Música & Cultura 01 AGO 2026

Klipsch: o engenheiro de Arkansas que ouviu um alto-falante de corneta no Chile e passou 80 anos provando que estava certo

De um protótipo caseiro em 1946 à única caixa de som em produção contínua por mais de 70 anos: a história da marca que transformou o horn loudspeaker numa religião audiófila.

MÚSICA & CULTURA

Paul Wilbur Klipsch nasceu em 1904 em Elkhart, Indiana, e cresceu em El Paso, Texas. Era engenheiro por formação, militar por circunstância e teimoso por natureza. A combinação dessas três qualidades produziu uma das marcas de áudio mais distintas e polarizantes do mundo — e uma caixa de som que está em produção contínua desde 1946.

A epifania no Chile

Em 1930, Klipsch trabalhava no Chile quando comparou o alto-falante de corneta (horn) do seu rádio com o alto-falante de cone convencional de um amigo. A diferença foi imediata e visceral: o horn era dramaticamente mais eficiente, produzindo mais volume com menos potência e menos distorção. Para Klipsch, não era questão de preferência — era questão de física. E ele passaria o resto da vida provando isso.

O nascimento da Klipschorn

De volta aos Estados Unidos, Klipsch começou a desenvolver um alto-falante que usasse as paredes e o canto de uma sala como extensão da corneta — multiplicando a eficiência do driver sem precisar de uma corneta gigantesca. O resultado foi a Klipschorn: um gabinete de três vias com um woofer de 15 polegadas em corneta dobrada (folded horn) que usa o canto da sala como prolongamento acústico.

Klipsch patenteou o design em 1945, registrou a empresa Klipsch & Associates em 1946, e começou a fabricar cada caixa com as próprias mãos em Hope, Arkansas — uma cidade rural onde a empresa permanece até hoje. O primeiro funcionário só foi contratado em 1948.

Hope, Arkansas: 80 anos no mesmo endereço

Enquanto outras marcas de áudio migraram para fábricas na China ou foram absorvidas por conglomerados sem rosto, a Klipsch mantém sua fábrica em Hope, Arkansas, onde a linha Heritage — incluindo a Klipschorn — continua sendo montada à mão sob encomenda. A Klipschorn é a única caixa de som no mundo em produção contínua por mais de 70 anos, tendo passado por revisões e atualizações sem nunca sair de linha.

A linha Heritage expandiu para incluir outros clássicos: a Cornwall (versão que não precisa de canto), a Heresy (a menor da família) e a La Scala (desenhada originalmente para uso em cinema ao ar livre). Todas compartilham a filosofia de alta eficiência e drivers de corneta.

A filosofia do horn

Klipsch defendia três princípios que se tornaram dogma da marca: alta eficiência (mais som com menos watts), baixa distorção (o horn controla a dispersão do som melhor do que um cone aberto) e resposta dinâmica (a capacidade de reproduzir picos de volume sem comprimir a música). Ele era notoriamente combativo em debates técnicos e publicou artigos acadêmicos defendendo o horn com fervor quase religioso.

A frase mais famosa atribuída a Klipsch resume sua filosofia: ele certa vez disse que se um engenheiro não conseguia projetar um bom alto-falante de corneta, deveria considerar outra profissão.

Paul Klipsch: o homem

Paul Klipsch trabalhou na empresa até os 98 anos — literalmente até o dia em que morreu, em 2002, em Hope, Arkansas. Acumulou 23 patentes ao longo da vida, não se aposentou nunca e era conhecido por responder pessoalmente a cartas de clientes. Era um personagem: usava camisetas com frases provocativas sobre áudio, debatia com qualquer pessoa sobre acústica e recusava-se a fazer concessões que comprometessem a qualidade do som.

Klipsch hoje: dos horns às caixas Bluetooth

Em 2011, a Klipsch foi adquirida pela Voxx International, e desde então expandiu para categorias que Paul Klipsch provavelmente torceria o nariz: fones de ouvido, soundbars e caixas Bluetooth. A linha Reference Premier trouxe a tecnologia Tractrix Horn para caixas mais acessíveis, e a Music City Series II, lançada no 80º aniversário da marca em 2026, levou a estética e a sonoridade da marca para o mundo portátil com Bluetooth e Auracast.

Mas o coração da Klipsch continua em Hope, Arkansas, onde artesãos montam Klipschorns sob encomenda com o mesmo cuidado que Paul dedicava em 1946. Poucas marcas de áudio podem dizer isso — e nenhuma pode dizer que faz isso há 80 anos.

A Klipsch não é apenas uma marca de caixas de som. É uma tese de engenharia que durou 80 anos — e que ainda soa melhor do que a maioria dos argumentos contra ela.

Redação Guia do Áudio

⌬ FIM · 4 min de leitura

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