais. O Model 9 (1960), um amplificador de potência valvulado cuja estabilidade e controle eram tão excepcionais que a NASA adaptou sua arquitetura para uso no Programa Apollo — um amplificador de áudio que contribuiu para levar o homem à Lua. E o Model 10B (1964), um tuner FM considerado por muitos como o melhor já fabricado, com um osciloscópio integrado no painel frontal para visualização do sinal.
Esses três componentes são hoje peças de colecionador que alcançam valores de cinco dígitos em dólares quando aparecem em bom estado.
O primeiro receiver e a venda
Em 1967, a Marantz lançou o Model 18 — seu primeiro receiver, combinando pré-amplificador, amplificador de potência e tuner FM num único chassi. Era uma revolução para a época, quando cada componente era vendido separadamente.
Mas a empresa enfrentava dificuldades financeiras causadas pelo perfeccionismo de Saul Marantz e pelos custos de produção artesanal. Em 1964, a Superscope Inc. adquiriu a Marantz, e Saul continuou como consultor por alguns anos antes de se afastar.
A era dos receivers dourados
Sob a Superscope, e depois sob a Philips (que adquiriu a marca em 1980), a Marantz expandiu para um público mais amplo com receivers estéreo que se tornaram ícones: o 2270, o 2325 e o lendário 2600 — monstros de alumínio escovado com medidores VU iluminados que hoje são disputados por colecionadores e audiófilos nostálgicos.
A estética dourada — painéis frontais em alumínio cor champagne com letras e medidores iluminados — tornou-se a identidade visual da marca e persiste até hoje nos produtos da linha hi-fi.
Marantz hoje: entre o hi-fi e o home theater
Atualmente parte do grupo Sound United (junto com Denon, sob o conglomerado Masimo), a Marantz ocupa um nicho específico: receivers e amplificadores com som musicalmente refinado e acabamento premium. A linha Cinema (Cinema 50, Cinema 70s) compete com os receivers Denon usando hardware similar mas com voicing diferente — onde Denon prioriza precisão analítica, Marantz busca musicalidade e calor.
A assinatura sonora Marantz — HDAM (Hyper Dynamic Amplifier Module) nos circuitos de amplificação — dá aos seus receivers um caráter ligeiramente mais quente e envolvente que muitos audiófilos preferem para música estéreo, mesmo que a diferença objetiva em relação aos Denon equivalentes seja sutil.
Saul Marantz faleceu em 1997, aos 85 anos. O músico que só queria ouvir Carnegie Hall em casa deixou uma marca que, 70 anos depois, ainda carrega seu sobrenome e sua obsessão por som musical.
A Marantz existe porque um homem achava que ouvir música em casa deveria emocionar tanto quanto ouvir ao vivo. Setenta anos depois, cada receiver com painel dourado ainda carrega essa teimosia.
Redação Guia do Áudio